25.5.20

Onde eu cresci


Eu cresci espiritual e intelectualmente nesta casa. Também foi aqui que eu aprimorei minha expertise em negócios. Dos seis aos 18 anos de idade. Naquela janela do meio era o meu quarto. Isso tudo ainda é da minha Mãe. Eu, inclusive.

24.5.20

Quase todos os amores

Todos os amores são encontrados por acaso, e depois se perdem por medo, preguiça, tédio ou supressão da liberdade.

É só você lembrar-se de como é que encontrou "aquele" teu — e do modo esquisito como depois o foi perdendo. Ou, o que é pior, do modo esquisito como ainda o está mantendo...

23.5.20

Exercício Mental

Teorema dos 3 ponteiros.

Minha ideia 720. Matemática simples, porém suponho profunda. A questão é:

— Quantas vezes, num mesmo dia, os três ponteiros de um relógio ficam rigorosamente superpostos?

Para quem não é muito íntimo da matemática (que certamente NÃO é o teu caso!), vou dar uma simples dica, para ajudar no raciocínio:

Vamos chamar o ponteiro das horas de H, o ponteiro dos minutos de M, e o dos segundos de S.

A cada 1 hora, H percorre 30 graus. A cada 5 minutos, M percorre 30 graus. A cada minuto, S percorre 360 graus.

Se a questão fosse APENAS com H e M, com apenas dois ponteiros, a resposta seria muito fácil. Basta uma regra de três. Porém, eu proponho deixar a questão mais complexa. Acrescentei S na equação. Ou seja, o ponteiro de Segundos --- que, para percorrer 30 graus demora apenas 1/12 minutos.

Estou tentando resolver com cálculos de velocidade angular, mas não está fácil.

Espero que você me ajude a encontrar uma resposta mais simples para apresentarmos aos (mais) leigos (do que eu) em matemática.

Esse teorema foi criado ontem por mim. Parece-me que é original, e ainda não foi proposto publicamente por nenhum matemático, no mundo. Pelo menos, não na internet. Já procurei e não encontrei. Mas, caso você o encontre, avise-me. Ou talvez possamos aprimorar o enunciado, posto que ainda nem sei se, durante 24 horas, ocorrem mais do que duas triplas superposições.



Repito: Para apenas dois ponteiros, a resposta é simples, e pode ser vista AQUI. Porém, com esse meu Teorema dos Três Ponteiros, eu tornei a questão MUITO mais complexa. Depois, se quiser, veja a resposta AQUI.

A rigor, não é um teorema, mas logo mais a gente resolve essa questão.

22.5.20

Pico de Mim mesmo

Sou livre. Por isso, nada mais é necessário porque nada é tão preciso. Não existe mais busca, não há posse no território que habito a partir de mim mesmo. Nada tenho que eu possa perder, nada existe que eu queira ganhar. Produto do meu próprio trigo, gume da minha própria faca, sou o verso da minha poesia, e a fantasia de um espírito em repouso. Meu movimento, meu ócio, meu verbo, meu Deus. Minha pátria, minha religião, meu partido, meu clã. Sou a saudade e a ausência de suspiros, a sorte que sustenta-me o corpo, sonho enlouquecido da minha alma, porta que se abre sobre si, a paisagem, a luz — e o olho. (...) Nada me falta e nada me sobra: sou a exata medida de todas as coisas, um conjunto pleno de vazio e de amor, mestre discípulo de Mim, um barco sem destino navegando um coração — num verdadeiro Himalaia de razões.
Sou portanto o Pico de mim mesmo.
Amém.

20.5.20

Conexões

Imagine um sistema (um cérebro) em que cada neurônio só pudesse conectar-se a um específico outro, exclusivamente, por toda sua existência. A partir daqui não me parece muito difícil concluir que, nessa hipótese, tal sistema ficaria empobrecido. Seria um desperdício de potencial.

Agora experimente pensar nas conexões amorosas que temos, cada ser humano com outro. Se nos recusássemos a (ou se fôssemos impedidos de) nos conectar com mais do que um específico outro, simultaneamente ou não, o que é que certamente aconteceria com o sistema?

19.5.20

Espírito Amoroso

O espírito amoroso e excitado da consciência abraça sempre a minha alma e dançam juntos no meu próprio coração. Para que não se possa mais deter minha loucura, nem frente ao juízo em contrário que as paixões sinceras acabam provocando.

