29.9.22

Torresmo de frango

No dia (*) em que fui comer torresmo de frango na casa da Regina, ela reclamou delicadamente que eu quase não apareço, e que isso a faz pensar que está me perdendo. E que essa percepção, supostamente, é também a da família toda (**). Ao que lhe respondi:
— Claro que não, minha irmã! Estou aqui, ao teu lado...
Dei-lhe um abraço e lhe disse, entre sorrisos:
— E sempre estarei...

Acontece que tal promessa jamais será cumprida. Era um pouco de teatro, feito apenas por amor. Para não quebrar o clima de festa, pois, sempre que nos encontramos, eu e Regina, instaura-se uma festa entre nós dois. O torresmo estava uma delícia, bebemos e dançamos, a conversa varou a noite. Mas depois, já na cama, fiquei pensando: meus irmãos, todos eles, estão mesmo me perdendo. Inapelavelmente. É preciso que os meus irmãos (e alguns dos meus amigos, e alguns dos meus amores) me percam, mesmo, definitivamente. Porque eu já saltei profundo demais. Minhas asas cresceram demais... Não consigo mais voltar àquele mundo certinho deles, àquela (para mim) sufocante normalidade. Por essa razão, meu exemplo acaba não lhes sendo construtivo. Sofreriam — se saltassem. Estão por demais amarrados às suas próprias raízes, que morreriam se saltassem. Portanto, é preciso mesmo que me percam. Talvez seja preciso até que me expulsem dos seus próprios corações, para que minhas influências românticas não os desestabilizem mais ainda. É preciso que eles me julguem apenas um louco, que não sei nada de nada, e que estou completamente errado naquilo que faço. Aliás, ser livre não é fácil. Requer disciplina, ousadia e coragem. Requer desapego. E no conceito de felicidade deles, essas coisas ainda não cabem. Logo, que a distância amorosa nos seja um bálsamo. Que a distância metafórica entre nós se torne agora astronômica — se for preciso.

Só assim nos salvaremos — mutuamente... Deliciosamente!


(*) - Era o dia 13.11.2013, em SP.

(**) - A "sensação de perda" a que ela então se referia era, provavelmente, outra (1). Dois irmãos meus já tinham batido as botas recentemente, e a família, com a exceção da minha Mãe, é claro, e com as devidas explicações freudianas, já tinha me colocado na marca do pênalti... rs!

(1) - Em 2014, face ao meu sumiço de muitos meses, ela se autoconvidou a visitar-me num dos meus escritórios de SP, só para ver (depois me confessou) se os piores vaticínios (ou esperanças) familiares a meu respeito (minha morte) já estavam se concretizando... Frustrou-se. Aliás, até hoje (29.09.2022), frustraram-se todos. Estou mais vivo do que nunca. Para eles, portanto, deve ser muito difícil ter um irmão como Eu. Suponho.




Atualizando esse texto em 29.09.2022. Na Casa Azul.

A colônia penal

Dizem que havia uma colônia de vermezinhos graciosos no fundo de um lodaçal. De vez em quando, alguns deles subiam à superfície e nunca mais voltavam. Isso deixava perplexos aqueles que permaneciam. O que será que tem lá em cima, que tipo de perigos pode haver? — eles se perguntavam. Até que certo dia um deles acordou, pôs as duas mãos no coração e prometeu sinceramente aos seus irmãos: 


Preparou-se bem, leu Osho e Henry Miller, armou-se de inocência e de coragem, aguou suas plantinhas, atualizou o Facebook, despediu-se dos amores, desfez as suas malas — e subiu. 


Mas, assim que chegou à superfície, viu Luz, transformou-se numa libélula, abriu as DUAS asas — entusiasmou-se! — e voou alegremente para o azul anil do céu profundo... 

E agora já não pode mais voltar. Morreria se voltasse...






Atualizando esse texto em 29.09.2022.

28.9.22

Tua hora está chegando

A vida está por um fio. Tua casa tá pegando fogo, teu amor se despedaça, tua hora está chegando... Não a hora da morte biológica, que pode até demorar, mas a hora da verdade, a hora de virar gente, a hora de assumir o comando. A hora de tomar consciência.

A cebola da vida está descascando, inexorável, aí, ao teu lado; o leão do tempo, feroz, rugindo no teu cangote — e você não reage. Nem se mexe. Acontece que há conclusões às quais você tem obrigação de chegar, hoje: Ou você se salva — ou você se fode.



