8.2.23

Brilho muito e sumo logo

Eu te mostro sempre coisas novas, meu amor. Comigo você nunca vai se acostumar. Nem haverá tempo: filho do relâmpago, sou passageiro do teu peito, brilho muito e sumo logo. Desapareço tão depressa quanto chego. Não quero nunca te cansar com excessos de presença: só quero mesmo é apurar os teus sentidos — refiná-los com poesia e com fascínio — e depois te jogar, com delícias, no mundo inesquecível dos amores novos. Carinhosamente.

7.2.23

Projeto NorteSul


Sou um vendedor de imaginação


Veja o Projeto revolucionário que, como criador e Diretor de Arte da Construtora NorteSul, desenhei para o quinto dos onze prédios de um Conjunto Residencial, na cidade de São Vicente, SP. Levemente inspirado em Gaudí, com cerâmicas Portobello, 9.5 x 9.5. /// Depois eu publico aqui as fotos dos outros quatro prédios anteriores, e explico como foi que concebi a ideia gráfica do revestimento. Pena que o Santiago Calatrava não pôde me ajudar...



Estas paredes não são virtuais: estão prontas e lindas. Desenhadas por mim, ao som de Vangelis e tomando Lambrusco. Fotografei com uma máquina simples, digital, foco automático. Se quiser ver detalhes, dê um click sobre a foto. E lá também havia uma Rose....

No fundo, sou apenas um pedreiro inspirado e parabólico... Mas, em 2023, vou fazer pós-graduação em Arquitetura. Só para poder frequentar o escritório do Calatrava, lá em Valencia. Ou em Nova York, tanto faz.

Mas agora estou finalizando o projeto de uma casa para mim, cuja ideia básica desenhei num guardanapo de papel no Restaurante Brahma em SP, em 12.10.2010. Quatro dias antes, já havia tido um vislumbre da ideia em Santos, na Kopenhagen. Veja detalhes aqui.


Nada de verdadeiramente grandioso foi criado até hoje na história da Humanidade — sem paixão, ousadia e liberdade!

6.2.23

Portas escancaradas

Sento-me aqui, ao lado do Oceano Atlântico — e fico pensando na vida. Olhando este mar azul do Guarujá, e ouvindo a Barcarolle de Offenbach. Dois ou três cacos de céu no meu caminho, dois pedaços de silêncio onde se ampara a minha voz. Tomo outro gole de vinho branco logo no primeiro quiosque, e vejo que meu corpo tem muitos sentidos e muitas razões. Talvez por isso é que eu preciso de metáforas lógicas para dizer-me todo.

Não sei para onde vou hoje.

Talvez fique aqui mesmo, fazendo nada como se fizesse tudo — ou vice-versa. Talvez escreva um poema de amor praquela menina de azul, ali; talvez termine aquele ensaio sobre Jesus que comecei ontem. Talvez desenhe um outro projeto louco para uma parede nova, ou talvez volte simplesmente a ler Montaigne...

Não sei.


Só sei que o Mundo tem paredes e muros, mas também tem portas e janelas. E as portas estão completamente escancaradas para nós!





Ouça a Barcarolle de Offenbach.

Sou eu o meu Amor

Ontem, no trânsito, dirigindo na avenida da praia, tive um insight: aquele "idiota" que ocupava o meu corpo não era Eu: era um "outro", que ali estava a caminho do trabalho alienado — numa desesperada pausa da própria vida. Estava indo vender o meu tempo para uma pessoa que não tem uma clareza gostosa da vida. Falar de negócios com alguém que nunca deve ter lido um poema de amor é uma penitência. Uma coisa que eu às vezes preciso suportar. Porém, logo mais, à noite, eu voltaria a ser Eu — e viveria como mereço e posso. Encheria uma taça com gelo picado e Absinto, colocaria talvez Jon Bon Jovi a dizer-me It's Just Me, chamaria os meus amores, um por um, e depois entraria delicadamente no Oceano Atlântico que eu tenho no alto da minha casa. E ficaria olhando a nova lua nova por toda a eternidade...

5.2.23

Eu abro todas as gaiolas

Tem dias que eu tento conter este divino coração que salta profundo de mim, e que me beija dançando de dentro pra fora. Amantíssimo, poético, livre — e meu: eis o meu coração, meu amor: escancarado em teus braços... Porque em mim agora não existem outras estações. A primavera toda cresce dentro do meu peito, e as flores já não murcham mais. Sou um trem desgovernado em direção ao interior. Zen, vazio de tudo mas cheio de graça, com seu louco motivo e doce razão. E o apito sinuoso que se ouve daqui, respeitoso, se curva.


Também não quero que me considerem muito original: eu apenas repito o que me dizem os pássaros no quintal da minha Mãe. Transformo em português, literalmente, os cantos que eles cantam para mim. E repito-os para que vocês possam ouvi-los de verdade em nossa língua. Às vezes, quando chove chuva e o canto deles vem molhado, limpo um pouco o seu trinado, acrescento algumas notas, pinto-as de vermelho, reescrevo a melodia. E transformo o bem-te-vi em bem-te-vejo. O beija-flor em minha estrela. O pardal em perdão, o tiziu em tesão. E abro todas as gaiolas.



Todos os dias.

4.2.23

Eu analiso as circunstâncias

Quando é preciso resolver uma determinada questão, e ao contrário de outros analistas e consultores, eu inicialmente foco no problema. Apenas no problema. Na solução — só depois. Esse método vale para resolver questões científicas, amorosas, jurídicas, técnicas, familiares ou, especialmente, de negócios. Eu parto do princípio de que só depois de ter detectado, avaliado e analisado profundamente o problema é que podemos pensar na respectiva solução. Afinal, suponho que propor soluções sem antes ter compreendido as causas imediatas e remotas, as implicações e os fundamentos de um problema — é um absurdo. Formado em Lógica, meu método é este. E tenho tido sucesso nesse aspecto, exatamente por isso.

Sim, eu suponho que isso valha também para casamentos, namoros, filhos, novos empregos, escolas, relações de amizade, abertura de empresas, viagens, etc. Tudo tem que ter um Plano. Se não, dá pau.

3.2.23

Marina


Parece que só existem dois tipos de amor: o primeiro — e o último. Eu tinha sete anos, e ela, nove. Eu tinha tesão, e ela — também. Quando essa primeira paixão da minha vida começou a incendiar-me o peito, tornei-me um ser divino sensual e amoroso full-time. Transformei meu coração num sol inesgotável, e pensei que, para sempre, todas as mulheres do mundo se chamariam Marina.