Minha alegria não precisa nunca mais de recompensa: ela mesma já se paga e me abençoa, porque existe simplesmente. Afinal, ninguém consegue desfazer o que foi feito — se foi feito com razão e gostosura, com amor e liberdade.

18.5.20

Terceiro

Também a mim não quero que ninguém se ligue de forma dependente. Amar o outro é querê-lo muito, sim — mas querê-lo livre, antes. Não quero que o outro me tome por seu provedor exclusivo de orgasmos e alegria, segurança ou gostosura. Importa deixar claro que só posso ser UM entre os seus múltiplos amores. Posso eventualmente até ser o maior deles, quem sabe — por uns tempos — mas repilo a ideia de ser único. Adoro ser terceiro em relações triangulares.

17.5.20

Já tomei gasolina



Eu tava com a canequinha na mão, e minha Mãe ainda me falou:
— Toma logo!

Só depois ela sentiu o cheiro...

Mas não se desesperou. Nem saiu gritando feito louca pra chamar os vizinhos. Só lavou minha boca com sabonete Gessy.





Depois passou uma água de colônia no meu pescoço, e descemos faceiros pela Rua São Pedro.




(...)

Só não me lembro se gostei. Mas, segundo Ela, eu nem fiz cara feia. Aliás, também segundo Ela, era impossível um menino tão lindo como eu fazer cara feia.


Até hoje eu não consigo fazer cara feia...



Essas e outras histórias eu conto meu livro altamente biográfico:


.


16.5.20

Uma imagem sintética



Algumas imagens de 1999 a 2013.
.

Meia de Seda

Quando eu era mais piquinininho, minha Mãe às vezes fazia Meia de Seda, aquela bebida deliciosa, com gostinho de licor de chocolate e amendoim, e que, por ser meio proibida, a gente só podia tomar um copinho. Pois, é: hoje, aqui nesta tarde ensolarada da cidade onde estou, eu fiz Meia de Seda... Com licor de cacau, gin (também pode ser vodka ou champagne!), leite condensado, creme de leite e paçoquinha (não tinha creme de amendoim nem bombom Sonho de Valsa). Um litro! E agora estou tomando, tudo, deliciosamente, sem pressa, sozinho, meio bêbado, de mãos dadas com esse maravilhoso Crepúsculo argentino, escrevendo mais um capítulo do meu livro Teoria do Acaso — e me lembrando de minha Mãe...

Não é isto a felicidade?!

15.5.20

Só os tristes podem odiar



Toda tristeza tem um interesse muito grande em justificar-se e perdurar. Por isso, toda tristeza procura, desesperadamente, afastar a alegria. O inverso também pode ser verdadeiro. A nós nos resta optar pelo lado que melhor nos pareça.




Às vezes eu generalizo nas minhas colocações, mas só para facilitar o entendimento. Entretanto, em princípio, continuo aberto ao diálogo racional.

14.5.20

Meu Pai e os Girassóis

MESTRE ZEN COM VARA DE MARMELO

Meu pai era racional demais, disciplinado demais, e ético demais. Dominava o cálculo, era íntimo dos números, ensinou-me a tabuada do 13 quando eu tinha sete anos. Quem não sabe a tabuada se fode, ele me dizia. Nasceu para o comando. Era dono de uma violência verbal impressionante — e nunca deixava pra depois as broncas que pudesse dar. Exagerado, tinha seus momentos de loucura: de vez em quando mandava fazer almoços festivos para crianças pobres. Era comum se reunirem duzentas ou trezentas em nosso restaurante. Absteve-se do jogo, não fumava, mas bebia um pouco mais do que eu supunha o certo. Com duas exceções, nunca o vi de fogo. Ele nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal da nossa casa. Depois que as plantas cresceram, ele ficava toda tarde um tempão lá no fundo, sentado num banquinho improvisado de madeira, sorrindo, encantado, tomando vinho vermelho — e olhando os girassóis girarem... Meu pai, portanto — e no fundo — talvez não fosse apenas um simples comerciante atarracado e ex-delegado de polícia. Talvez fosse um poeta. Pena que não teve tempo de ficar completamente louco: morreu aos 49, por erro de um médico que tinha a morte até no nome.



