13.4.21

Há exatamente oito anos

Escrevi um texto lindo hoje de manhã, logo após ter beijado a minha Mãe e dançado no infinito. Logo após ter descoberto que meu pai é descendente direto de Leonardo da Vinci.

Logo após ter concluído que a velocidade da Luz é maior do que a velocidade da luz. Logo após também ter descoberto que eu tenho muita sorte em manter a minha Sorte — e poder levá-la para onde quer que eu vá.

Vou agora tomar meu terceiro copo de café. Que fiz com água benta, é claro. Os treze pezinhos de lírio, acabei de aguar na memória. E já coloquei banana para os azulões e os sanhaços que jamais esquecerei...

Mas tenho, ali no canto, um novo jardim.

Floridíssimo!

É a vida.


/// Escrevi esse texto há exatamente oito anos, na manhã ensolarada em 13.04.2013. Foi quando eu saltei profundo pra sair da ratoeira, e criar a empresa Calçadas do Brasil. ///

12.4.21

Minha ideia 1186

 .




Acabo de formalizar a criação da EMc³ — Edson Marques Consultoria³. Porque não me basta ser apenas um poeta zen. Eu quero também criar paredes tão bonitas que pareçam indecentes. Criar calçadas que deslizem sob os pés dos caminhantes... Eu adoro arquitetura, e sou discípulo do Calatrava. E também adoro o jogo das empresas. Sei fazê-las crescer. Foi por isso que criei a Xtratego Ferment, uma empresa-conceito fundamentada no TEMPO. Mais alguns detalhes podem ser vistos na minha página de ideias. Afinal, se antes eu vendia ideias, agora eu sou um Vendedor de Imaginação.



O texto acima foi escrito em 03.11.2013. A publicação original pode ser vista AQUI.

11.4.21

Estrelas a bombordo

Eu abro caminho com estrelas a bombordo e com flores no infinito. Na vida, eu sempre me ligo a certas coisas e me desligo de outras. Fico cheio de tantas, e vazio de muitas.

Um Mar Vermelho inteiro acaba de se abrir aqui agora mesmo à minha frente. E eu respiro como se ondas azuis inflassem de Deus o meu espírito em repouso.

Tudo agora é muito claro para mim.

Até o Céu se esclareceu.

Aliás, se vou para o Norte ou se vou para o Sul — nunca mais saberei. Porque não é preciso mais saber, nos dois sentidos de saber e de preciso.

Nada agora é mais urgente que viver Agora.

Por isso que rasguei os meus mapas, quebrei meu relógio e joguei minha bússola... Acabei de me encontrar — e abracei meu coração.

Apaixonei-me por Mim...

10.4.21

Amar é

 Amar é permitir sempre. 


Amar é deixar que o outro vá — ou que fique, se assim o desejar. 

Amar é ter um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. 


E isso não significa apenas entendimento racional, vai além, muito além: 

Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas. 

Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.


Do meu livro 
Página 314




9.4.21

Fugaz

Grandes paixões amorosas quase sempre duram muito pouco. A natureza da paixão é ser fugaz e passageira. Ninguém suportaria viver aventuras diferentes todo dia, fascinantes e grandiosas — por muito tempo — com a mesma pessoa...

Seria a banalização da gostosura.

7.4.21

Capela da Mãe

Capela de Nossa Senhora de Iracy

Esboço da Capela que vou construir no jardim da minha Mãe. Lembrem-se de Arquimedes, quando disse: "Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo". Só agora eu vejo que tem relação com isso. Essa obra terá um único ponto de apoio. Eu a tinha feito apenas com dois traços: o V e o círculo. Depois, acrescentei (em traços um pouco mais finos) a "Cruz" estilizada, que em verdade é o ideograma em mandarim 上 (shàng), que significa "pra cima, alto, superior, excelente". E que compõe 上帝 (shàng dì), que significa Deus. O altar ficará no círculo (que na execução será uma esfera). Ainda estou extasiado com a beleza dessa ideia. Ela me surgiu de repente, assim que me acordei, anteontem. Acho que foi o espírito do Niemeyer que SUBIU até Mim. Do Niemeyer e daquele Outro Arquiteto, que, dizem, desenhou este Universo...


5.4.21

Seis meses de vida



Portanto, vou agora emprestar meu coração aos meus amores, para que eles amem a si mesmos como se me amassem — e se deleitem com essa gostosura indescritível.

Eu vivo trocando um entusiasmo por outro, geralmente maior. Porque amores, vou tê-los muitos para que os tenha sempre. Faz mais de vinte anos que a minha namorada tem dezoito. Às vezes, dezessete.

Ousei amar de modo diferente, tive a coragem de continuar puro nos meus relacionamentos. Algumas pessoas querem punir-me por isso, mas sobrevivo, sobre todos. E o que mais indigna meus detratores é que são poéticas as minhas transgressões.

Então mergulho nessa alegre correnteza onde eu rio fluente de mim mesmo — líquido, cristalino, gargalhante.

Só tenho seis meses de vida, suponho — e vivo radicalmente de acordo com tal suposição.

E se por acaso ao fim desse período a morte não me houver levado, tudo o que vier depois será um presente — e uma bênção maravilhosa.


4.4.21

A Nova Páscoa

Segundo a Bíblia, Jesus ressuscitou após três dias da sua morte biológica, num processo de religação do seu corpo à sua alma. E na Páscoa celebra-se exatamente isto: a volta de Jesus ao mundo material, levantando-se do seu sepulcro, e ressurgindo perante Madalena, primeiramente (João 20:10-18). Esse retorno, essa passagem de volta a este mundo, essa ressurreição é comemorada na Páscoa.

Tal concepção de ressurreição está na Bíblia, explicitamente, e é assim entendida por todos os teólogos e cristãos nos últimos dois mil anos. Mas eu defendo uma tese diferente. Para mim, a verdadeira ressurreição de Jesus foi quando Ele morreu. Quando ele deixou esta vida e renasceu para a outra. Para aquela de onde ele supostamente veio.