2.2.23

Seja escandalosamente feliz


 


A COISA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO É SER FELIZ.

Por isso eu quero que você tenha a sabedoria de fazer escolhas.
Que você ame a vida sobre todas as coisas.
Que siga sempre o que lhe pede a Natureza, e deixe fluir a gostosura.
Que você tenha a coragem de sonhar — e a ousadia de realizar os sonhos.
Que tenha a compreensão racional por aqueles que hoje você ama, e um respeito absoluto pela própria liberdade.
Que mantenha o foco só naquilo que realmente vale a pena.
Que sinta arrepios de prazer toda vez que respirar...
Que tenha um perfeito domínio dos teus estados de espírito.
Que trabalhe um pouco menos, que seja sensível e amável, e que mantenha o entusiasmo em qualquer situação.

E quero que você conviva apenas com pessoas compreensivas, inteligentes, amorosas, sinceras, saudáveis, excitantes — e livres.

Eu quero que você seja feliz!

1.2.23

Jesus — Mestre Zen

Quando uma pessoa normal fala em morte, ela geralmente está se referindo à morte biológica. Mas quando um mestre zen fala em morte, ele está se referindo à morte metafórica. Jesus não era uma pessoa normal. Jesus pregava a morte metafórica. Quando ele dizia que a felicidade só existe depois da morte, ele propunha que abandonássemos esta vida. Que a trocássemos por outra, melhor.

Mas os idiotas pensam que Jesus era um imbecil, e que estava pregando que a felicidade só virá DEPOIS da morte biológica. Nada disso! O que Jesus pregava — em verdade, em verdade — era a morte do apego, da inveja, do ciúme, do ódio e da cobiça. Olhai os lírios do campo e os pássaros do céu — dizia Ele. Mas os idiotas jamais olham para o céu. E acham que as asas foram feitas para guardar dinheiro e proteger as posses...

Os idiotas jamais entrarão no Reino de Deus.

31.1.23

A Natureza da Paixão

Paixões que se dizem eternas são mentirosas. Enganam a vítima. São apenas pedras frias que trazem frustração e tristeza, e nas quais tropeçamos. Acabam se tornando insuportáveis. Ao contrário, as paixões verdadeiras, as deliciosas — as passageiras! — só nos dão prazer e alegria. Mas tem gente que pretende transformar as passageiras em duradouras. Apaixona-se em novembro, e já quer fazer planos para o Natal... É a consagração da insegurança. O abandono do Princípio da Incerteza. O medo do risco e da perda. Ora, se nossa primeira paixão já fosse eterna, teríamos uma só — pelo resto da vida... Já imaginou a chatice?

A natureza da Paixão é ser fugaz. Esticá-la no tempo é torná-la insossa e rarefeita.

Eu gosto de dizer que as paixões devem ter o brilho de um relâmpago — e a mesma duração. Relâmpagos não ficam acesos para sempre. Você vive um, e em seguida risca outro! Mas, não se preocupe: ninguém é obrigado a amar o risco e ser brilhante todo dia.

30.1.23

Minha Mãe

Nasci deitado de costas e de olhos abertos.
Claro que já nasci curioso e atento.
E sabe qual foi a primeira coisa que eu vi?
O Coração da minha Mãe.


Foi nesse momento mágico que eu comecei a perceber que a Vida seria uma delícia...


Hoje é aniversário da minha Mãe. Eu e ela nunca brigamos: nenhum tapinha, nenhum puxão de orelhas, nenhum grito de raiva. Eu e Ela sempre nos compreendemos um ao outro. Escrevi esse texto em homenagem a Ela (em 2008). Como sou-lhe o primogênito e o preferido, há toda uma mitologia em torno disso. Acho que até Reich explicaria melhor do que Freud essa nossa maravilhosa relação de Amor.

Edpon Marques.



Veja aqui outra parte da história.

29.1.23

Todo momento

Para mim, todo momento é uma oportunidade — de criar, de sonhar, de inventar alguma coisa. De ter uma ideia, de dar um abraço, ou de fazer amor. De tomar um vinho, ou de tomar um sol. Para mim, toda ocasião é uma chance única de viver a vida. Toda ocasião é uma festa. Desperdiçá-la seria um pecado imperdoável. Aliás, como dizia meu bisavô, o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida.

28.1.23

São Vito

Isso é que eu chamo de milagre. Ontem à tarde minha Mãe contou-me sobre um santo, "protetor dos perturbados", cujo nome é Vito. Não achei o ícone de barro nem na lojinha de umbanda que tem ali na esquina, mas encontrei uma biografia dele na Internet, acompanhada de uma reza estranha, que era muito negativa, só falava de sangue, pesadelos, furor, inveja, ressentimentos. Só miséria, fome, dor, tribulação, calamidade. E para o pecador é ainda "sete vezes pior". Ora, se alguém ler aquilo à beira de um abismo — se atira. Acho que o Vito, ao inventar tal reza, pretendia povoar o céu com milhões de desgraçados.

Então, antes de mandar pra ela, fiz alterações, cortei, substituí, acrescentei... Editei tudo, começando pelo nome. Onde "Prece do reconhecimento das limitações" — ficou: "Prece de Conhecimento dos limites e do Poder de Reagir".
Alterei tudo na oração. Coloquei belas metáforas, auroras, brilhos, pintei um sol alaranjado, coloquei futuros, ousadias, compreensão e esperança. Deixei alguns pesadelos, é claro — para não tirar a originalidade — mas coloquei sonhos, todos recheados com marmelada de goiaba. Ficou um texto limpo, poético, doce, que anima e dá coragem a quem pretende viver.

Ela então ligou-me agradecendo:
— Nossa, Edson, como é linda essa oração!

E ficou contente com a minha "reza de São Vito".

Como você vê, às vezes é preciso inventar histórias até para nossa própria Mãe...

Por falar nessa Mulher que me gerou:

Certo dia, quando eu era ainda mais bebê, dois meses de idade, talvez três, tive uma convulsão maravilhosa. Fiquei azul — e a família inteira ficou chocada. Foi um rebuliço. Afinal, eu era o primogênito. Mas o que eles não sabiam é que era só o meu sangue voltando à sua cor definitiva...