Acabou sendo enterrado sem sapatos, por uma sábia decisão de minha Mãe. Pois ele dizia que nas ocasiões especiais temos que ir de sapato novo. Então, em respeito ao que dizia e supondo ser aquela uma "ocasião especial" — íamos sair para comprar-lhe um par de novos, lá na loja do Jacopetti. Mas a Mãe foi incisiva, além de delicadamente irônica:
— Prá quê? Vai só com as meias!
Com isso, demonstrou que o comando, agora bem-humorado, passaria a ser dela.

Para um bom entendedor, meias bastam...



RECOMENDAÇÕES

Além das suas recomendações sobre sempre respeitar a propriedade alheia — e nunca usar sapatos velhos — há outras dele das quais agora me lembro:

1. Respeite a tua Mãe.
2. Não carregue pacotes.
3. Não economize na comida.
4. Seja dono do teu próprio negócio.
5. Beba pouco.
6. Estude bastante.
7. Não fume.
8. Não transe com as empregadas.
9. Não minta — exceto se for para salvar a vida.

Quando morreu, trazia no bolso, na carteira de couro marrom, uma carta, dobradinha, meio amarelada e com sinais evidentes de muitas leituras. Não sei onde pode estar o original. Talvez tenha tido o mesmo destino daquelas fotos que os doentes rasgaram. Felizmente a memória não se perde. Não é possível rasgar uma lembrança, destruir um símbolo, esconder um coração. Manifestações de amor, como essa do meu pai ao carregar minha carta consigo — até no dia da sua própria morte —, não se apagam. É uma honra para mim.

Obrigado, Pai!




NÃO ERA HIPÓCRITA

Meu pai nunca foi de bater, brigar, e em seguida dar um abraço e dizer que me amava, que era o melhor pai do mundo, que só queria o meu bem, essas bobagens todas. Sou-lhe grato por ter sido afirmativo, mesmo nos atos de violência. Não era hipócrita em circunstância alguma. Mesmo quando teve amantes, tudo foi às claras. Deixava para mim a exclusiva decisão de julgar se ele era ou não convincente. Nunca nos tentou impor seus preconceitos, nem nos convencer de que ele era um bom pai. Tinha dificuldades em demonstrar amor. Queria apenas que eu fosse diferente de todos, inclusive dele. Sempre achou que eu era predestinado — a quê, não sei. Nos meus aniversários, ele costumava me dar como presente assinaturas de jornais, às vezes rádios de ondas curtas, enciclopédias, livros, essas coisas. Mas houve uma vez em que só pôde me dar, justificando racionalmente, meio pacote de bolacha e uma caçulinha da Antarctica.

Meu pai nunca me mandou ir à missa, mas se eu não fosse à escola apanhava de cinta.

Órfão desde cedo, foi lavador de garrafas, ajudante de tropeiro, guarda-livros, jogador, comerciante, alcoólatra, racional em demasia e, como já disse, delegado de polícia — não necessariamente nesta ordem. Porém, sempre foi respeitável e honesto. No dia em que mudei-me para São Paulo ele chorou escondido. E morreu do coração aos 49.


Às vezes sinto saudades dele.



CONSULTOR DE CARREIRAS

Certo dia, eu quis montar um negócio no ramo de calçados. Mais precisamente, queria ser engraxate. Queria muito uma caixinha daquelas de madeira para exercer a profissão, que me parecia fascinante e lucrativa. Então, breganhei um relógio Mondaine por uma caixinha já pronta, comprei umas latinhas de graxa, arranjei uns paninhos velhos, duas ou três escovinhas de dente já usadas, um escova grande, marrom, duas tirinhas de casimira azul de uma velha calça rasgada, juntei-me a dois amiguinhos que já engraxavam — e saí para vencer na vida. Eu tinha quase sete anos. Mas não consegui vencer na vida. Pelo menos não naquele dia, pois meu pai foi me buscar no Mercado, repreendeu-me com vigor, porém delicado, deu minha "empresa" de presente a um menino pobre nosso vizinho — e pediu-me que eu tentasse outra profissão.

Segundo ele, engraxate já tinha demais... E que eu pensasse um pouco mais se era isso que realmente queria. Melhor deixar a decisão para mais tarde, quando eu crescesse.