Esta é a minha tese. Como Jesus foi o maior criador de metáforas, um mestre das parábolas, entro no jogo dele e crio uma nova. Quando se diz “ressuscitar”, isso, segundo aqui proponho, quer dizer “renascer para a outra vida” — não para esta. Não é o retorno a esta, mas o retorno à outra.

A Páscoa é a Passagem — desta vida para a Outra. Desta, em que Jesus viveu por trinta e três anos, para a Outra, de onde ele teria vindo. Nesse sentido, engana-se quem pensa que a ressurreição de Jesus significa o retorno do seu corpo a esta vida. Em verdade, Jesus ressurgiu para a outra vida: a vida espiritual. O corpo de Jesus, nessa perspectiva, não tem a mínima importância, pois não é o corpo que ressurge: é a alma que se liberta.

A Páscoa também está ligada aos antigos festivais da primavera (no hemisfério norte). Assim como em outras datas festivas já existentes, como o Natal, a Igreja aproveitou esses eventos e anexou-lhes algumas comemorações cristãs. Deu-lhes formas novas. Um método inteligente de fazer propaganda, pois começar do zero uma comemoração grandiosa custaria muito. Nesse período também os judeus já comemoravam seu êxodo do Egito durante o reinado do faraó Ramsés II, quando os judeus passaram da escravidão à liberdade. Uma belíssima metáfora. Tal qual Jesus saindo da escravidão do corpo e passando para a liberdade do mundo espiritual. Ou seja, de acordo com essa minha concepção, quando morremos biologicamente é que ressuscitamos. A morte, repito, é a Passagem. A morte é a Páscoa. A morte do corpo — entenda-se. Nesse sentido, portanto, a verdadeira ressurreição de Jesus aconteceu ainda na Cruz, e não no sepulcro, três dias depois, como está na Bíblia, e como erradamente dizem os teólogos, padres e pastores. Aliás, eu não creio nadinha nessa história de um corpo físico, morto, voltar à vida!

A Bíblia relata dez casos de ressurreição: três no Antigo Testamento e sete no Novo. A Bíblia (em Mateus 28:5-6) diz claramente que Jesus ressuscitou dos mortos:

"Mas o anjo disse às mulheres: Não temais vós; pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Não está aqui, porque ressurgiu. (...) Vinde, vede o lugar onde jazia."

Ou seja, segundo a Bíblia, o corpo deixou o sepulcro e viveu novamente. E depois teria sido visto, andando, por muitas pessoas, incluindo Madalena e os apóstolos.




E eu tive certa vez uma Páscoa inesquecível. Com a Beatriz. Depois eu conto.

3.4.21

My Joyce will go Ann


Cause My Joyce Will Go Ann.

Outono, sábado, 22 horas, 51 minutos, 17 de abril, a pressão atmosférica ao nível do Mar Azul do Guarujá é de 759 mmHg. Ao meu lado uma prova de que a Natureza pode às vezes ser perfeita. Peso: 49,9 kg, altura: 164 cm, pressão arterial máxima sistólica: 118 mmHg; mínima diastólica: 68 mmHg. Pulso: 92,8 por minuto. Idade: quatorze. Nome: Joyce Ann.

 Meio assustada, cautelosa, inocente — porém saudável, inteligente... e lolita, naturalmente!



Um pouco mais tarde, olhos fechados, a Musa torna o começo da madrugada mais brilhante que aurora trazida por Lúcifer. Sua mãe, zelosa porém cansada de tanto nos cuidar, vai dormir, deixando a incumbência para Simone, irmã mais velha — que meia hora depois dormiu de roupa e tudo no outro sofá. Ou seja, Deus, em sua magnífica bondade, foi preparando o mundo para que só nós dois ficássemos acordados esta noite. Deitada com a cabeça em meu colo, mãos infinitamente dadas, após nelas ter passado creme suíço Collagen Elastin, ouvíamos o cd que ela trouxera: Celine Dion. A música: My Heart Will Go On — repetindo por mais de vinte vezes.


Sete anos se passaram. Hoje Joyce Ann tem 21 anos e continua sendo minha Musa principal. Eis duas fotos dela, feitas por mim em dezembro de 2007, no Flat Palladium, quando ela veio me mostrar os originais do seu livro "Ser feliz faz parte do meu Show":




As duas fotos seguintes foram feitas no Guarujá em 04 de julho de 2010:

Olhando a lua...

E vivendo a vida!


As luzes, apagadas, e o controle remoto por perto para desregular o som de acordo com o desejo dos Deuses. Um pé esquerdo de sandália preta na cabeça da estátua argentina que tenho na sala. O fascículo com a biografia de Delacroix, que havia lido antes para ela, aberto na página em que a Liberdade conduz o povo.




São detalhes que hoje moram no meu peito como se fossem meu doce Inspírito Santo. Momentos que ainda hoje me parecem o resumo dos últimos cinco mil anos da História.



UM DEPOIMENTO RECENTE:

Joyce me disse hoje (25.09.2011) que, naquele tempo e que morávamos juntos, ela não dizia ter medo de ficar sozinha à noite. E eu sempre chegava tarde, vindo de São Paulo. E, mesmo nas minhas viagens, ela jamais manifestou ter medo, pois não queria deixar-me preocupado. Hoje ela não crê em fantasmas e assombrações, mas, naquela época, com quinze anos, ela via coisas em nossa casa. Pessoas conversando no terraço, uma criança pulando na piscina, um vulto no quarto do fundo. E ela, sozinha, morrendo de medo... Mas suportava tudo em silêncio. Por isso é que dormia sempre com alguma luz acesa. Essas suas declarações de hoje me deixam ainda mais apaixonado por ela. Gravei nossa conversa de há pouco por telefone, em que cheguei a chorar. E choro também neste momento, por não podermos estar juntos nesta noite de 29 de setembro de 2011. Estou viajando, longe, e ela no Guarujá. Mas um dia, e logo, vou poder dar-lhe um pouco mais da minha presença e ter a dela, amorosamente. Ainda que ela se case com outros homens, será sempre o meu maior amor. Sempre. São 21h13.