Apenas minha mãe não chorou.

Sabe por quê?

— Porque ela é a santa que me pariu.

E que me conhece bem.

Aos seis anos eu também quebrei a moringa na beira do poço e acabei trazendo água na própria camisa. Ela nem se espantou...






27.1.23

O poeta, o artista, o filósofo

O poeta, o artista, o filósofo; o trapezista, o escritor e o palhaço; o aventureiro, o amante, o cantor e o anarquista — eu e você — nossa função é subir à tona, saltar barreiras, desbravar caminhos, quebrar ícones da moral, defender a liberdade, amar demais, criar conceitos, mudar o mundo, viver à mil... E somos livres porque não podemos ser outra coisa. Em nós, razão e loucura disputam primazias entre si, entrelaçadas. A Razão vence todos os embates, porém, num gesto lindo de grandeza e gostosura, cede sempre à Loucura o troféu da Liberdade.

26.1.23

Quais são os teus sonhos ?

  ALGUMAS PERGUNTAS


Quantas vezes você hoje meditou sobre a Vida?

Quantos minutos você hoje caminhou sem pressa?
Quanto tempo hoje você acariciou teu corpo e tua alma?
Quais os alimentos saudáveis que você vai comer hoje?
Tem seguido o que te pede o teu próprio coração?
Quanta gostosura existe nos teus atuais relacionamentos?
Quais são as coisas novas que você aprendeu hoje?
Quantas pessoas você hoje abraçou de verdade?
Quantos livros você está lendo?
Quando foi o teu último grande êxtase?

Quantas vezes hoje você pensou no Amor?
Quantas vezes você hoje ajudou alguém?
Quanto de prazer e de alegria o teu trabalho proporciona?
Hoje, quais as coisas boas que você já fez ou vai fazer?
Como vai a liberdade dos teus amores?
Terá tempo de contemplar a lua e as estrelas?
Tem olhado os pássaros do céu e os lírios do campo?
Como anda o teu Planejamento Estratégico Pessoal?
Quantos anos você supõe que ainda vai viver?
Como vai a tua própria Liberdade?
Quais são os teus Sonhos?

O que é que você quer da Vida?

25.1.23

Tabuadas cruzadas

Quem não sabe tabuada, não sabe fazer continhas. Por causa disso, por essa perda de exercícios com os próprios neurônios, se perdem sinapses. E o sistema todo vai se decompondo. Ou não se desenvolve como poderia.

Isso vale para regra de três, juros compostos, equações exponenciais, números primos, teorema de Pitágoras, jogo de xadrez, etc.

Lá no final, o Velho Alemão.


(...)

Dito de outra forma:

Eu defendo a tabuada como uma espécie de primeira prevenção contra a necessidade futura de, aos oitenta anos, as pessoas ficarem fazendo palavras cruzadas numa busca insana pela cura do Alzheimer.





Sou minha flor

Click na imagem e veja detalhes do livro

Autoria de Paritosh Keval
Paritosh é para mim o que Louis Lambert foi para Balzac.
Esta edição antecipada já está à venda. São 222 páginas - 12 Capítulos - 114 Versículos.

Sou o autor da minha peça e o próprio personagem. Sou a dança e o bailarino, a música, o regente, o compositor. A ternura mais vermelha e delicada, o lóbulo da orelha do meu amor. O beijo e o orgasmo, a delícia e o licor; o êxtase e todas as auroras que ainda vão chegar. Sou o céu estrelado, a língua do horizonte — e mais além. Sou o sagrado e o profano, o profundo e o supérfluo, a origem da tragédia, o brilho e o pó. Sou mínimo e tanto, sou pouco e princípio, paixão, excesso e glória. Sou infinito no teu entusiasmo, e a penúltima labareda de uma espécie de fogo em extinção. Sou eterno relâmpago, amor: passageiro. Uma gotinha de chuva, um pingo de mel, uma pétala de estrela. Sou eu: minha flor.

24.1.23

Jesus

Jesus é o Caminho para o Reino de Deus, e esse Reino é a Liberdade Total. E se Jesus é a Verdade e o Exemplo, então deveríamos obviamente segui-lo. Mas, em vez de percorrê-lo, nós destruímos esse Caminho — para que ninguém mais consiga passar por ele. Nós matamos o Exemplo não só para que nós mesmos não alcancemos o Céu (ou "Reino de Deus", que aliás está dentro do nosso próprio peito), mas também para que ninguém mais o alcance. Para que todos se percam. Para que todos desperdicem essa única possibilidade de Salvação...


Porque o Exemplo de Jesus vai contra a Tradição, contra a Família, contra a Propriedade, contra as convenções sociais, contra a Hipocrisia e, principalmente, contra a Autoridade. Jesus nunca trabalhou, não tinha casa própria, andava descalço, estudou Filosofia, namorou uma mulher solteira (que diziam ser prostituta porque era livre), questionou a própria Mãe, brigou com os irmãos, gostava de vinho, de perfume e dos cafunés da Maria, fez alguns milagres — e nunca se apegou a rigorosamente nada. Nem à própria Vida. "Olhai os lírios do campo" — dizia o Louco. "Olhai os pássaros do Céu: não tecem nem fiam, etc". Jesus era brilhante. Você vai entender o que estou dizendo se ler, sem preconceitos, lá em Mateus 6 ponto alguma coisa, o "Sermão da Montanha".

Exceto talvez pela morte trágica, a vida de Jesus deve ter sido realmente uma delícia. Só festa, cultura e alegria. Jesus vivia coçando o Divino Saco. Nunca se deixou explorar por um patrão ou por uma esposa ciumenta. Nem por um pai dominador. Claro que um "Exemplo" como esse não poderia ser enaltecido pela classe dominante. Claro que esse "Caminho" teria mesmo que ser destruído pelos conservadores. Açoitado, crucificado e, principalmente, desqualificado.

Portanto, o Jesus para o qual hoje se reza é outro — não Este.

Escrevi o texto acima após ter visto o filme A Última Tentação de Cristo.

Preferências

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não sentidas.

Conselhos, os dispensáveis.
Casos, os memoráveis.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os necessários.

Ódios, os mútuos.
Orgasmos, os múltiplos.

Mulheres, as bonitas.
Meninas, as lolitas.

Projetos, os contingentes.
Prazeres, os transparentes.

Amigos, os loucos.
Inimigos, os poucos.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o Logos.