É isso que eu quero dizer novamente hoje, mas você teima em não me ouvir. Porque todos temos uma certa tendência neurótica em deixar as coisas como estão, em salvar as aparências, em manter as estruturas — mesmo que apodreçam. Quase todos temos uma enorme preguiça de agitar as circunstâncias. Propendemos a deixar tudo como está, embora vivamos fazendo promessas de mudar o mundo.

Como disse Göethe no Fausto, "a quem persiste na Esperança ainda resta a Salvação". Mas você sempre deixa pra depois. Você chuta o agora. Você adia o instante. Você posterga o hoje. 

Você pensa que vai viver mais mil anos...
Mas não vai, não.
Nem eu.



Texto publicado em 24.07.2005 no Guraujá.


Não basta ter asas — é preciso ser livre.



Casa real virtual

Estou morando numa casa que tem tramela, uma corruíra canta ali na laranjeira e a tampa da chaleira de alumínio começa a tremer lá no fogão de lenha. Nenhum silêncio que não seja o agradável. Um tiziu aveludado toma a decisão de me encantar, saltando vertical no palanque do portão. E eu fico aqui pensando. Se a gente não nasceu num lugar assim, como esse, bucólico, meio oriental, pode ainda ter a sorte grande de renascer num parecido. Sinto-me hoje um louco Hermann Hesse cultivando rosas e alfaces, tocando clavicímbalos ao lado de um pé de lírio, e deitado eternamente no meio de um jardim, no quintal da minha Mãe.

A bem da verdade, minha casa não tem tramela nem palanque no portão. Aliás, minha casa nem é minha. E fogão de lenha já não vejo há muito tempo. Mas eu toco clavicímbalos até que bem, cultivo rosas e alfaces num canteiro de estrelas, e vivo mesmo num jardim... E o tiziu aveludado imaginário é quem conta essas coisas todas tão malucas e amarelas para mim. Acordei hoje cedo num hotel brilhante no meio do Rio (*), sem saber de onde vim, nem pra onde vou. Talvez foi isso que me fez lembrar do fogão de lenha da Vó Vitalina e do quintal da minha Mãe.

(*) Rio que corre por dentro da Pedra. Ita. Araré.

Texto escrito em 15.02.2021

27.9.22

Tia Ana

Eu agora me lembro da Tia Ana. Certa vez, por quase dois meses, ela repartiu comigo seu próprio quarto, para me ajudar a estudar quando meu Pai quase me tirou da escola a fim de transformar-me em dono de restaurante. Eu tinha dez anos. Jamais me esquecerei. Ela, não só por isso, foi muito boa para mim. Ela dizia que, para uma boa convivência, a gente deve sempre compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada pessoa. Por isso, eu agora vou perdoar os três maiores... dela!

Mas, antes, tenho que pensar um pouco, pois só me lembrei de um. Será que ela tinha três?

Entretanto, aproveito para te perguntar: no caso dos teus amigos, parentes e amores — você consegue compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada um deles?

Cada um Cada um

Vocês poderão discordar de muitas coisas que eu digo aqui. Muitas. Afinal, cada um de nós é um ser único. Cada um de nós tem seu próprio tempo, seu sistema de valores, sua própria maneira de julgar um fato, analisar fenômenos, fazer escolhas, cavar buracos e encontrar saídas. Cada um de nós tem sua particular visão do mundo — intransferível, única, exclusiva. Cada um tem suas ideias de verdade, de justiça, de amor, de religião, de liberdade.


Ou se perder...

26.9.22

Calçadas do Brasil

Planejamento cuidadoso, disciplina absoluta e flexibilidade conceitual. Sócios brilhantes, capital de sobra, e um excelente sistema de informações. Marketing eficiente, prospecção de mercado, captação de clientes, competência operacional, e boa estrutura administrativa. Comunicação constante. Parceiros confiáveis. Ampla terceirização. E uma rotina de pós-venda de primeira classe. Eis os fundamentos para o sucesso de uma empresa que certamente será grande.








Almoço que fiz hoje.

Talharim Bonalle, com picanha suína, alho cozido, champignon e cebolinha, tudo sob uma torre generosa de parmesão ralado.