/// Estou transcrevendo isto em 30.09.11. 22h23. Acabamos de conversar por telefone. Amanhã é aniversário dela. Flores!



Quem nunca viveu um grande amor assim — com tal e tanta intensidade — não sabe o que está perdendo.




Puublicado oiginalmente AQUI, em 25.03.2008.

Também está no meu livo Solidão a Mil, volume 2, publicado em 2010.

Atualizando hoje, 03.04.2021, no Itararé Hotel.

2.4.21

Fui preciso

2021 está sendo o melhor ano da minha vida. Mas isto não aconteceu por acaso. Foi preciso que eu tomasse uma atitude radical. Foi preciso dar um pontapé racional em algumas circunstâncias opressoras que teimavam em prender-me. Foi preciso ser preciso.


E eu saltei.

Algumas ideias

Em 24.03.2018 eu tive a ideia 637. Em 04 de abril de 2020, eu já estava na ideia 947. Que é o Iracyês, uma língua, baseada no alfabeto cirílico, que criei e venho aprimorando há mais de vinte anos.





Em fevereiro de 2015 eu tive a minha ideia 450. Um tabuleiro de xadrez tradicional, mas com recursos digitais embarcados. Diferente de tudo o que já existe na área. Perfeição aprimorada. Já preparando detalhes técnicos para documentação visando registro no INPI. Minha pretensão é que seja adotado pela FIDE dentro de dois ou três anos (*), para torneios oficiais.

NOTA: Não foi possível (AINDA) levar essa ideia 450 adiante. Até porque já realizei muitas outras. Muitas. Por exemplo, em 18.08.2019, no Itararé Hotel, eu tive ideia 811, que será a Água Santa de Itararé, produzida nas Fontes Pelisssari. Em 29.02.2020, eu tive a ideia 926, que é um Projeto a ser realizado na Argentina, ou talvez no Chile, a partir do primavera de 2021. Um pouco depois, em fins de abril de 2020, eu estava na ideia 964, que chamo de Jardins Suspensos da Brasilônia.


Só para registro, em 06.10.2019, eu completava 860 ideias e projetos, desde a minha infância e adolescência. E, nos onze meses seguintes, tive mais 221 ideias novas. Ou seja, em 11.09.2020 eu tive minha ideia 1081, que é a empresa de vendas
e-Sellent:




Em 30.10.2020, eu já estava na ideia 1112 - Uma homenagem a Carlos Ghosn.

E hoje, em 02.04.2021, no café de manhã, aqui no Itararé Hotel, eu tive minha ideia 1177: Como Conquistar Um Velho Rico:





1.4.21

Rosas

Foto feita ontem no Jardim da minha Mãe.

As flores são mesmo ingratas: a gente as ganha para que sejam eternas, mas então elas desistem no meio do caminho. Murcham, secam, e depois morrem, assim sem mais, nem menos, "como se entre nós nunca tivesse havido... Vênus". E morrem talvez por desespero — talvez até por amor não respondido — antes que a gente mesmo as abandone, amorosamente, ao seu próprio perfume imortal que se acabou. As flores — quando colhidas — são mesmo ingratas...

Por isso, jamais eu colho essas flores que encontro nos jardins da minha vida. Quando vejo algumas, lindas, ofereço-as aos meus amores, delicadamente, mas deixo-as onde estão: no próprio caule da plantinha inocente que lhes deu origem. E então eu fico assim — distribuindo flores, todo dia, o dia todo...



31.3.21

Viva a Democracia

Nenhuma ditadura é mais forte que um poema de amor. Então Eros me abre os olhos de novo e vejo, sorrindo ao meu lado, essa menina por quem ontem me apaixonei à luz da lua cheia — e que será, por uns tempos, meu mais recente amor eterno. E me esqueço completamente que hoje é dia 31 de março, data em que se "comemora" um golpe militar que jogou o Brasil nas trevas! Mas é bom não esquecer que a Ditadura só caiu depois da eleição indireta de Tancredo Neves em 19 de janeiro de 1985. Portanto, foram 21 anos de ditadura. Horrorosa ditadura militar... E só tivemos eleições (não muito) livres em 1989! A ditadura foi a Idade Média do Brasil. Havia censura à imprensa. Livros eram queimados. Havia tortura, prisão e medo. A Cultura entrou em recesso. Era a lei da baioneta. Pensar diferente era proibido. Se já houvesse internet aquele tempo, por um blog como este eu provavelmente seria preso e torturado...


30.3.21

Amanhece

Amanheço em mim como se amanhecesse só... Mas amanheço muito.

Bolinhas de lembrança na boca que se abre me trazem o gosto do vinho que bebemos noite que passou. Minhas pálpebras vacilam, meus olhos piscam incessantes, como se aplaudissem o duplo sol que se levanta, sangüíneo, entre nós três.

Outra vez, distendo meus músculos de revolução poética, e me atiro de novo em teus braços, meu amor — como se fosse um fuzil.

Me atiro como se fosse pólvora e Luz.

29.3.21

28.3.21

No Armazém do meu Pai

NO ARMAZÉM DE MEU PAI

Varrendo os ciscos, os papéis, as tampinhas de garrafa, todo dia, eu aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Varrendo, aprendi a ter disciplina. Eu só tinha nove ou dez anos, mas já varria com método, coreografando uma espécie de dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que combinassem com as irregularidades daquele chão. Varrendo, eu planejava a minha vida. Varrendo ciscos geométricos por sobre os cacos coloridos da cerâmica vermelha eu construía uma louca arquitetura de mistérios insondáveis. E então chegava um cliente querendo talvez meio quilo de açúcar. Ou duzentos gramas de mortadela. Às vezes um pão sovado. Não importava: em qualquer das hipóteses, antes de atendê-lo, eu me transformava no Balconista do Olimpo — e o atendia sorrindo. Ou seja, varrendo e vendendo, eu aprendi a perceber padrões. A interpretar as circunstâncias. Varrendo e vendendo, eu aprendi a ser cigano, a ler as mãos — e ver a Sorte. Todo dia.
Todo.
Santo.
Dia.