Vidas, as nossas.
Mortes, as deles.



Lista de Preferências (*).
Bertolt Brecht.
Versão de Edson Marques.

(*) Esta é a minha versão. Exclusiva. Optei por esse formato, com nova disposição dos versos. Alterei a seqüência de alguns, e substituí muitos termos que não dançavam no texto original. Extirpei redundâncias. Recriei com base numa das versões que correm por aí. Não consegui encontrar original em alemão, nem sites que publicam algo parecido em inglês, francês ou espanhol.

23.1.23

Luz de vela

É melhor que o teu, o meu, o nosso amor seja forte, escandaloso e carregado de energia, brilhante como um relâmpago — ainda que seja breve, mesmo que dure pouco — do que ser apenas a luz mortiça de uma vela, fraquinha, tremeluzindo em desespero agonizante por toda a eternidade...

Brilho de relâmpago

Eu gosto de dizer que as paixões devem ter o brilho de um relâmpago — e a mesma duração. Relâmpagos não ficam acesos para sempre. Você vive um, e em seguida risca outro! Mas, não se preocupe: ninguém é obrigado a amar o risco e ser brilhante todo dia. Se você prefere ter uma relação estável, solene, contida, morna, segura — tudo bem, é um direito seu. A incompetência não é crime. Ninguém é preso por ser medíocre. Portanto, se você precisa mesmo dessa luz "eterna", meio duradoura e finalmente mortiça, vá em frente: agarre a vítima pelo pescoço e acenda uma velazinha trêmula ali no canto da sala. E não deixe entrar muito vento na relação...

22.1.23

A censura ao telefone

Ter um irmão como eu não deve ser fácil: há mais de trinta anos que não perco a calma, não brigo nem xingo, nem reclamo da Vida. Sempre dou valor secundário às coisas secundárias, e sou um poeta zen, feliz e alegre. Cheio de amores e com muito tempo livre. O único solteiro entre os irmãos. Tenho uma saúde inabalável. E não fico doente nunca! Há mais de cinquenta anos que não tomo nem aspirina... Nem vacina da Covid eu tomei. Isso talvez possa causar um certo desconforto espiritual naqueles que imaginam que poderiam ser iguais a mim por terem nascido, supostamente, da mesma Mãe. Mal sabem eles que a Mãe de um primogênito é sempre diferente da Mãe dos demais filhos. Tudo muda. E talvez essa injusta medida tomada por eles, no caso da censura ao telefone (em 2007), foi só uma vã tentativa de arrastar-me para o mundo escuro dos conceitos mal elaborados. Jamais conseguirão.

Eu sempre os compreendi.


Com a ajuda do Tempo, e da Biologia, tudo se resolverá.

Bom ressaltar ainda que nossa convivência sempre foi amorosíssima, em todos os sentidos, em todas as circunstâncias. Até que todas elas começaram a tomar antidepressivos...

Edson. Texto básico escrito no Flat Palladium, em 09.01.2008.

Razões para sorrir

Razões para chorar. 

Eu acredito sempre na supremacia da ternura. Escrevi esta frase na página 4 de um livro de Erich Fromm, onde ele analisa a Antígona de Sófocles. Eu a escrevi num momento de silêncio após ter almoçado uma deliciosa comida-surpresa, no Pedra Baiana. Coloquei açúcar hoje na salada e temperei com vinho. Me acham louco, também por coisas assim. Eu estava me lembrando de como os infelizes têm certas dificuldades de raciocinar com lógica, quando fui interrompido pelo dono do restaurante, que veio me cumprimentar, todo sorridente. O cozinheiro já tinha vindo antes, e os três garçons também. Não sei o que eles veem em mim. Talvez gostem de poesia ou talvez saibam que eu amo Henry Miller. Não sei. Mas eles são simpáticos e competentes. Leio mais um pouco, pago a conta, me dão balas, vou embora. O carro estava na sombra, felizmente. Resolvo então passar no Pão de Açúcar da Presidente Wilson. Escolho um vinho diferente, duas garrafas, só para experimentar; guaraná Antarctica, um leite Parmalat premium, um pedacinho de queijo, duas mangas. E entro na fila, cantando por dentro. Divagando... Será que vou à praia agora? Vejo um dvd do Sammy Davis Jr na gôndola ao lado e me lembro do meu pai, que gostava dele. A menina do caixa tem os olhos lindos. E os lábios dela, parecem da Angelina Jolie. Bem que eu beijaria... Alguém me liga, convidando pra jantar. Atendo e desligo. Não posso: tenho que terminar o desenho daquele projeto. Nossa, já são quase três horas! Acho que vou subir à piscina primeiro. Tomara que aquela gostosinha de Piracicaba esteja hoje lá de novo. Me lembro de algumas cenas do filme A filha de Ryan, que vi no TNT de madrugada. Olha, que loira linda ali, escolhendo melancias... Acho que vou... 


Eis que acontece um insight: Na fila, atrás de mim, dois rapazes contam suas moedinhas... Meu mundo vira de ponta-cabeça na hora! Um deles trazia quatro salsichas num saquinho transparente. Será que vai dar, o mais novo perguntou. E o outro recontou as moedinhas, uma por uma. Acho que vai, responde, apreensivo. Duas lágrimas rolam dos meus olhos e eu tento disfarçar. Um monte delas caem de novo agora enquanto escrevo isto. Meu Deus: como pode nossa sociedade ainda produzir cenas como essa? Tanta complexidade só para comprar quatro salsichas?! Tanta dor e tanto sofrimento por causa de noventa e quatro centavos?! Tanta humilhação só para se matar a fome?! E meu coração me diz que devemos fazer alguma coisa... Então, peço-lhes, gentilmente, que passem à minha frente, e o que faço depois não é preciso contar aqui.


Isto aconteceu no dia 10 de janeiro de 2008, quando eu estava fazendo uma obra em São Vicente, SP, no Condomínio Brasil Colonial, e morava no Flat Paladium.

21.1.23

Será preciso ter um filho ?

Em duas ocasiões da minha vida eu já cogitei ter um filho. A primeira delas, aos 22 anos anos de idade, quando eu estava meio bobo de amor e até pretendia me casar com Edna, entre véus e grinaldas, conta conjunta e luas de mel. Mas essa vontade absurda logo passou, quando eu concluí que tais besteiras iriam danificar completamente a minha liberdade pessoal. 