Eu sigo meu coração

Eu respeito sempre os meus amores. Assim mesmo: no plural. Tenho muitos. Sempre os tive. E sempre os terei. Mas, quando eu digo "respeitar os meus amores", às vezes refiro-me às pessoas que eu amo, outras vezes aos sentimentos que eu produzo, coisas que eu sinto. Portanto, respeitar os amores tanto pode significar respeitar as vontades (desejos, critérios, conceitos) de pessoas que eu amo (e que suponho também me amem), quanto seguir livremente as paixões (desejos, critérios, loucuras) que eu trago no meu próprio peito.

Dito de outra forma: respeitar os meus amores é seguir meu coração.






25.9.22

Suzana e Patricia

Eu me apaixonei pelas duas — ao mesmo tempo. Mas, enquanto Patrícia desejava "o melhor" para mim, Suzana só queria que eu fosse um poeta louco, exagerado. Eu, de minha parte, que nunca tive mesmo a pretensão de ser indispensável, só queria fluir. Fluir e voar, enquanto ainda houvesse algum vento de liberdade soprando em mim. Enquanto ainda tivesse meia dúzia de asas, todas livres, saudáveis e amorosas.

Patrícia, por uns tempos, foi o meu maior amor, em quase todos os sentidos. Suzana, também. Por isso, dediquei a elas tudo o que fiz de melhor naquela fase da minha vida.

Eu as amava, mesmo!

Era sincero quando lhes dizia, a cada uma, "eu te amo". E também sincero nos momentos em que só pude amá-las em silêncio profundo porque estava, respeitosamente, com outras.

Corria o ano de 1999. 
O século 20 estava virando de ponta-cabeça. 
E a Vida, ali — me convidando como fosse Tentação.

Como todo mundo que busca crescimento espiritual, eu tenho dois lados: o sério e o gostoso. Patrícia, é claro, queria o primeiro. Suzana — o gostoso. Patrícia queria, primeiro, o eterno, o estável, o mais tarde. E Suzana queria, primeiro, o segundo, o momento — o agora! Patrícia queria o marido. Suzana, o poeta. Patrícia, como já disse, era sensualíssima, mas Suzana tinha a inocência mágica dos 17. Enquanto Patrícia adorava o burguês que morava no meu corpo, e me cobria de roupas, perfumes e presentes, Suzana só me descobria. Adorava o meu lado maluco, segurava minhas mãos como se me pegasse todo, e dizia, olho no olho, sorrindo, encantada:

Viva a vida, Edson — nos três sentidos!

Patrícia queria certezas; Suzana me jogava no abismo.

Patrícia significava segurança, estabilidade.

Mas Suzana quer dizer Aventura!

Durou quase dois anos esse nosso delicioso triângulo de vertigens. E foi só quando chegamos ao pico é que tive de optar com veemência. Porque, de Patrícia, eu tinha que me salvar correndo, para enfim poder viver. E de Suzana, eu só queria ter belíssimas lembranças...

Além disso, ambas também precisavam salvar-se de mim.

Então, saltei.

De cabeça, no coração da Vida.

Questionar ideias

Eu não nasci para satisfazer as expectativas de ninguém. Em verdade, eu só quero é provocar intelectualmente as pessoas criativas, como suponho você seja. Eu quero questionar tudo. Quero questionar os teus padrões, tuas verdades e medidas. Esmagar as tuas convicções, assim como esmago as minhas.

Não pense que eu quero muita coisa, não: eu só quero fazer chuva quando o mundo fica meio seco, e fazer o sol nascer brilhante no meu peito todo dia. Abraçar a metade do infinito quando me deito na praia em noites de luar escandaloso. Quero escrever poesias, falar de amor e liberdade, saltar profundo — e gozar a vida.

Quero balançar a cabeça de quem me lê, delicadamente. Esparramar minhas loucuras no coração dos meus amigos e dos meus amores. Repartir com todos a poesia do meu entusiasmo e dos meus delírios.


Nada mais. Nada menos.

24.9.22

CDMP

 



Além das suas recomendações sobre sempre respeitar a opinião alheia — e nunca usar sapatos velhos — há outras dele das quais agora me lembro:

1.  Respeite a tua Mãe.
2.  Não carregue pacotes.
3.  Não economize na comida.
4.  Seja dono do teu próprio negócio.
5.  Junte-se aos melhores.
6.  Beba pouco.
7.  Estude bastante.
8.  Não fume.
9.  Não transe com as empregadas.
10 Não minta — exceto se for para salvar a vida.