Talvez por isso é que a Sorte me adora tanto.

27.3.21

Dois Caminhos


Ou você segue o caminho da Tristeza,
arma-se de medo, de ciúmes e de falsas alegrias,
arma-se de angústia, fecha os olhos, se acomoda,
e segue o rebanho dos que não sabem;
obedece a regras injustas, não reage, não questiona,
não se aprimora, não lê, não significa,
nem percebe o absurdo em que se mete.
Vende a própria natureza
por duas ou três moedas de aço,
troca a inocência pela responsabilidade apressada,
torna-se respeitável aos olhos da sociedade,
cumpre horários, nunca tem tempo,
preocupa-se com coisas banais.
Comerciante das próprias emoções — já não brinca,
vive correndo, ama com pressa,
esquece-se da lua,
e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre,
pequena, cansada e normal...


Ou você escolhe o caminho da Ousadia,
compreende, se aprofunda, vai mais longe, realiza,
respeita o ser humano que existe em você mesmo,
resgata a própria vida e o sorriso,
rompe de vez com o passado agonizante,
procura defender a verdade, a justiça e a poesia,
acorda e assopra o fogo da alma que dormia,
ultrapassa os limites que sufocam,
cavalga o cavalo negro, cego e alado
das paixões gostosas e sublimes,
enche o peito de coragem, corações e relâmpagos,
acende de novo esse vulcão que é o teu corpo,
deixa a própria cabeça plena de agora,
de ternura e de vertigem,
e parte em busca de Aventura, de Amor e Liberdade.


É uma simples questão de escolha.


Qual é o teu caminho? 


25.3.21

Projeto São Vicente

 Sou um vendedor de imaginação



Veja o Projeto revolucionário que, como Diretor de Arte da Construtora NorteSul, desenhei para o quinto dos onze prédios de um Conjunto Residencial, na cidade de São Vicente, SP. Levemente inspirado em Gaudí, com cerâmicas Portobello, 9.5 x 9.5. /// Depois eu publico aqui as fotos dos outros quatro prédios anteriores, e explico como foi que concebi a ideia gráfica do revestimento. Pena que o Santiago Calatrava não pôde me ajudar...



Estas paredes não são virtuais: estão prontas e lindas. Desenhadas por mim, ao som de Vangelis e tomando Lambrusco. Fotografei com uma máquina simples, digital, foco automático. Se quiser ver detalhes, dê um click sobre a foto. E lá também havia uma Rose....

Sou apenas um pedreiro inspirado e parabólico... Mas, lá por volta de 2022, talvez eu faça pós-graduação em Arquitetura. Só para poder frequentar o escritório do Calatrava, lá em Valencia. Ou em Nova York, tanto faz.

Mas agora estou finalizando o projeto de uma casa para mim, cuja ideia básica desenhei num guardanapo de papel no Restaurante Brahma em SP, em 12.10.2010. Quatro dias antes, já havia tido um vislumbre da ideia em Santos, na Kopenhagen. Veja detalhes aqui.


Nada de verdadeiramente grandioso foi criado até hoje na história da Humanidade — sem paixão, ousadia e liberdade!

Banco de Teses

Um projeto já iniciado em 1990, 
mas que alcança hoje um novo patamar.





24.3.21

Meu corajoso bisavô

O mestre Antonio Abujamra intepreta aqui o texto que escrevi sobre meu bisavô.



SOU BISNETO DA REBELDIA

Meu bisavô, aos sessenta e dois anos de idade, na década de trinta do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente chamada Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O velho Luiz Marques, atolado numa estabilidade massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade.

Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos despontando. Então o fazendeiro abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções.

Tudo por causa de Vitalina.

Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor, ele abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado como herança. Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante.

Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida. O respeitável senhor Luiz Marques tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.

Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho branco e contando essas coisas todas pra você.

Sou portanto bisneto da rebeldia.

Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores.

E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício. Só estrelas.





O texto acima abre meu livro Manual da Separação. Caso queira saber mais, click na imagem da capa:

23.3.21

Solidão ou Solitude

Quero ressaltar o duplo sentido da expressão Solidão a Mil. Não me refiro à tristeza de uma solidão multiplicada, lamentável, quando nos sentimos completamente sozinhos, mesmo em meio a muitos. Eu me refiro à alegria profunda de quem vive a própria solidão a toda velocidade: a mil. Também discuto, e muito, a diferença crucial entre solidão e solitude. Nesse livro, eu misturo liberdade, ficção e biografia. É uma nova forma de escrever. E uma nova forma de se ler.

22.3.21

Vó Vitalina

 Não se aproxime de pessoas raivosas, estude bastante, lave as mãos vinte vezes por dia — e mantenha os pés quentes.


Conselhos da Vó Vitalina.

20.3.21

Salto Profundo

 


Se você não puder incentivar-me para o salto,
ou até mesmo empurrar-me com amor em
direção à Vida,
não me prenda, não me amarre.
Não envenene com teu medo a minha dança.
Seja só uma testemunha silenciosa desta
vertigem.

Porque agora,
agora é hora de voar.
Agora é hora de abrir-me a todas as possibilidades.

E voar um voo livre e sem destino para dentro mim mesmo!

19.3.21

O prêmio que me levou à Espanha

Prêmio Cervantes/Brasil.
Conto.

A ORELHA

Quando ganhei o Prêmio Cervantes, ela não foi comigo, porque não suportaria me ver tão amado pelas outras na cerimônia. Dora me dizia que seu ciúme esmagava-lhe a própria alma. Aquele câncer chamado ciúme aumentava-me as dores e as penas, amputava-me as asas, me prendia, me amarrava, sufocava. E um poeta de asas cortadas vai ficando gelado...
Minha vida virou uma verdadeira prisão.
Só me expressava escrevendo.

