104. Quem adota a crença, primeiro assume as conclusões, e depois vai atrás dos argumentos. E o que é pior: só aceita os argumentos que não abalem suas conclusões já assumidas. Por outro lado, aqueles que adotam a razão, o método racional, primeiro levantam as hipóteses, e depois saem em busca de conclusões. Caso as conclusões porventura invalidem suas hipóteses, formulam outras, sem que por isso se sintam ofendidos. Coisa que os crentes geralmente não suportam (quando se trata por exemplo de Deus), posto que suas teorias sempre são tomadas como dogmas, como fé inabalável, e não como hipóteses.
NO ARMAZÉM DE MEU PAI
Varrendo os ciscos, os papéis, as tampinhas de garrafa, todo dia, eu aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Varrendo, aprendi a ter disciplina. Eu só tinha nove ou dez anos, mas já varria com método, coreografando uma espécie de dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que combinassem com as irregularidades daquele chão de cimento queimado. Varrendo, eu planejava a minha vida. Varrendo ciscos geométricos por sobre os cacos coloridos da cerâmica vermelha eu construía uma louca arquitetura de mistérios insondáveis. E então chegava um cliente querendo talvez meio quilo de açúcar. Ou duzentos gramas de mortadela. Às vezes um pão sovado. Não importava: em qualquer das hipóteses, antes de atendê-lo, eu me transformava no Balconista do Olimpo — e o atendia sorrindo. Simpaticamente. Ou seja, varrendo e vendendo, eu aprendi a perceber padrões. Eu aprendi a interpretar as circunstâncias. Varrendo e vendendo, eu aprendi a ser cigano, a ler as mãos — e ver a Sorte. Todo dia.
Todo.
Santo.
Dia.
Varrendo os ciscos, os papéis, as tampinhas de garrafa, todo dia, eu aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Varrendo, aprendi a ter disciplina. Eu só tinha nove ou dez anos, mas já varria com método, coreografando uma espécie de dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que combinassem com as irregularidades daquele chão de cimento queimado. Varrendo, eu planejava a minha vida. Varrendo ciscos geométricos por sobre os cacos coloridos da cerâmica vermelha eu construía uma louca arquitetura de mistérios insondáveis. E então chegava um cliente querendo talvez meio quilo de açúcar. Ou duzentos gramas de mortadela. Às vezes um pão sovado. Não importava: em qualquer das hipóteses, antes de atendê-lo, eu me transformava no Balconista do Olimpo — e o atendia sorrindo. Simpaticamente. Ou seja, varrendo e vendendo, eu aprendi a perceber padrões. Eu aprendi a interpretar as circunstâncias. Varrendo e vendendo, eu aprendi a ser cigano, a ler as mãos — e ver a Sorte. Todo dia.
Todo.
Santo.
Dia.
Aliás, naquele tempo, eu trabalhava de domingo a domingo. Inicialmente no armazém (dos oito aos doze anos) e depois na Churrascaria (dos treze aos dezessete). Eu tinha apenas uma folga por ano. Só na Sexta-feira Santa. E eu nunca reclamei por isso. No fundo, já aos oito anos de idade, eu assumi, seriamente, ter responsabilidade na economia familiar. E fiz dessa responsabilidade uma virtude.
Eu só saí da minha cidade natal porque queria estudar Filosofia na USP. E fui. E estudei. Entrei direto, sem cursinho. Três meses depois eu já estava na primeira fila, tendo aulas maravilhosas com Marilena Chauí, Oswaldo Porchat e Franklin Leopoldo e Silva, entre outros. Encantei-me com a nova situação.
Um dado interessante. Meu Pai proibiu-me de aprender datilografia. Ele me dizia que eu, com dezessete anos, já tinha a experiência de administrar, com sucesso, um armazém e um restaurante. Arrumar emprego de datilógrafo, portanto, segundo ele, seria um retrocesso. Essa parte da história em conto no meu livro Solidão a Mil. Onde eu também conto sobre o dia em que eu ganhei do meu Pai um rádio portátil Philco, de ondas curtas, trazido pelo Tito Klocker. Era o dia do meu décimo aniversário. Foi com esse rádio que eu aprendi espanhol, ouvindo a Rádio El Mundo, de Buenos Aires. Eu também ouvia, todas as noites, a Rádio Central de Moscou, a BBC, a Voz da América, e a Rádio Pequim. E isso mudou minha vida completamente. Para melhor.
Eu só saí da minha cidade natal porque queria estudar Filosofia na USP. E fui. E estudei. Entrei direto, sem cursinho. Três meses depois eu já estava na primeira fila, tendo aulas maravilhosas com Marilena Chauí, Oswaldo Porchat e Franklin Leopoldo e Silva, entre outros. Encantei-me com a nova situação.
Um dado interessante. Meu Pai proibiu-me de aprender datilografia. Ele me dizia que eu, com dezessete anos, já tinha a experiência de administrar, com sucesso, um armazém e um restaurante. Arrumar emprego de datilógrafo, portanto, segundo ele, seria um retrocesso. Essa parte da história em conto no meu livro Solidão a Mil. Onde eu também conto sobre o dia em que eu ganhei do meu Pai um rádio portátil Philco, de ondas curtas, trazido pelo Tito Klocker. Era o dia do meu décimo aniversário. Foi com esse rádio que eu aprendi espanhol, ouvindo a Rádio El Mundo, de Buenos Aires. Eu também ouvia, todas as noites, a Rádio Central de Moscou, a BBC, a Voz da América, e a Rádio Pequim. E isso mudou minha vida completamente. Para melhor.






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