EM DEFESA DO FILHO

Eis um outro fato de que agora me lembro. Era uma tarde de quinta-feira, e eu escrevo poesias numa folha de papel de embrulho. Um rádio ligado no programa do Hélio Ribeiro. Devo ter doze anos, talvez menos. Eis que chega em frente ao nosso armazém um automóvel dourado, e dele sai um gigante, cujo nome não sei. Meio bêbado, pede uma Brahma e derrama todo o conteúdo num único copo, esparramando o líquido sobrante pelo mármore do balcão, borrando meu desenho e minhas poesias. Olha para mim, e joga a garrafa aos meus pés, violentamente. Os cacos me atingem, mas não me cortam. Os demais clientes, amedrontados, especialmente Joel e Lazico, não se opõem. Permaneço onde estou e também sinto medo, mas não o demonstro. Ouvindo o barulho, vem minha mãe e pergunta a esse homem forte as razões pelas quais jogou a garrafa aos meus pés. Ele profere alguns palavrões, ofende minha mãe, e sai sem pagar. Entra no seu belo e reluzente Simca Chambord, e desaparece.

Chamado por telefone, meu pai chega logo em seguida, na viatura da Polícia (ele era então o Delegado da cidade), e me pergunta os detalhes. Conto-lhe. O número da placa, a cor do carro, etc. Pede-me que eu vá com ele à procura do valentão. Como a cidade é pequena, meia hora depois o encontramos na Praça São Pedro, num bar cujo nome era, se bem me lembro, Toca da Onça. Meu pai dá-lhe voz de prisão e os dois soldados que nos acompanham o colocam no camburão, com toda delicadeza. Os soldados eram irmãos, enormes, e se chamavam Lourenção e Vicentão Cavalcante. Vamos até a delegacia, meu pai ordena que coloquem o monstro numa cela vazia. Pede que eu fique olhando, do lado de fora. Ele entra na cela e diz aos dois soldados para trancarem o ferrolho, e que só interfiram se ele “estiver batendo muito ou apanhando muito”. Meu pai aponta o dedo para mim e faz uma pergunta ao gigante. Este faz um gesto de desprezo e parece ter repetido que faria tudo de novo. O que se viu então foi um massacre que durou cerca de dez minutos. Meu pai também era forte — e bateu naquele homem de uma forma que eu só veria mais tarde em filmes de Charles Bronson.

A cela depois foi aberta, e lá ficou o corpo estendido no chão. Meu pai pegou-me pela mão e me levou de volta para casa, em silêncio. Ele estava com a camisa branca rasgada e tinha muito sangue nas mãos. No caminho, ele chorou, e pouco antes de chegarmos em casa, me disse: “Nunca permita que alguém destrua as tuas poesias.” Também me disse que, se não tomasse tal medida drástica, eu poderia ficar traumatizado e com alguma necessidade de vingança pelo resto da vida. Entretanto, eu acho que ele só quis mesmo foi mostrar-me que era mais forte que o gigante. E que ele era meu pai, em todos os sentidos.

Por conta disso, perdeu o cargo de delegado de polícia, sofreu um demorado processo judicial — mas, talvez em compensação, eu me tornei um poeta libertário.




BIOGRAFIA ?

A biografia dele é muito curta. Trabalhou demais — e divertiu-se de menos. Mas há um fato pitoresco. Certa vez um dos meus irmãos, Ricardo, encontrou-o num puteiro chamado Sete Belo, no subúrbio de Campinas. Constrangidos, trocaram olhares inocentes de cumplicidade e cada qual tomou seu rumo. Nunca mais tocaram nesse assunto. Mais tarde, quando soube que ele estava tendo um caso com uma amiga minha, cheguei a lhe dizer, discretamente, que todo grande homem tem amantes. E se não tem, é porque não é...





APOIO EMOCIONAL

Quando meu pai chegou em nossa casa na manhã seguinte à invasão da casa das putas — cujos detalhes contarei logo abaixo — eu estava no armazém, escrevendo num papel de embrulho um poema de amor, mentalmente dedicado a Sonia Maria, e que era assim: “Depois de acender estrelas / no teu céu da boca / depois de vasculhar os teus encantos / depois de ultrapassar os teus limites / acabei concluindo / que só a união / de duas grandes espontaneidades / pode gerar / e manter / por algum tempo / um belo caso de amor”. Em voz alta, meio sonolenta, leu duas ou três vezes esse poema, passou carinhosamente a mão na minha cabeça e antes de ir para o seu quarto rosnou um elogio inesperado: “Bonito, filho! Muito bonito! Escreva mais, escreva mais!”