Sempre acreditei que as circunstâncias fazem os homens na mesma medida em que os homens fazem as circunstâncias. Mas, os acontecimentos daquela tarde levaram-me a concluir que há um certo predomínio das circunstâncias sobre os homens. No fundo, aquela foi uma tarde que esperei por muito tempo, planejando-a, tentando moldar-lhe os menores detalhes, e querendo, desesperadamente, fosse ela, quando acontecesse, da mesma forma que construída pela imaginação. Elaborei fantasias as mais ridículas, chorei às vezes até não mais poder, engasgando-me com soluços que pareciam pedregulhos. Não raro perdia-me naquele resto de realidade que a vida me dava de presente, e por dentro sugava-me estranha vontade de mudar com violência o que sempre havia conseguido aceitar.
Aquela espera foi se transformando em mais uma tortura.
Porque não passava de uma espera passiva e de certo modo desnecessária. Passei a ter pesadelos horríveis, em que duas mãos crispadas e sujas tentavam sufocar-me. Acordavam-me então os companheiros de infortúnio, por força dos meus gritos de pavor. Isso era constante. Faltava-me a fome, abandonei os projetos de fuga, os amigos se afastaram.

Permeando toda essa situação de tempo e de lugar, a desfocada lembrança, imagens que a memória me trazia com insistência. Assim como Abraão, o patriarca do povo judeu que levou seu povo ao Canaã, meu pai também ouvia vozes, e nos levou ao Paraná.

O chuvisqueiro enviesado continuava martelando-me as costas com suavidade quando senti sua voz me chamando, baixinho:
— Chegamos...
A fronteira ficara para trás, mas nosso estado continuava precário. Eu não entendia por que era prometida aquela terra. A quem? Essa dúvida me angustiava, talvez porque promessas foram o fundamento daquele meu tempo, um tempo escasso, sem solução, em que nada havia que não fosse provisório.
Era sempre um tempo de passagem.
Ele vinha em mangas de camisa, xadrez, que a chuva enegrecia e colava-lhe ao corpo. Havia me coberto com seu paletó, aquele mesmo azul-marinho do casamento. De vez em quando, acariciava-me o rosto, com gestos puros que ainda hoje moram no meu peito, inesquecíveis, demorados. Abri um pouco os olhos, vi luzes da cidade brilhando em conta-gotas, um colírio. A botina esquerda apertava-me o pé, ainda nova, quase uma comemoração, um presente prometido quando ajudei na última colheita do feijão das águas. Levantei-me sobre o braço, encolhido, sentindo cheiro de terra e um pouco de esperança. Meu pai incentivou a marcha do Estrela com o chicote, virou-se para meu lado e, quando nossos olhos se encontraram, tentou profetizar:
— Agora as coisas vão melhorar, se Deus quiser...
Passei a mão torta pela testa, afastando o cabelo escorregado, num gesto de quem não pode acreditar.
— Você vai entrar na escola...
Estrela era o nome do meu cavalo, já dado em promessa a um santo, não sei qual. A charrete era azul, desbotada, velhinha, o nosso meio de transporte. Em cima dela, sonhava com lugares novos — mas tudo era igual. Embaixo do banco, nossas roupas, poucas, amassadas no saco de farinha, as panelas barulhentas, a espingarda.

E o retrato da mãe, — pensei, — onde estará?...
Constatei que, apesar da pouca idade, já conseguia ter passado e memória. Meu passado se resumia na desesperada lembrança que eu tinha de minha mãe. Atirei-lhe uma pedra na testa. Lembrança meio confusa. O sangue desceu-lhe por sobre os olhos, que suas mãos procuraram em vão escondê-los dos meus, para poupar-me talvez o susto pela pontaria, que a partir de então seria sempre certeira. Se chorou, não me lembro. Estava com ela pertinho do poço, o balde descendo no rodar cadenciado da manivela já gasta. Roupas na tina marrom, de barril, a menor — azuis, brancas e vermelhas, se não me engano. Um lenço escondendo-lhe os cabelos que nunca soube o verdadeiro comprimento, escuro, emoldurava-lhe o rosto cheio de gotinhas, não sei se de orvalho, não sei se de suor. Dedos pálidos, enrugados, cheirando a rosas.

Voltei a ouvir o trote cadenciado do Estrela, que às vezes chutava pedregulhos. O braço começou a doer. O chuvisqueiro continuava, fraco, como véu feito de riscos frente às luzes.

Dá-me pouco pão e ainda me castiga - devo ter pensado, quando saltei do carrinho de lata, aquele verde, espantando uma galinha, e joguei-lhe com força uma pedra no meio da testa: o sangue desceu-lhe por sobre os olhos que suas mãos procuraram tampá-los dos meus. Em vão: o susto permanece até hoje, e talvez seja a causa primeira desse processo caótico de espera.

A charrete balançava-se num ritmo redondo, as rodas giravam produzindo um barulho meio surdo: fi-res-to-ne... fi-res-to-ne... — era a marca do pneu, e minha mãe soletrava assim. Ela sabia ler. Eu gostava dela. Picada por cobra, morrera havia três meses, sem tempo, segundo meu pai, de chegar à Santa Casa. Disse-me que tinha ela os olhos cansados. E que inchou. E que nunca mais eu a veria.

Lembro-me agora dos mosquitinhos que caíam no meu prato de sopa de macarrão cortado, lá no sítio, no banco de madeira ao fim da tarde, a fome infantil enorme, o futuro meio ausente, o mormaço, o medo, a hora das aves marias voando na minha cabeça. Outra coisa de que me lembro era o bolo de fubá. Seco, feito sem manteiga, esfarelava na boca, mas como era gostoso com café preto, lá no morro da melancia. O riozinho tortuoso, onde me dava banho com sabão de cinzas, o rio maior, que tinha peixe e que era fundo, um perigo. Minha mãe sempre me parecia a melhor mãe do mundo. Queixava-se constantemente de dor de estômago, principalmente à noite, ao irem para cama, ela e meu pai, quando então eu aguçava meus ouvidos para captar seus diálogos. E a conversa, às vezes ríspida, girava sobre caminhos diferentes na vida deles, mais filhos ou menos filhos, pobreza, injustiça, lavouras...
Coitada da minha mãe: vivia sempre disfarçando com sorrisos lentos a vagarosa dor da vida.