Quando morreu, trazia no bolso, na carteira de couro marrom, uma carta, dobradinha, meio amarelada e com sinais evidentes de muitas leituras. Não sei onde pode estar o original. Talvez tenha tido o mesmo destino daquelas fotos que as doentes rasgaram. Felizmente a memória não se perde. Não é possível rasgar uma lembrança, destruir um símbolo, esconder um coração. Manifestações de amor, como essa do meu Pai ao carregar minha carta consigo — até no dia da sua própria morte —, não se apagam. É uma honra para mim.

Dia da Mãe

Era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de aleluias, era hora de metáforas e loucuras. Era uma casinha de madeira e primavera ao lado de uma roseira branca no finzinho de uma rua principal. Como toda mulher inocente, minha Mãe havia sido deflorada por um delicado Inspírito Santo chamado Luiz.  Era madrugada e ela estava sozinha outra vez. Foi então que essa Mulher me deu a Luz. Era o começo de uma história de Amor.

Antes do leite, antes do açúcar, antes do arroz com feijão — eu queria mesmo era o amor que ela me dava. Este foi meu primeiro e mais querido alimento: o Amor. Como se pode notar, eu sempre me alimento de Amor e de Mãe, de risco e paixão, de glória e loucura, flores, estrelas, matemática, poesia, lógica e mulher. E liberdade — é claro.

Ela jamais quebrou as lanças da minha ousadia, e nunca pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ela me apoia com entusiasmo, incentiva os meus saltos profundos e me aplaude todas as conquistas. Compreende os meus gestos, mesmo quando parados no ar. Ela me aceita como sou, inteiramente. E me faz acreditar, cada vez mais, que o verdadeiro amor é a união delicada de duas espontaneidades, a fusão poética de dois devaneios. Ou mais.


Até hoje é assim a minha Mãe. Simpática, amorosa e cheia de alegria...

Café com Ciência

Café com Ciência

Faço café religiosamente todo dia (*). E o advérbio é mais para ressaltar o critério do que a constância. Como se meditasse, eu abro a embalagem enluarada, madrugante, cheia de brilho e pó, fecho os olhos, sinto o cheiro, sorrio por dentro e por fora — e começo a sessão. A água já benta e quase fervendo (mas sem deixar que chegue a tanto), o canto dos passarinhos, o barulho do mar, as ondas da música de fundo, a forma dos sentidos — tudo — tudo contribui para que eu logo mais tome um café divino, poético e fundamental neste céu azul do meu amor.

Mas, ontem à noite, esperando a Lua na Feira da própria, eu tive uma vontade enorme de tomar Café com Fé.




(*) Exceto quando estou longe de casa.


 
Essa foto eu fiz em 2014, num sábado à tarde, no primeiro escritório da Calçadas do Brasil em SP.

23.9.22

Feliz aniversário!

O presente de Aniversário que eu quero te dar
não pode ser comprado:
Não tem nas lojas, nos mercados, nem nas feiras ou balcões.
Não é feito de plástico, não é eletrônico, nem precisa de manual.
O presente de aniversário que eu quero te dar
já está dentro do teu próprio coração.

Basta que você agora o desperte para a vida:
É o amor pela liberdade absoluta.
É a admiração extrema pela Arte de Viver.
A defesa inabalável da ideia de justiça, de verdade e de prazer.
A coragem de sonhar transformações.
A busca cotidiana por tudo que é sublime,
e o doce desejo de sugar o açúcar de todas as coisas.

Feliz Aniversário!

Jardins do Éden

Primeiro eu plantei as flores...



Foto em 31.03.2021. Jardim da minha Mãe.

As flores são mesmo ingratas: a gente as ganha para que sejam eternas, mas então elas desistem no meio do caminho. Murcham, secam, e depois morrem, assim sem mais, nem menos, "como se entre nós nunca tivesse havido... Vênus".

E morrem talvez por desespero — talvez até por amor não respondido — antes que a gente mesmo as abandone, amorosamente, ao seu próprio perfume imortal que se acabou. 

As flores — quando colhidas — são mesmo ingratas...


Por isso, jamais eu colho essas flores que encontro nos jardins da minha vida. Quando vejo algumas, lindas e viçosas, ofereço-as aos meus amores, delicadamente. Mas deixo-as onde estão:  no próprio caule da plantinha inocente que lhes deu origem.