(Eu só tinha doze anos, e acho que esse elogio dele me levou a ser hoje um amante da liberdade absoluta.)





CONSELHOS

Além daqueles conselhos que ele me dava, alguns acima citados — "Não minta. Não roube. Não fume. Não beba demais. Não se misture com a ralé. Nunca coma de marmita. Não bata cartão de ponto. Não use sapatos velhos. Estude bastante. Respeite muito a tua mãe. Leia dois jornais por dia. Ouça rádio. Respeite tua avó", etc. — havia um outro, quase solene: "Encaminhe os teus irmãos" — pronunciado entre sorrisos e com o dedo falsamente em riste. Acabei seguindo todos esses conselhos. Só os irmãos é que não consegui encaminhar com meu estilo de vida e minha visão do mundo: ficaram todos aboslutamente normais...




CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Quando ele morreu, morreram as circunstâncias carcereiras de si mesmas que eu trazia no meu peito. Embora houvesse ainda um monte de coisas não resolvidas, penduradas num passado que teimava em resistir, foi fatal o tipo de adeus que nos ligou aquele dia. Antigas imagens opressoras se apagaram com o tempo, uma a uma. Tudo que de mal havia foi-se antes, ficando livre o terreno para que pudéssemos talvez amá-lo um pouco. Vivíamos uma suspensão temporária das hostilidades, uma coexistência pacífica, uma espécie de paz armada, com certas escaramuças de vez em quando na fronteira do nosso amor.
As lembranças mais recentes eram brandas, quase delicadas, com exceção da pressa e de algumas ilusões. Claro que foi chocante sua partida, a forma como se deu. Assim como a nossa, a vida dele era um jogo — e o perdeu.

(Quando descasco a cebola da existência meus olhos ardem.)

Mesmo as oito horas que se passaram entre a ciência da sua morte e a visão do cadáver por sobre a mesa não foram suficientes para acalmar meu coração alvoroçado. Embora vencedores, os filhos trazíamos na boca um amargo sabor de derrota iminente: talvez um maior inimigo já estivesse à espreita das crianças que éramos então. Porque imprescindível seria o retorno da mãe que aparentemente pretendia morrer para salvar-se daquela vida.À beira do caixão eu descobri que meu pai passou a ser meu mais recente amor eterno. E declamei para ele, em silêncio, o poema com esse título que criei na hora. Chorando lágrimas secas. Depois eu repito aqui o poema pra você também.

Naquela noite minha mãe arrumou-me a cama em que ele dormia, no quarto que fora meu quando morava lá. Cumprindo ordens de um deus que só ela ouvia, puxou-me pelas mãos quase chorando e me disse, séria — não como mandasse, nem como pedisse:
— Você dorme aqui.
Olhei para o duplo símbolo de morte, vazio que esteve antes de mim, agora bem arrumado e com muito amor pela mulher que passou a ser viúva de si antes mesmo de lhe morrer o marido. Era como se passasse creme nos meus pés rachados... De novo olhei firme para a cama e o lençol de metáforas que a cobria, e aceitei jogar ali por um dia o meu corpo. Mas disse à minha alma assustada:
— Vai-te agora para bem longe daqui!
“Voa, alma, voa rápido — mas volta, por favor, volta buscar-me amanhã de manhã!”
(Ela voltou.)





OS HOMENS FAZEM AS CIRCUNSTÂNCIAS
NA MESMA MEDIDA EM QUE AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM OS HOMENS