Depois, há pouco mais de dez anos, no dia 13.01.2013, eu tive a minha ideia 301, que é ter um filho -- mas agora de outra forma e com outro propósito. Será uma adoção. E ele já virá prontinho e saudável, com mãe, com tudo. 

Mas ainda é só uma ideia, dentre as muitas que tenho. Na hora certa eu a implemento. Em janeiro de 2019 eu estava na ideia 703. Que eu tive no Itararé Hotel (onde fiquei morando por quatorze meses). No dia 22.01.19, lá mesmo, tive a ideia 701, que é um Projeto na Guiana, que eu daria início em julho daquele ano (mas não dei, porque em julho eu encontrei um novo grande amor, absurdamente enorme, e mudei completamente o rumo da minha vida). Será na área de construção civil, informática e talvez hotelaria. Depois, em 2020, eu já tinha outras ideias (*) e outras paixões amorosas, e ainda veio a pandemia. Mas mantenho o Projeto Guiana, agora talvez para dezembro de 2023. Talvez.




(*) Atualmente, janeiro de 2023, já estou na ideia 1267.

20.1.23

Coração brilhante

Nenhuma ditadura é mais forte que um poema de amor. Então Eros me abre os olhos de novo e vejo, sorrindo ao meu lado, essa menina por quem ontem me apaixonei à luz da lua cheia — e que será, por uns tempos, meu mais recente amor eterno. E me esqueço completamente que às vezes é dia 31 de março, data em que se "comemora" um golpe militar que jogou o Brasil nas trevas! Mas é bom não esquecer que a Ditadura só caiu depois da eleição indireta de Tancredo Neves em 19 de janeiro de 1985. Portanto, foram 21 anos de ditadura. Horrorosa ditadura militar... E só tivemos eleições (não muito) livres em 1989. A ditadura foi a Idade Média do Brasil. Havia censura à imprensa. Livros eram queimados. Havia tortura, prisão e medo. A Cultura entrou em recesso. Era a lei da baioneta e da mordaça. Pensar diferente era proibido. Se já houvesse internet aquele tempo, por um blog como este eu provavelmente seria preso e torturado...

Aliás, eu fui preso.


Foto by Gabriela Biló. Capa da Folha de S.Paulo. 19.01.2023. Minha releitura.


Livro de poesia

Ontem à noite, protegido pela deusa Volúpia, amei um belo livro adolescente de poesia. Estendi um lençol azul celeste em minha cama, coloquei dois travesseiros dos mais finos, e deitei-me ao lado dele. Acendi um abajur à cabeceira, e o livro-meu-amor ficou iluminado de prazer. Comecei abrindo-o com a própria doçura dos meus olhos excitados, deflorando-o com meus dedos delicados, todos ávidos de alegria e de romance, de mistérios e de letras. Fomos então nos amando em nossa língua, folha por folha, livres, deliciosos e encantados, eu e meu amor — esse livro de poesia escandalosamente adolescente. Percorrendo as trilhas da loucura, nos perdemos numa floresta de sussurros, de palavras e emoções. E porque nos apaixonamos pelos versos um do outro, nossa relação de amor se eternizou: na página quinze, ele dormiu nos meus braços...

E eu sonhei.

19.1.23

Pessoas que dizem amar

Existem pessoas que dizem amar, mas na verdade cometem práticas totalitárias e ditatoriais contra o ser amado. Suprimem a liberdade do ser amado. Querem que o outro preste contas dos seus atos, e que faça um relatório até do que possa estar pensando. Exigem que o outro altere seus planos de vida, isole-se do mundo, renegue suas convicções, abandone os seus desejos, afaste-se dos amigos e destrua a própria personalidade.

Existem pessoas que controlam o ser amado de uma forma irracional. Se pudessem, instalariam câmeras de vídeo no coração do ser "amado". Viram carcereiros. Desrespeitam a privacidade do ser amado. Vigiam, vergonhosamente. Jogam o jogo sujo do poder mesquinho, praticam chantagem emocional, agarram, prendem, oprimem, sufocam.

E chamam isso de amor...

Que horror!

Carta ao meu Pai

Pai,

Existem assuntos que a gente consegue esgotar com meia dúzia de palavras. Porém, existem outros que requerem mil, mais que isso, muito mais. É o caso, por exemplo, da hombridade, da honra, do trabalho e da sinceridade de certas pessoas, entre as quais incluo você.

Do teu casamento nasceram filhos, mais filhos. Veja na foto, que maravilha: uma família unida, uma escadinha com muita honra. Uma escadinha de filhos que eu às vezes criticava, achava uma loucura, uma coisa sem fundamento. Agora, não. Agora eu acho que isso tudo é muito bom. Você conseguiu, junto com minha Mãe, essa criatura incomparável chamada Iracy, criar e educar, sem muita frescura mas com lealdade, todos esses filhos, que já cresceram e estão crescendo. Teus filhos foram educados livremente. Era, pelo menos para nós, os mais velhos, uma liberdade de cabresto, mas que sempre era liberdade.

Era uma liberdade de consciência.

Você nunca pediu pra ver nosso boletim da escola. Nem a Mãe pedia. Contudo, quase sempre, fomos os primeiros da classe. Não só na matemática e na biologia, mas sim nas matérias da vida, na desenvoltura, na visão do mundo. Sobretudo, na vontade de brigar pelo certo em qualquer circunstância. Como você e a Mãe. Aprendemos todos, com vocês dois, a defender os fracos e oprimidos, vendendo fiado mesmo para aqueles que não tinham dinheiro, dando de comer às crianças pobres desta vida. Em gostar de política, tivemos em vocês dois o exemplo. Talvez sem saber, inconscientemente, vocês já achavam que o homem que não se interessa por política é um simples animal. Vocês gostavam, e nós também gostamos.

É uma herança.

Semana passada, você levou algumas pessoas, alguns velhinhos para Iguape. De crianças você sempre gostou. E me lembro de que um escritor falou certa vez, que para ele o mundo ideal seria aquele em que as crianças e os velhos se sentissem felizes. Muito bom. E nós também herdamos essa vontade de amparar os desamparados.

Mas não era sobre isso que eu queria falar.

Escrevo mais para dizer que fico eternamente grato pela sua maneira de agir frente aos problemas políticos que enfrentei e enfrento. Nunca você me disse "Deixe disso" ou "Isso é bobagem". Você sempre respeitou minha liberdade de opinião — o que algumas pessoas, inclusive alguns parentes, não souberam fazer. Essa tua atitude revela o tamanho da tua bondade e entendimento do mundo.