E então eu fico assim — distribuindo flores e estrelas, todo dia, o dia todo...


Um novo projeto em fase de criação.














22.9.22

Primavera

Nesta Primavera até o pé de couve já está florescendo.

Foto de hoje no quintal da Casa Azul.


Não espere a próxima Primavera
para sentir o perfume
de todas as flores.


O ano que vem
pode ser tarde demais.

José do Egito

Hoje eu sonhei com José do Egito. Veio pedir-me ajuda para interpretar um sonho que ele havia tido anteontem. Era sobre umas carruagens perdidas, e o melhor caminho para encontrá-las... Foi um prazer ajudá-lo. Depois eu conto aqui alguns detalhes.

Vitalina Flor

A escrita é o código do Verbo. A roda do vinho faz tudo girar. Depois de dois ou três copos minha voz Vitalina, e realiza sinapses verbais. Ideias escorrem pelas pontas dos meus dedos falantes. Eu começo a desenhar flores e planos nos guardanapos do boteco divino, enquanto as delícias dançam no meu próprio coração. Meu peito entusiasmado, pleno de espírito, quase explode de alegria. Trilhões de átomos já estão se reunindo, sonho a dentro e mundo afora, desde hoje, para que eu os encontre em forma de estrelas e corpos em dezembro do ano que veio. E é por isso que eu escrevo declarações de amor a Deus nesta noite açucarada. A roda da vida faz tudo girar. O vinho deve ser redondo, e o Universo — também.



Nesta primavera
vou encher de flores vermelhas
todos os meus vasos
sanguíneos.



21.9.22

Ciúme

MEU CONCEITO DE CIÚME

Um texto ainda em fase de construção.


O ciúme é uma coisa muito triste. Produto secundário de um coração inseguro — e que teme amar de verdade. Demonstração de um certo sentimento inexplicável de inferioridade latente. Deselegante ao extremo. E o que é pior: causa mais dor em quem o sente do que na vítima propriamente. O ciumento não é necessariamente um maldoso, mas é sempre um sofredor. Suspeita de tudo e de todos. Vive procurando fantasmas quando poderia estar dançando. Sofre muito quando descobre ter razão no que supõe — mas sofre mais ainda quando fica em dúvida sobre a fidelidade requerida.

Como todo gesto autoritário irracional, o ciúme acaba interrompendo o fluxo do amor, estraçalha a poesia do romance, e suspende a vida por momentos infinitos. Restringe. Chega quase a sufocar.

Numa relação que até nasceu maravilhosa e bem poderia continuar sendo de amor pleno e delicioso, o ciúme se instala como um bicho feio — que assassina a paixão de pouco em pouco e massacra a liberdade no final.

É uma coisa tão feia, que poucos assumem tê-la tanto.

Pense no que acabo de dizer.

(...)

Claro, há o desejo, legítimo, de preservar uma relação agradável por mais tempo. Ou de montar uma família com os pais presentes e unidos na educação dos filhos. Sei que essas coisas boas acontecem e são compreensíveis. Porém, não justificam a questionável ingerência do ciúme. Mesmo no casamento tradicional é possível estabelecer vínculos saudáveis, livres e modernos. Suponho.

(...)


Rede amarela

Desarmo na beira da praia a rede amarela e me lembro de Artaud. E do meu avô Joaquim, o carroceiro — que sequer conheci. Artaud você sabe quem foi, e meu Vô Joaquim é aquele que gastava uma semana inteira para juntar os ingredientes da macarronada de domingo. Uma história triste e bela ao mesmo tempo. Ficou louco, o coitadinho. Mas ficou louco do lado errado... Depois eu conto a respeito. Ficar louco é muito fácil. Mas só a loucura brilhante é que nos leva ao templo da sabedoria. Por isso é que, entre a sensatez paralítica das coisas normais e a loucura poética daquilo que excita — fico com esta, naturalmente!

20.9.22

Primogênito

Sou primogênito, em todos os sentidos e de todas as formas. Por todos os lados. Primeiro filho, primeiro neto, primeiro bisneto. Primeiro sobrinho, primeiro primo, primeiro da classe. Primeiro amigo. Primeiro amor. Primeiro quase tudo...

Eu me costumei a ser primeiro.

E meu Ego acha isso uma delícia.