Permeando toda essa situação de tempo e de lugar, a desfocada lembrança, imagens que a memória me trazia com insistência. Assim como Abraão, o patriarca do povo judeu que levou seu povo ao Canaã, meu pai também ouvia vozes, e nos levou ao Paraná. O chuvisqueiro enviesado continuava martelando-me as costas com suavidade quando senti sua voz me chamando, baixinho:
— Chegamos...
A fronteira ficara para trás, mas nosso estado continuava precário. Eu não entendia por que era prometida aquela terra. A quem? Essa dúvida me angustiava, talvez porque promessas foram o fundamento daquele meu tempo, um tempo escasso, sem solução, em que nada havia que não fosse provisório. Era sempre um tempo de passagem. Ele vinha em mangas de camisa, xadrez, que a chuva enegrecia e colava-lhe ao corpo. Havia me coberto com seu paletó, aquele mesmo azul-marinho do casamento. De vez em quando, acariciava-me o rosto, com gestos puros que ainda hoje moram no meu peito, inesquecíveis, demorados. Abri um pouco os olhos, vi luzes da cidade brilhando em conta-gotas, um colírio. A botina esquerda apertava-me o pé, ainda nova, quase uma comemoração, um presente prometido quando ajudei na última colheita do feijão das águas.
Levantei-me sobre o braço, encolhido, sentindo cheiro de terra e um pouco de esperança. Meu pai incentivou a marcha do Estrela com o chicote, virou-se para meu lado e, quando nossos olhos se encontraram, tentou profetizar:
— Agora as coisas vão melhorar, se Deus quiser...
Passei a mão torta pela testa, afastando o cabelo escorregado, num gesto de quem não pode acreditar.
— Você vai entrar na escola...
Estrela era o nome do meu cavalo, já dado em promessa a um santo, não sei qual. A charrete era azul, desbotada, velhinha, o nosso meio de transporte. Em cima dela, sonhava com lugares novos - mas tudo era igual.
Embaixo do banco, nossas roupas, poucas, amassadas no saco de farinha, as panelas barulhentas, a espingarda.
E o retrato da mãe, — pensei, — onde estará?...
O chuvisqueiro aumentava lá no fim da estrada sinuosa de Sengés.
— E o retrato da mãe, pai?...
Demorou para me responder, sem olhar-me nos olhos, com voz fraquinha, meio rouca, desanimada:
— Tá no bolso, na carteira...


O vinho é feito de agulhas, meu copo um dedal. Costuro à mão pedaços da infância — com eles faço um lençol. Peço à Lorenna que me cante cantigas de natal da Idade Média, e ouço a Singer rangendo seus pedais no meu CD. Minha mãe também costurava com linhas de cor, pregava remendos bonitos, trocava meus botões, lavava roupas de amor. Vejo até sabão de cinzas no fogo forte que tanto me arde agora no rio do peito, espumas de lembranças incendiadas.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
De tempos em tempos eles me chamavam, e eu “— ahn?”. Depois da terceira pergunta, fiquei esperto. E aí veio a quarta vez:
— Edson?!...
(Silêncio profundo.)
— Edson?! Tá dormindo?...
(Silêncio mais profundo ainda.)
Segurei a respiração, não respondi, abri as orelhas como duas enormes antenas parabólicas, e fiquei aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Meu coração barulhento fazia "tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum". De novo, como certificassem que eu estava mesmo dormindo:
— Edson?!?!...
(Silêncio lunar.)
Então começaram. Em mim um misto de mistério e de ciúmes. Eu tinha sete anos e o sexo me era uma excitante incógnita. Com desesperada curiosidade liguei minhas antenas e fiquei imóvel para que as palhas do colchão não denunciassem a vigília. Duas pessoas faziam amor no escurinho de um rancho de sapé, no sul de um estado que nem mais existe, mas que era o Maranhão — e eu fingia dormir numa caminha bamba de taquara verde, abraçado aos meus delírios.
Naquela noite sonhei muito, tantas coisas que nem lembro. O mistério do sexo era maior que o meu. Para mim o sexo sempre foi fascinante — para mim e para Freud, claro. Na madrugada caí da cama, a única vez que devo ter caído da cama em toda minha vida, exceto aquela outra em Caracas, como já te disse. Caí no chão meio duro de terra batida, envergonhado, ainda que ninguém tenha visto a cena da queda. Trepei na cama de novo, em silêncio. E depois dormi, um pouco angustiado, sentindo-me traído naquela noite perdida no meio do mato, no sul de um estado que nem mais existe.