Qualquer dia desses a gente conversa mais.

Temos muito o que falar.


Teu filho,

Edson. 26/09/1977





Também publicada no jornal "O Guarani".

Quando meu Pai morreu, trazia no bolso, numa velha carteira de couro marrom, essa carta, dobradinha, meio amarelada e com sinais evidentes de muitas leituras. Daquelas que a gente às vezes faz, sozinho — e chora. Não sei onde pode estar o original. Talvez tenha tido o mesmo destino daquelas fotos minhas que alguns dos meus irmãos jogaram fora outro dia. Fotos que estavam no álbum principal da minha Mãe.

Felizmente a memória não se perde. Não é possível rasgar uma lembrança, destruir um símbolo, esconder um coração. Manifestações de amor, como essa do meu pai ao carregar minha carta consigo — até no dia da sua própria morte —, não se apagam.

É uma honra para mim.

Obrigado, Pai!





18.1.23

A vida é uma viagem


Por que deveria ser eu como Alexandre: 
primeiro, conquistar o mundo, 
para só depois relaxar? 

Comecei a relaxar quando descobri 
que o mundo que eu deveria conquistar 
já está dentro de mim mesmo. 


Conquistar-me por dentro, 
portanto, 
foi meu trabalho mais significativo. 


Assim como Cortez no México, 
logo que cheguei nesse novo mundo
em que meu mais íntimo Eu se transforma,
mandei que ateassem fogo 
a todos os barcos 
para que nunca mais 
daqui se possa 
voltar. 



17.1.23

Adoro fazer o bem

Ontem eu ajudei tanta gente na rua, quando estava voltando do almoço, lá na Churrascaria Brasa Gaúcha, da Avenida Rio Branco. Todas as pessoas que eu encontrava eu transmitia energias boas para elas. Todas, uma a uma, conscientemente. As meninas sorridentes que atravessavam a rua, que seguissem livres e seguras para onde quer que fossem. O senhor de olhos tristes na calçada que poderia estar com fome, que conseguisse um bom almoço. O homem que vende livros na banquinha, que vendesse muitos. O soldado sério e meio estressado, que fosse feliz desde já. A senhora apressada com cara de viúva, que arrumasse um namorado sincero que lhe amasse por uns tempos. A criança com mochila da escola, que se torne um doutor de sucesso. A gordinha quarentona, que encontrasse um tarado bonito que lhe desse uma boa comida. E assim por diante. Foi uma experiência maravilhosa! Vou agora fazer isso todo dia. Embora já fizesse isso antes, era sempre algo pontual, e para determinadas pessoas apenas, e não em larga escala como foi ontem.


Edson. 20.04.2017. 03h33.

Aula de lógica 3

Se, num hipotético desastre aéreo, você caísse num deserto com apenas um balde de gelo — nada mais — quantos dias você acha que conseguiria sobreviver?

Esta é uma das perguntas exemplares que faço em palestras a diretores e gerentes. E também a adolescentes ou estudantes da escola primária quando lhes dou uma breve aula de Lógica. Há outras. Tem uma alegoria interessante sobre papel higiênico que agrada muito ao público. Pois é, para falar de Lógica, não é preciso citar Bertrand Russell nem Aristóteles, nem falar difícil. É só despertar a curiosidade e provocar o encanto das crianças pela Palavra e pela Razão. Das crianças — e também dos adultos que ainda não perderam a vontade de aprender e questionar.

Tudo isso está no meu livro Lógica para Crianças, onde, na página 248, eu digo que, ao analisar as possíveis respostas à citada questão (queda no deserto), começo perguntando quantos litros tem um balde. Afinal, balde não é unidade de medida. Ou seja, a pergunta refere-se a balde do tamanho de um barril ou de um dedal? Se você caísse sozinho ou com mais pessoas? Outro dado importante: gelo do quê? De água ou, por exemplo, de amônia? E se for gelo de água, potável, ou não? O deserto seria de areia, como do Atacama, ou deserto de gelo, como na Antártida? Ao lado de um oásis, ou a 500 km da cidade mais próxima? Outra coisa que acaba determinando o resultado da queda: cair de que altura? Com paraquedas ou sem? De helicóptero, de avião ou de asa delta?

E assim por diante...


Como se pode notar, a pergunta lá no início foi intencionalmente mal formulada. E é o que sempre digo: nunca responda a perguntas mal formuladas.

16.1.23

Nota de falecimento

"O poeta Edson Marques sofreu um acidente na descida da Serra, pela Imigrantes. O corpo está sendo velado no Velório Municipal do Guarujá. O enterro será hoje às 17h no Cemitério da Consolação, em São Paulo. A família enlutada agradece as manifestações de pesar."
(*)


(*) Minha ideia para um novo livro.







Desfaça-se o engano sobre a "notícia" da minha suposta morte — que afinal revela-se falsa. Felizmente! Felizmente para mim, pelo menos... Foi brincadeira de um grande amigo meu (talvez o maior), a quem pedi para publicar um texto aqui no blog, pois eu estaria longe da internet por dois ou três dias. Sugeri que ele pegasse um parágrafo qualquer do meu livro Lógica para Crianças (que será logo mais publicado pela Pandabooks). E ele fez exatamente o que eu pedi! Apenas alterou "teu pai" por "o poeta". /// Em respeito aos leitores que, por causa do texto acima, foram levados a pensar que eu havia morrido, vamos a algumas explicações:

Nesse meu livro citado, eu procuro ensinar às crianças que jamais respondam a perguntas mal formuladas. O livro quase todo é um diálogo entre um pai e seu filho adotivo (nessa fase com seis anos), em situações da vida cotidiana. Na página 144, logo após a criança ter respondido (corretamente) à pergunta sobre a quantos graus a água ferve ("depende o grau e depende onde"), e enquanto o pai explica (em espanhol) as funções da Rainha no jogo de xadrez (porque assim a criança aprende a língua enquanto aprende o jogo), o pai resolve fazer-lhe (em português) uma pergunta sobre Lógica:
— Filho, se te disserem hoje à tarde que teu pai sofreu um acidente na descida da Serra, o que você vai pensar?
— Eu primeiro vou perguntar se foi um acidente fatal, ou se só quebrou o para-choque ou a roda do carro...
— E depois?
— Depois eu vou perguntar se foi meu pai biológico ou se foi você...
Vejam que resposta genial essa criança deu!
E o diálogo continua.
— E se você, no intervalo das aulas, recebe um bilhete da professora com um texto assim:
"Teu pai sofreu um acidente na descida da Serra, pela Imigrantes. O corpo está sendo velado no Velório Municipal do Guarujá. O enterro será hoje às 17h no Cemitério da Consolação, em São Paulo. A família enlutada agradece as manifestações de pesar."?
— O que significa "enlutada"?
Depois que o pai explica o significado do termo ainda desconhecido, a criança continua:
— Se o acidente não foi fatal, o corpo no cemitério não é você...
— E se o acidente foi fatal?
— Ah... Daí eu acho que vou chorar...