Araras

As araras amazônicas podem viver até setenta anos, quando em cativeiro. Mas, soltas no seu habitat, vivem em média apenas trinta e cinco. Como se pode concluir, também no caso das araras, quem vive em liberdade corre mais riscos. Além disso, a gaiola oferece alguns confortos que a vida livre não dá.

Então eu te pergunto:

Se você fosse uma arara, escolheria viver trinta e cinco anos em liberdade — ou setenta em cativeiro?


E se você não fosse uma arara?

19.9.22

Chá de Hortelã

Na madrugada enluarante de 19 de Setembro de 2022, eu estou aqui, no Jardim da Casa Azul, que é a única e verdadeira Casa da Minha Mãe. Colhendo hortelã para fazer um chá.


 Ali na parede a ideia da Capela.

Capela de Nossa Senhora de Iracy

Minha ideia 469.

Esboço da Capela que vou construir no jardim da minha Mãe. Lembrem-se de Arquimedes, quando disse: "Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo". Só agora eu vejo que tem relação com isso. Essa obra terá um único ponto de apoio. Eu a tinha feito apenas com dois traços: o V e o círculo. Depois, acrescentei (em traços um pouco mais finos) a "Cruz" estilizada, que em verdade é o ideograma em mandarim 上 (shàng), que significa "pra cima, alto, superior, excelente". E que compõe 上帝 (shàng dì), que significa Deus. O altar ficará no círculo (que na execução será uma esfera). Ainda estou extasiado com a beleza dessa ideia. Ela me surgiu de repente, assim que me acordei, num domingo Garujá de manhã, dia 23/09/2015.

Acho que foi o espírito do Niemeyer que SUBIU até Mim. Do Niemeyer e daquele Outro Arquiteto, que, dizem, desenhou este Universo...

A propósito, eu e minha Mãe nunca brigamos. NUNCA. Ela nunca me deu nem sequer um tapa, nem sequer um puxão de orelhas. Ela nunca me viu bêbado. Eu nunca gritei com Ela, e Ela nunca gritou comigo. Nós nos respeitávamos, mutuamente. Portanto, Ela só teve razões para me abençoar. Todos os dias... Sempre fui (ainda sou, e sempre serei) o filho predileto dela. Por isso esse meu Sucesso Absoluto como ser humano.

Esta é a Capela Sistina.



Este é o projeto na parede da Casa Azul.
Foto feita em 08.07.22.


18.9.22

PsicoXadrez - ideia 1132



A imperturbabilidade da alma 

é a primeira causa da Felicidade.

     

Minha melhor ideia 
nos primeiros dez dias de 2021.


Os principais inspiradores deste meu jogo serão Epicteto, Epicuro, Sócrates, Nietzsche, Espinosa, Capablanca e Lacan



Resumo:

Cada sessão terá dois players ou mais, em torno de uma mesa, numa sala ou num palco, debatendo questões que os envolvam (ou não), quer sejam filosóficas, políticas, amorosas, comerciais ou familiares. O fulcro do projeto é debater os respectivos temas com o máximo possível de rigor intelectual, e, principalmente, com equilíbrio emocional.  Aqueles que se desequilibrarem (além de uma certa pontuação pré-combinada) perdem o jogo, porém com a possibilidade de retomada futura, nas mesmas bases e com os mesmos temas e propósitos. Ou outros.

(...)


Será um jogo interativo, auto-incrementável, dinâmico, e que possa ser usado inclusive para tomada de decisões a respeito da própria vida, dos planos, dos negócios, das relações, dos caminhos a trilhar, etc. 


Eu acho, modéstia exclusa, que esta é uma das minhas melhores ideias nos últimos dez dias. Ainda estou definindo as regras básicas. E os modos mais elegantes de eventualmente quebrá-las.


Edson. 10.01.21. 10h08.


Leopardo Da Vinci


Felicidade

A FELICIDADE SÓ EXISTE NA OUTRA VIDA.


Dito assim, pode até chocar. Mas parece que é verdade. Precisamos apenas conceituar os termos "felicidade" e "outra vida".

Felicidade você (não) sabe bem o que é. Mas "outra vida" é aquela que você está deixando de viver. Aquela que você hoje troca por qualquer coisa. Por bugigangas e quinquilharias. Por um salário ridículo. Por compromissos absurdos, e relações opressivas, inclusive algumas ditas "amorosas".

E por erros de avaliação. Muitos erros de avaliação.

A felicidade geralmente está na vida que você NÃO vive. Mas que pode ainda ser vivida — se você se levantar.