— E o retrato da mãe, pai?...
Demorou para me responder, sem olhar-me nos olhos, com voz fraquinha, meio rouca, desanimada:
— Tá no bolso, na carteira...
Interessante: parece-me que nossas frases, mesmo aquelas mais decididas, eram sempre reticentes, pastosas, doloridas. Lembrei-me de minha irmã, com suas perninhas frágeis, e que morrera como se não tivesse tempo para viver. Passava o dia todo deitada num velho berço improvisado, olhando nuvens de sorvete no céu do Paraná. No retrato, ela estava ao lado de minha mãe, e isso me causava um certo ciúme. Morrera sem tempo de deixar saudades, mas, diziam-me, estava morando com deus, cercada de anjos. E com muita saúde. Um vestidinho dela ainda era guardado, de bolinhas vermelhas, com alguns buracos pequenos que pareciam enfeites. Quando crescer, vou tirar um retrato bem grande... — confessou-me o Cartier-Bresson que havia no meu peito. Um retrato onde aparecesse, além de mim, só o infinito azul do céu. Voltei-me à posição inicial, ajeitei o paletó por sobre o corpo, fechei os olhos com força, engoli fosfenos em seco, senti a barriga roncar outra vez.

Era fome, mas fiquei com vergonha de falar.

E foi assim que entramos na terra prometida, eu e meu pai — sacolejando ilusões numa charrete azul puxada por estrelas e ternuras.

Acontece que essas lembranças, com precisão fotográfica, perturbam-me. Se houve épocas em que cheguei a questionar até a validade das carícias, a necessidade do contato físico amoroso, isso se deveu à ausência dos carinhos que sempre me negou, quer pela distância, quer pela mentira. Passei a ter impressão de que a notícia de sua vinda começava a prejudicar irremediavelmente aquela situação de equilíbrio emocional entre o mundo desgraçado em que vivia e o conjunto instável das minhas aspirações.

Terei sido eu o primeiro a criar a necessidade dessa distância que passou a existir entre nós, ou preciso mesmo dessa geografia de excessos para manter apagadas minhas concepções mais antigas com relação ao que posso gostar?

Ninguém tem culpa de ser o que é, e nem pode, por si mesmo, ser de outra forma. Alguns precisam de ajuda, mas nem todos se permitem essa humildade. Muitos talvez não tenham conserto, e outros não têm consciência. Todos quase sempre se enganam, às vezes na qualidade da promessa, outras vezes no tamanho das expectativas. Chorar em ombros amigos foi coisa que nunca soube nem pude fazer. Não que me faltasse a vontade: faltavam-me ombros amigos, e meus olhos não tinham mais lágrimas.

Minha vida é uma porta que se abre à história mas se fecha aos meus amores. Meu contraído corpo de réptil me envergonha, me atrapalha e desespera. Os ódios que suponho sentir me enrijecem, e não me deixam sequer perceber o cheiro das coisas livres. Esses anos todos aqui dentro mudaram-me radicalmente. Mas não sei se fui modificado mais pelos anos que se passaram, ou se pela cadeia propriamente. Ou se por ambas as coisas. Aqui, a gente vai percebendo o reverso da medalha. E percebendo de uma forma diferente, pois as perspectivas vão se tornando caóticas, o leque de opções vai se fechando, as oportunidades, diminuindo.

A gente passa a não mais saber de que lado ficou a verdade.

Em certos momentos, começamos a ver que todo realismo tende a ser conservador. Porque o sonho é sempre mais importante do que a realidade que o suporta. A tarde surgiu bonita, apesar de que o sol de inverno, esmaecido, quase nem sombras fazia no pátio da nossa espera. A calma daquelas coisas dormidas me afastava da razão, o nó na garganta entorpecia a fala mole. Sentado no primeiro banco, logo à entrada do portão principal, esperava minha mãe. Meus dedos tamborilavam na madeira, como se a tarja negra da sujeira das unhas executasse um balé de prisioneiros. Na verdade, esses dedos queriam chorar a iminência do inevitável. O corpo todo tremia.
Procurava não olhar em coisas que tivessem olhos de retribuição, ao mesmo tempo em que mastigava a liberdade da minha língua, e mordia os lábios ressequidos por falta de vitaminas. Triste o papel que teria de representar por força daquilo que agora chamo de determinismo absoluto. Senti dores no estômago. Como a ansiedade não me deixou novamente almoçar, talvez fosse fome.

Muita gente passando, abraços, sorrisos, fogo acendendo cigarros, saudades e paixões. Não será ela uma dessas que passaram? Não, o guarda iria trazê-la até mim, não seria capaz de reconhecê-la, suas feições já não devem ser as mesmas.

Comecei a montar o desesperante cavalo da angústia.

Parecia-me que apenas eu estava sozinho. A espera da mãe que supunha morta misturava-se à promessa de escola que meu pai fizera, e que nunca se concretizara. E foi nesse momento, aguardando mais uma promessa, que levantei a cabeça. Não gostava muito de mulheres será que dela iria gostar? Será que aquele encontro seria um renascimento, pelo fato de que ambos iríamos nos re-conhecer? Terá sido ela, realmente, culpada disso tudo? Será que não teve razões em fazer o que fez? Não consigo me lembrar das cores do vestido, não consigo. Frente a frente, depois de tantos anos. Tentei iludir-me, colocar um pouco de sentimento no olhar, dissimular talvez uma paixão que não sentia. Ela estava com falsos cabelos loiros, muito maquiada. Lembrei-me do lenço de bolinhas azuis à beira do poço. Demoramo-nos olhando nos olhos. Brinquei de novo no meu carrinho de lata. Estendeu-me suas mãos e murmurou algo como você está muito bonito, um homem feito... senti muito a tua falta.
Suas mãos estavam quentes.
Aquele momento me parece ainda indescritível.
(Talvez um dia possa contar tudo).
O perfume que ela usava, forte, doce, barato, chegava a excitar-me. Idéias estranhas passaram-me pela cabeça. Ela chorou, e eu senti o gosto salgado das suas lágrimas. Acho que por momentos desisti da vingança para amá-la totalmente. Tomei-a nos braços para um beijo de amor - de amor e despedida. Tive medo, e vontade de dizer a todos que aquela necessidade de ficcionar um delírio não passava de uma ilusão grotesca.
E a iminência do inevitável voltou a me assustar.
Algo fez-me mudar de idéia.
A lembrança do retrato em que eu estava ausente. O bolo de fubá, o abraço que ela me dava - não sei. No pátio não havia mais ninguém. Fez-se um silêncio absoluto, um silêncio gelado. Tomei-a de novo nos braços para um beijo de amor e despedida. Soava uma campainha, dizendo que a visita chegara ao fim.
Seria agora - ou nunca mais!