Então eu dou um beijo na testinha dele, e ele me dá um xeque-mate!

Claro que eu deixei ele vencer... Afinal, eu quero que ele seja um vencedor.

Estou escrevendo esta ressalva na madrugada de 15 e na manhã de 16.01.2013. E revisando em 16.01.2020. E republicando hoje, 16.01.2023.

15.1.23

Que falta me faz uma luneta

Nesta manhã de 12.05.1999 fico olhando a rua, a esquina, as pessoas, e Nanna Grace não aparece. Ela não disse que viria mas eu me acordei supondo que sim. Bem poderia. Olho lá longe — e toda menina bonita que vem, com cadernos nas mãos, cabelos pretos e andar gracioso, me lembra Nanna Grace.

Que falta me faz uma luneta!


Não há nuvens na minha geografia — são espumas flutuantes num céu que me descobre.

Certezas cotidianas

Parece que minha rebeldia anda hoje meio fora de forma. Tem dias em que eu contemporizo. Viro um mediador da realidade. Até penso em consertar algumas coisas, embora sabendo que melhor seria talvez desarrumar todas elas de uma vez. Na verdade, eu devia mesmo era realçar essa anarquia que me abraça, buscar mais harmonia no desarranjo puro, na inconsequência dançante, no abismo alado absoluto. Desestabilizar esse caos que já está ficando íntimo demais. Pôr um pouco mais de dúvidas nas certezas cotidianas. Criar outras loucuras e alegrias, mais doçuras e outros riscos, mais sol, deslumbramentos. E tornar-me desnecessário para todos, para tudo — e para sempre.

Mas tudo de modo amoroso e sem perder a ternura jamais.

14.1.23

Sonho da Mãe

O primeiro corpo de mulher que eu toquei foi o da minha Mãe quando eu nasci. Ele brilhava só por mim, como a própria luz da virgindade poética. Era um farol no alto da montanha, era um sino na catedral de amor por onde entrei neste mundo encantador.


Eram sete e vinte da manhã e eu vibrei cento e oitenta vezes sem parar. Aquilo não era um parto natural, era uma partitura. Minha mãe não gemia, cantava — e eu não era só um bebê normal que nascia de um corpo humano, mas uma sinfonia em sol maior que floresceu a partir de uma semente divina, colorida, entusiasmada.

Era um sábado de aleluias, e eu amei chegar como cheguei. Naquele momento, ao ouvir as mil badaladas, eu já senti que o meu destino era viver.




Duas ou três gotas de Champagne

Nesta noite vitoriosa e de amor escandaloso a própria lua pára atônita no céu e nos assiste. Num voo imaginário de pássaro surpreso, meus doces lábios de morango tocam de passagem tua boca entreaberta: duas ou três gotas de champanhe caem no teu mamilo pontiagudo, como chuva de cristal no Pico do Everest. Ajoelho-me ao teu lado, e teu corpo já não é mais apenas o teu corpo: é uma catedral...

Como em liturgia, sussurro uma breve oração poética, uma prece de amor, e teu instinto felino salta por sobre os meus propósitos. Nossas humanas emoções se instalam de repente, porque tua inocência é o maior afrodisíaco. O infinito brilho nos teus olhos me fascina — outra vez — e então concluo que viver não tem limite:

Sinto-me agora como se Deus derramasse mil flores recém-colhidas na minha cabeça.

Só me resta beijar tua clavícula, meu amor.

Tua clavícula..

13.1.23

Colher o que plantou ?

Quando eu era pequenino, na fazenda onde meu Pai era meeiro, lá no Paraná, eu plantei um pedacinho de terra com feijão. Não me lembro bem da medida, mas acho que era uma "quarta". Fiquei tão contente. Ganhei até uma enxadinha de presente, com cabo de guatambu. E eu cuidava das plantinhas todo dia, com amor e poesia. Tinha até um regadorzinho de alumínio. Eu imaginava tornar-me um lavrador, agricultor, talvez futuramente até mesmo um dono de fazenda... Mas, em fins de fevereiro, bem na véspera da colheita, uma bela tempestade de granizo (que a gente chamava chuva de pedra) destruiu toda a plantação.

Portanto, é falso aquele ditado que diz que a gente sempre colhe o que plantou...




Analista de circunstâncias

Quando me perguntam sobre o que sou e o que faço digo apenas que sou um Criador. Tenho ideias, muitas, sobre vários temas, todo dia. Projetos, sonhos, invenções. Planos loucos, inclinados, geniais. Alguns são colocados em pedaços de papel, outros vivem no meu próprio coração. Muitos viram livrosamoresempresasrelaçõesconsultorias. O importante é que meu primeiro amor foi Marina, aos sete anos de idade. 

Hoje sou um analista de sistemas. Um analista de circunstâncias.

Mas meu primeiro empreendimento foi na área de calçados, também aos sete anos (fui engraxate, por duas ou três horas). Depois, a AJAN — Aliança Juvenil dos Amantes da Natureza — foi considerada subversiva pelos militares, que a fecharam. O meu time de futebol durou só dois anos, pois concluí que era melhor continuar sendo o craque do time do que ser apenas o dono da bola. O Restaurante, aos dezesseis, em cuja construção aprendi com meu pai a beleza do piso cerâmico em diagonal, continua funcionando até hoje. O terceiro projeto comercial, aos 22 anos, a K-Misster, virou minha segunda empresa — que abandonei de modo romântico e poético como se pode ler dando um click na imagem seguinte: 




Como já disse acima, aos 22 anos eu montei minha segunda empresa. Uma confecção. O nome era K-misster, e ficava na Avenida Nacionalista, número 100, Itaquera, SP. Aluguei um galpão, comprei doze máquinas na rua São Caetano, montei um bom estoque de tecidos, que comprei na 25 de março, contratei dezessete costureiras e soltei o meu barquinho em alto mar. Eu também desenhava os modelos. Cheguei a vender, entre outros, vários lotes para as Lojas Piter, que ficavam ao lado do Teatro Municipal. Mas a fábrica era muito longe, e eu queria curtir a vida e estudar filosofia... Depois de três ou quatro meses larguei tudo. Dei as máquinas para as costureiras, comprei um carro conversível — e saí pelo mundo. Viver novas experiências.