17.9.22

Beijar estrelas

Quero que o prazer percorra a infinita geografia do teu corpo, e que os desejos, puros, sanguíneos e pulsantes, inundem de amor teu coração, e que os deuses enfeitem tua cabeça gloriosa com um diadema de flores de cerejeira.

Quero que a vida deixe maiores os teus sonhos para que ela mesma caiba toda dentro deles.

Que a coragem, os relâmpagos e a doçura te excitem. Que meu canto do teu gesto faça música. Que meu verbo engravide novamente o teu espanto, e que você de novo se apaixone pela raiz de todas essas coisas.

Eu quero beijar — outra vez — as estrelas do teu céu da boca.

Dois Caminhos



Ou você segue o caminho da Tristeza,
arma-se de medo e de falsas alegrias,
arma-se de angústia, fecha os olhos, se acomoda,
e segue o rebanho dos que não sabem;
obedece a regras injustas, não reage, não questiona,
não se aprimora, não lê, não significa,
nem percebe o absurdo em que se mete.
Vende a própria natureza
por duas ou três moedas de aço,
troca a inocência pela responsabilidade apressada,
torna-se respeitável aos olhos da sociedade,
cumpre horários, nunca tem tempo,
preocupa-se com coisas banais.
Comerciante das próprias emoções — já não brinca,
vive correndo, ama com pressa,
esquece-se da lua,
e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre,
pequena, cansada e normal...


Ou você escolhe o caminho da Ousadia,
compreende, se aprofunda, vai mais longe, realiza,
respeita o ser humano que existe em você mesmo,
resgata a própria vida e o sorriso,
rompe de vez com o passado agonizante,
procura defender a verdade, a justiça e a poesia,
acorda e assopra o fogo da alma que dormia,
cavalga o cavalo negro, cego e alado
das paixões gostosas e sublimes,
enche o peito de coragem, corações e relâmpagos,
acende de novo esse vulcão que é o teu corpo,
deixa a própria cabeça plena de agora,
de ternura e de vertigem,
e parte em busca de Aventura, de Amor e Liberdade.


É uma simples questão de escolha.


Qual é o teu caminho? 









16.9.22

Só o que está morto não muda

Mude

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais,
leia outros livros,
Viva outros romances!

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.

A nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde, ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.


Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.

Só o que está morto não muda!

Primeiro vídeo Mude - com música de Tom Petty
Dê um click acima e veja no Youtube.


A ousadia move o mundo

42 COISAS PRA FAZER AINDA EM 2022


01. Tome mais água, mais vinho e mais sol.
02. Escolha melhor os teus próximos amores. Prefira os livres.
03. Viva com mais Entusiasmo, com mais Energia, e com mais Coragem.
04. Arranje algum tempo pra meditar.
05. Faça atividades que estimulem o teu cérebro.
06. Leia mais livros do que leu em 2021.
07. Fique em silêncio alguns minutos todo dia. Pense. Reflita. Medite.
08. Procure dormir tranquilamente, para acordar de bom humor.
09. Faça exercícios físicos. Caminhe pelo menos 30 minutos por dia.
10. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
11. Não compare a tua vida com a de ninguém. Cada um tem sua história.
12. Seja um otimista racional.
13. Mantenha o controle absoluto dos teus estados de espírito.
14. Não se torne sério demais. Só os alegres vão pro Céu.
15. Só gaste tua preciosa energia com coisas interessantes e gostosas.
16. Sonhe mais. Sem sonho não se cria nada.
17. Saiba que a inveja é um desesperado sinal de fracasso.
18. Jamais conclua apressadamente. Analise antes as premissas.
19. A vida é curta demais para ser tão pouca. Viva mais!
20. Faça as pazes com o teu passado para não estragar o teu presente.
21. Ninguém comanda a tua própria felicidade, a não ser você mesmo.
22. Aprenda alguma coisa nova todos os dias.
23. Sorria mais. Encontre motivos para dar umas boas gargalhadas.
24. Não é preciso vencer todas as discussões. Aceite a discordância.
25. Entre mais em contato com teus amigos e com teus amores.
26. Nunca perca uma oportunidade de ajudar alguém.
27. Se não puder perdoar a todos, ao menos os compreenda.
28. Misture-se aos melhores.
29. Jogue fora tudo que não presta.
30. O que outros dizem a teu respeito nunca vai mudar a tua essência.
31. Não permita que um simples idiota comprometa o teu destino.
32. Faça sempre o que é correto, justo e verdadeiro.
33. Procure não trair jamais a tua própria natureza.
34. Deus cura todas as doenças — exceto o mau humor e a maldade.
35. Valorize a própria liberdade, acima de qualquer outra coisa.
36. Não importa como você esteja se sentindo: pratique uma boa ação.
37. O melhor ainda está por vir — em todos os sentidos.
38. Só o que está morto não muda.
39. Preencha o teu coração com alegria, esperança e gostosura.
40. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
41. Afaste-se de quem te puxa pra baixo.
42. Eleve os teus padrões.