(...)

A história continua.

Mas agora vou fechar as aspas que esqueci de abrir antes de acreditar nas circunstâncias. Claro que esta é apenas uma bela história inventada que o destino escreveu certa vez em meu nome. Era só mais uma peça que a vida me pregava. Em verdade, jamais trocaria minha Mãe por um prêmio que me levasse à Espanha. A orelha dela foi feita para o beijo, não para a mordida.

Acontece que entre ficção e biografia existe um prêmio!

Então, volto ao presente e me questiono. Se meu amor é diferente a cada instante, como poderei te amar a mesma todo dia? Como repetir outra vez o meu risco brilhante na tua escuridão incendiada?


Ontem comprei flores para recordar o nosso amor; hoje, um frango assado faz lembrar-me de você. Ontem, chorei ao rever as nossas fotos; hoje, tomo vinho num corpo de cristal e já não sei se me arrependo. Ontem, fiquei sozinho no meu quarto; hoje, uma deusa nova me espera em nossa cama, e me sorri. Ontem, chorei demais a tua ausência; hoje — nem sequer me lembro de você. Parece ser verdade: Quem ama só se realiza ao superar a própria memória do seu amor.

Então.

Há uma pequena prisão dentro de uma grande prisão.
Por isso, o pior é quando estamos na menor.
Mas vocês não percebem que.

Nuvens de Sorvete

Ontem eu amanheci olhando nuvens de sorvete no céu do Paraná.

18.3.21

Virado de feijão

Para mim, essas frescuras de folhinhas e alfacinhas — vegano-deprê — sem sal e sem açúcar, sem vinagre, sem azeite, sem gordura, sem limão, e sem carne... retiram toda a gostosura, retiram toda a naturalidade e a lembrança da comida que minha Mãe faz. E que minha Vó Vitalina fazia. Eu gosto mesmo é de torresmo e picanha com anel de gordura dourada no ponto...

Ou carne de porco na panela de ferro, virado de feijão, arroz soltinho, couve cozida e meia dúzia de ovos fritos. E a companhia libertária de meia dúzia de amores pra saudar a VIDA!

17.3.21

Inundado de carinho e gratidão

Sem fome, sem sono, sem culpa, sem dor. Sem pressa, sem apego, sem pressões. Sem esperas, sem cobranças, sem promessas. Sem medo e sem controle, sem ódio e sem juízo. Sem maldade — e sensível. Sentindo-me eterno no transitório. Buscando equilíbrio no instável, no incerto. Amado com delícia e liberdade, e amando com grandeza e ousadia. Passageiro numa viagem sem destino, percorrendo caminhos ainda não trilhados. Cada vez mais fascinado e encantado com os novos horizontes que se abrem. Adorando as surpresas no momento em que acontecem, e vivendo a primavera em qualquer das estações. Quebrando as barreiras, de modo irreversível. Ultrapassando limites... Encontrando a essência de cada coisa nela mesma. Compreendendo as razões também daqueles que não conseguem me compreender. Vivendo o mais profundo, o mais criativo, o mais sensual, o mais inocente e o mais sagrado período da minha vida. Sugando a doçura de todas as coisas... Vivendo as maiores e melhores paixões da minha vida, e vibrando com tudo que me toca. Sentindo-me a cada momento como se Deus me cobrisse de glórias, de flores e estrelas. Dançando nas minhas próprias e nas tuas emoções. Inundado de carinho e gratidão. Com a cabeça nas nuvens — e o coração no infinito.

Portanto, o que mais posso eu querer da vida, além de amores livres e brilhantes, crepúsculos cor de abóbora na praia que eu prefiro, óleo de amêndoas doces, um buquê de rosas brancas e vermelhas, duas ou três taças de vinho transbordantes, muita liberdade, alegria, saúde, poesia, gostosura — e tempo livre para viver tudo isso? O que mais posso eu querer da vida?!

16.3.21

Temos nossas diferenças

Temos nossas diferenças, é claro, pois Deus não é justo na distribuição da bravura. Cada um de nós tem seu próprio sistema de valores e seus pontos de vista. Cada um de nós é um ser único. Somos in-divíduos. Respondemos a estímulos iguais de formas diferentes. Lembre-se: Hércules estrangulou a serpente horrorosa ainda no berço, enquanto Íficles, seu irmão gêmeo, fugia em desespero. Então, antes que o meu barco singre os mares desta vida, encho-o de coragem e de remos, iço as velas, desfaço todos os planos, jogo longe a bússola da normalidade, rasgo esses mapas que me deram, crio meu próprio Destino — e me afundo no desejo de amar.

Quero de novo criar uma tempestade no teu coração, meu Amor!

15.3.21

Meu Território

Meu território é o da Liberdade Absoluta.

Eu venho
para semear
um pouco de Sócrates
nas areias do teu quotidiano.

Eu venho para semear
alguma discórdia criativa,
questionar todas as convicções
e quebrar os teus mais sagrados paradigmas.

Eu quero mexer na tua cabeça,
por fora e por dentro — voluptuosamente!

Fazer um cafuné maluco e delicioso
nos teus neurônios enrolados,
e passar um pente fino
nos caracóis da coisa incerta.


Mas não trago nenhuma resposta pronta:

Eu só te faço perguntas.