Deu certo.

12.1.23

Lógica e Poesia

Eu adoro a Matemática desde pequenino. Aos oito anos eu já sabia a tabuada do 15 e a regra de três. Aprendi a descontrolar meu mundo com o Teorema de Pitágoras. Aos dez, já era íntimo de PA e PG e de equações exponenciais. Depois, me apaixonei pela Lógica de modo inescapável. Mais tarde, virei amante excitado da Estatística e da Teoria dos Nós. Vibrei com Fibonacci, e fui fazer computação. Mas tudo isso abraçado a flores e estrelas, e sem jamais abandonar a Poesia. E foi assim, dançando nos versos dos meus sonhos, é que descobri a existência de uma coisa gloriosa, que se chama Divina Proporção. O modo mais brilhante de levantar uma parede ou desenhar uma calçada. O modo mais gracioso de colocar as vogais tônicas nos meus cantos e poemas, e a maneira mais elegante de massagear os pés do meu amor.



Por sugestão do meu professor de Lógica na USP, Oswaldo Porchat, comecei a estudar Alan Turing de modo profundo. Em seguida, fascinado que fiquei, entrei de cabeça na computação. Sem abandonar a poesia, aprendi várias linguagens, inclusive Cobol, Assembler, Pascal e Fortran. Tudo isso em apenas um ano de dedicação integral. Fui ser programador, e três meses depois era Analista de Sistemas e em seguida, aos 22 anos, promovido a Gerente de Informática numa empresa chamada Protin. Meu salário, impulsionado pela Lógica, decuplicou. E eu continuava na Filosofia — amando a Lógica, lógico, cada vez mais. Por isso hoje esse meu respeito absoluto pela lógica e pela poesia. Eu respiro lógica e poesia o dia inteiro.



Como me disse meu Pai,
Se. Eu. Não. Estudar. Eu. Vou. Me. Foder.




Veja o que é a Divina Proporção.

Capela da Mãe

Capela de Nossa Senhora de Iracy

Minha ideia 469.

Esboço da Capela que vou construir no jardim da minha Mãe. Lembrem-se de Arquimedes, quando disse: "Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo". Só agora eu vejo que tem relação com isso. Essa obra terá um único ponto de apoio. Eu a tinha feito apenas com dois traços: o V e o círculo. Depois, acrescentei (em traços um pouco mais finos) a "Cruz" estilizada, que em verdade é o ideograma em mandarim 上 (shàng), que significa "pra cima, alto, superior, excelente". E que compõe 上帝 (shàng dì), que significa Deus. O altar ficará no círculo (que na execução será uma esfera). Ainda estou extasiado com a beleza dessa ideia. Ela me surgiu de repente, assim que me acordei, num domingo Garujá de manhã, dia 23/09/2015.

Acho que foi o espírito do Niemeyer que SUBIU até Mim. Do Niemeyer e daquele Outro Arquiteto, que, dizem, desenhou este Universo...

A propósito, eu e minha Mãe nunca brigamos. NUNCA. Ela nunca me deu nem sequer um tapa, nem sequer um puxão de orelhas. Ela nunca me viu bêbado. Eu nunca gritei com Ela, e Ela nunca gritou comigo. Nós nos respeitávamos, mutuamente. Portanto, Ela só teve razões para me abençoar. Todos os dias... Sempre fui (ainda sou, e sempre serei) o filho predileto dela. Por isso esse meu Sucesso Absoluto como ser humano.

Esta é a Capela Sistina.



Este é o projeto na parede da Casa Azul.
Foto feita em 08.07.22.


11.1.23

A beleza do resultado

Geralmente, as pessoas perdem a vida onde supõem ganhá-la. Mas isso não acontece comigo, pois não separo meus projetos pessoais dos profissionais. A vida é uma totalidade dialética indespedaçável. Para mim, tanto faz desenhar uma parede para um projeto de revestimento cerâmico, quanto esboçar um poema de amor num guardanapo de papel. Tanto faz analisar um sistema, construir uma calçada, escrever um aplicativo ou jantar com meus amores. Tanto faz. O parâmetro é o prazer. Exclusivamente, o prazer. E a beleza do resultado.

Vale do Anhangabaú


Eis o Vale do Anhangabaú, (visto de um dos meus escritórios de SP) nesta tarde de sábado (*), logo após o almoço. Em primeiro plano o Viaduto Santa Ifigênia, que é uma obra de arte em todos os sentidos, inclusive a estrutura, que veio da Bélgica em 1910. À esquerda (mas não aparece na foto), fica o Mosteiro de São Bento — que você deve visitar sempre que vier ao centro de São Paulo.

Já desenhei muitos projetos, já tive muitas ideias, já escrevi muitos poemas olhando por esta janela. Esta janela me encanta.

É a vida...


(*) Era o dia 22 de Março de 2014.

10.1.23

Freud entende

Às vezes, penso em escrever aqui algo mais sério, mas logo me contenho, pois este é um blog despretensioso, experimental, onde só publico ensaios poéticos e frases curtas. Mas hoje quero falar de Freud. Não sou especialista em Freud, mas passei a gostar dele. Suas teorias encantam a todos que procuram conhecer um pouco mais da alma humana. O genial criador da Psicanálise tem sacadas brilhantes. Essa da "interiorização" é uma delas. A chamada interiorização simbólica da autoridade, que normalmente ocorre desde a primeira infância, levanta em nosso peito uma barreira impressionante. Quase intransponível. O fato é que a culpa, o medo, o ódio, o ciúme, a vergonha irracional, o preconceito, a ignorância — todas essas coisas horrorosas nos afastam do amor e da alegria, da liberdade e do prazer. Nos afastam do Conhecimento e da Sabedoria.