TransCriação de Edson Marques sobre um texto da internet + partes do poema Mude.


Rabanada com leite gelado na Padaria Estrela.

15.9.22

Experiência imaginária

Tudo que existe no mundo — existe duas vezes : primeiro, na cabeça do Criador. Toda mudança tem que antes ser sonhada. A realidade só se transforma de verdade, na prática, depois que transformou-se em teoria. Primeiro no cérebro — depois, no mundo. Sem sonho e sem loucura inteligente, nada de concreto se produz. Nem sorvete, nem avião, computador, arranha-céu. Nem igreja, nem poesia, nem romance, nem Calçadas do Brasil. Os inventores, os poetas, os artistas, os cantores, e os sonhadores empreendedores — são todos visionários. Einstein, Jesus Cristo, Picasso, Buda, Galileu, John Lennon, Espinosa, Niemeyer e o dono do boteco ali da esquina: um bando de malucos. Se dependesse apenas dos normais, ainda andaríamos de carroça. Talvez nem mesmo de carroça, pois a roda foi criada por um louco... Sem fantasia e liberdade não se encanta o cotidiano. A imaginação descontrolada é que dá cor e vida ao mundo livre. Por isso é que a Loucura Criativa é necessária, desejada — e tão temida.




Olhe para os lados

Agora mesmo, onde você estiver, olhe para os lados. Ajuste a consciência, apure a sensibilidade, abra seu coração, respire fundo, olhe para os lados outra vez, e responda-me sinceramente:


São?!

Porque, se assim não forem, responda-me:


(...)

Mas a pergunta pode ficar ainda mais radical:

— Você manteria relacionamento com uma pessoa que não é amorosa, ou não é compreensiva, ou não é inteligente, ou não é excitante, ou não é audaciosa, ou não é livre, ou não é saudável, ou não é brilhante, ou não é honesta, ou não é sensível, ou não é delicada, ou não é independente, ou não tem entusiasmo algum pela vida?

Manteria?!

14.9.22

Fujo dos enfurecidos

Eu sempre me afasto dos nervosos. Procuro ter a delicadeza de nunca ligar-me a pessoas grosseiras, falsas, insensíveis. Fujo dos enfurecidos. Desvio-me dos ciumentos radicais. Detesto autoritários. Quero distância absoluta de estressados e neuróticos. Não concedo aos ditadores sequer minha presença temporária, nem permito aos brutos que suponham ser possível invadir os meus momentos de amor — que são todos.

Jamais negocio a minha própria Liberdade.

Até porque, se eu não for delicado comigo mesmo, se eu não for responsável por mim, se eu não respeitar profundamente os meus desejos — estarei compactuando com quem não gosta de mim.

Pontos de vista

Quero te fazer umas perguntas, cujas respostas podem me dizer quem você é:

Especialmente em questões subjetivas — tais como amor e liberdade, família e religião, psicologia e direito, casamento e política, dinheiro e negócios — quando você não concorda com determinadas concepções alheias, também considera que a razão pode estar com o outro?

Em certos debates, em certas discussões, você costuma ter abertura intelectual suficiente para eventualmente considerar que o ponto de vista contrário ao teu pode estar até mais próximo da verdade?

Na vida, você já não defendeu valores, ideias e proposições que depois envelheceram, desesperadamente?

Você já não teve tantas e tantas certezas absolutas que mais tarde foram fulminadas pelo tempo, pela experiência — e, principalmente, pelo estudo?

Sobre certos assuntos, você já não mudou de ideia muitas e muitas vezes?

E será que agora você nunca mais vai mudar?

Será que você, neste exato momento da tua vida, já chegou a todas as conclusões possíveis?




O poema Mude no comercial da Fiat.