Porque,
assim como Ele,
eu não vim trazer a paz, 
nem venho te propor sossego.

Não vim pedir silêncio:

Eu quero é o teu grito...

Por isso eu te convido a ter coragem.

Eu hoje te convido
a um salto inteligente,
profundo, amoroso e racional...

— Para dentro do Futuro!


14.3.21

Aula de Lógica 3

Se, num hipotético desastre aéreo, você caísse num deserto com apenas um balde de gelo — nada mais — quantos dias você acha que conseguiria sobreviver?

Esta é uma das perguntas exemplares que faço em palestras a diretores e gerentes. E também a adolescentes ou estudantes da escola primária quando lhes dou uma breve aula de Lógica. Há outras. Tem uma alegoria interessante sobre papel higiênico que agrada muito ao público. Pois é, para falar de Lógica, não é preciso citar Bertrand Russell nem Aristóteles, nem falar difícil. É só despertar a curiosidade e provocar o encanto das crianças pela Palavra e pela Razão. Das crianças — e também dos adultos que ainda não perderam a vontade de aprender e questionar.

Tudo isso está no meu livro Lógica para Crianças, onde, na página 248, eu digo que, ao analisar as possíveis respostas à citada questão (queda no deserto), começo perguntando quantos litros tem um balde. Afinal, balde não é unidade de medida. Ou seja, a pergunta refere-se a balde do tamanho de um barril ou de um dedal? Se você caísse sozinho ou com mais pessoas? Outro dado importante: gelo do quê? De água ou, por exemplo, de amônia? E se for gelo de água, potável, ou não? O deserto seria de areia, como do Atacama, ou deserto de gelo, como na Antártida? Ao lado de um oásis, ou a 500 km da cidade mais próxima? Outra coisa que acaba determinando o resultado da queda: cair de que altura? Com paraquedas ou sem? E assim por diante...

13.3.21

O Grande Argumento




Sabe por que o cachorro às vezes morde, a abelha pica e o asno dá um coice? Porque ficaram sem argumentos. O mesmo acontece com você. Quando fica sem argumentos, você às vezes morde, pica ou dá um coice. 

Ou foge.

12.3.21

Kira


Nós nos beijávamos na boca. Ela era lírica, franca, inteligentíssima. Um ser questionante: tudo tinha que ter porquê, o mundo tinha que ter razão, alguma razão. Dizia já ter visto anjos correndo pela casa, mas não acreditava em bicho-papão, Papai Noel, essas bobagens...

Na boca — mas na pontinha dos lábios, é claro.

Quando lhe fazíamos perguntas, as respostas vinham cavalgando a luz, sempre brilhantes. Sua capacidade dedutiva me espantava em todos os sentidos, o raciocínio, turbilhão de faíscas lógicas. Numa palavra: era articulada. Não me lembro de tê-la visto chorar. Loucos um pelo outro, brincávamos como se tivéssemos a mesma idade: a dela. Às vezes, fugíamos para o parque, para a vida. Eu a encantei com minhas histórias da Grécia, e nossas diferenças nos abraçavam por sobre os penhascos do Ibirapuera.

No seu terceiro aniversário, dei-lhe uma bonequinha de pano. Dos vários nomes que sugeri, sabe qual a pequerrucha escolheu para sua amiguinha? "Aventura". Não se largavam, as duas. Viviam abraçadas, dia e noite.

Ela sabia seu lugar naquela geografia extravagante, em que as relações eram poéticas, abertas, descompromissadas. E ocupou com orgulho seu posto de princesa no reino caótico, onde a Arte montava presépios com grãos de arroz. Caótico — mas alegre, libertário, radical.

Nasceu numa espécie de mundo artístico em construção. Seu pai, João, e sua mãe, Regina, eram mais do que isso: eram trapezistas amorosos de um circo mágico e maluco. Com ambos, ela aprendeu a ser exímia.

Engatinhava em corda bamba.

Suas fraldinhas sempre foram feitas com pedaços da bandeira do Brasil. Andava em tambores, lutava com leões, dava saltos mortais no picadeiro da sala. Não havia coisa alguma estável onde a coitadinha pudesse depositar uma esperança. Teve que aprender a ficar bem de qualquer jeito.

Ou ela seria uma artista — ou não seria nada.

Desde que nasceu, e por quatro anos, fomos amigos íntimos. E se eu concluir agora que abandonei-a de alguma forma, talvez me afogue nesse mesmo raciocínio. Portanto, prefiro achar que nos separamos por consenso. Pelo menos me eximo de uma espécie de culpa escandalosa que seria fatal aos meus atuais anseios de pureza.

Ela parecia ter mais de quatro anos no dia chuvoso em que nos despedimos, mas só tinha isso mesmo: — quatro aninhos. Por mais que lhe tenha dito adeus em voz alta, penso que ainda me espera no portão de alguma casa. Já se passaram quinze anos desde então, mas tenho certeza de que, se encontrá-la por acaso na rua, entre milhares de outras, e olhar nos olhos dela — saberei.

Porque os olhos de Kira devem ser os mesmos, devem ter a mesma candura, a mesma inocência, a mesma profundidade. Talvez só um pouco tristes, e pode ser que no primeiro reencontro derramem como pedrinhas de luz aquelas lágrimas que guardaram por mim na minha ausência.



E eu fico pensando. Por que nos separamos de quem menos deveríamos?

Por que será que o destino às vezes desamarra certos laços tão gostosos, que supúnhamos de seda, e quase eternos?

Digo que amo toda perda, porque só a perda abre caminho para o novo, mas no caso dela me pergunto: qual tesouro poderia ter preenchido esse vácuo que a ausência de Kira deixou em mim? E toda tentativa de resposta dá em nada, absolutamente nada.

Nos perdemos um do outro — simplesmente.

O que sinto por ela só posso chamar de saudade.

Tomara que dure para sempre essa procura. Contudo, tomara que a encontre, algum dia, por acaso. Se isso acontecer, vou vibrar, como um esperançoso garimpeiro velhinho que, ao cair da tarde — na última bateia — acha aquele enorme brilhante.

E sorri.