Já dormi em colchãozinho de palha, com um pau de lenha por baixo, fazendo as vezes de travesseiro. Experiência poética que você não terá jamais. Porque, antes de ser trágica, era poética aquela minha experiência. Não me incomodavam as palhas nem o barulho que faziam quando se roçavam entre si, como se loucas por mim, como se me aplaudissem. Eu era tão pequeno, mas tão pequeno, que aquilo não era uma cama: —era o meu berço.
(Esplêndido!)
Devemos entrar em Freud através de Reich — fico pensando. Um pouco antes eu disse “pedais no meu CD”. Que coisa mais antiga — alguns dirão. Que tal “teclas do meu DVD”? Talvez fonógrafo, toca-discos, ou até radinho de pilha. Mas a língua se enrolaria, e eu quero lubrificar o texto com a sonoridade que as palavras têm. Entrar em Freud através de Reich — e sair dele através de Jung. Primeiro, Luiz e Vitalina; depois, Luiz e Maria. Afinal, Luiz e Iracy. Agora, Eu e Mim. Pouco a pouco, muito a muito, fui chegando.
Cheguei numa sucessão gloriosa de luz, vida, pureza e açúcar.
Então aproveite-me, tente-me, prove-me. Sou filho do que há de melhor — e pai do que nunca virá. De manhã, não fico ruminando o luar que já se foi. Antes do primeiro gole de café, limpo o gostinho madrugante que minha boca possa ainda estar sentindo. Não me atenho a coisas que passaram, não me ligo a cadáveres de nada, o que morre não me encanta, eu me ocupo só do agora.
Jamais serei um desenterrador de defuntos.
Eu amo o agora — Só.
Portanto, “dá-me mais um tempo, Demônio: ainda não caiu o último grão do meu relógio de areia”.





A INVASÃO DA CASA DAS PUTAS

Ainda estou revisando os detalhes históricos desse fato. Refere-se a uma denúncia feita sobre a existência de uma menor entre as mulheres de uma casa respeitável, que ficava na Vila Beca e era chefiada por uma velha prostituta chamada Castorina. Meu pai era então o delegado e fez questão de atender pessoalmente a ocorrência, na própria viatura policial. É uma história cujo desfecho mostra muito bem o homem sábio que ele era.


E tem mais coisas — que contarei depois.




TABUADA

Ele me ensinou tabuada quando eu tinha sete anos. E aos oito me fazia somar as contas do armazém, com trinta linhas de algarismos. Se errasse, levava um croque. Tão íntimo dos números, que apostava sobre quem somaria mais rápido: ele, de cabeça, contra alguém com calculadora. Ele ganhava sempre.




O PAI DO MEU PAI

Anteontem eu fui ao Manicômio de Franco da Rocha procurar meu avô paterno. A ficha dele. Não achei. Ele era um louco delicado que enlouqueceu do lado errado. Dizem que os irmãos o deixaram certo dia jogado numa rua de São Paulo, sozinho, tremendo de frio, para que morresse abandonado e lhes deixasse a sua parte na herança. Conseguiram. Seu nome era Joaquim. Ele não havia suportado a morte do grande amor de sua vida, que caíra de uma laranjeira sobre um toco de cerca. Alienou-se do mundo por causa disso. Partiu-se em dois. Para esquecer Maria, não abraçou a poesia: abraçou a tristeza — e mergulhou no álcool. Esqueceu-se de si mesmo, perdeu a graça, e deprimiu-se fundamente. Por isso eu digo que o coitado enlouqueceu do lado errado...





O AVÔ DO MEU PAI

Meu bisavô, aos sessenta anos de idade, na década de vinte do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente chamada Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O velho Luiz Marques, afogado numa estabilidade massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade. Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos despontando. Então o ousado fazendeiro abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções.

Tudo por causa de Vitalina.

Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor, ele abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado como herança. Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante. Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida. Então o respeitável senhor Luiz Marques tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.

Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho vermelho e contando essas coisas todas pra você. Sou portanto bisneto da rebeldia. Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores. E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício. Só estrelas..




O VELHINHO DO IBITI

Eu tinha cerca de nove anos e cuidava do armazém. Na verdade era um boteco em fase de expansão. Os estoques encostavam no teto, sacarias aos montes, caixas de óleo em latas, açúcar, arroz, macarrão. Desmanchou-se um quarto para se criar mais depósito. A carteira de clientes era grande e o fiado era enorme. Geralmente, anotávamos em cadernetas, que os clientes levavam para casa. Mas também havia o pequeno fiado, o eventual, que anotávamos em vários cadernos. Pois bem. Certa manhã de domingo, antes de sair para o quintal, meu pai comentou comigo que "precisávamos reduzir o fiado". Sim, eu também concordei. E o primeiro cliente que chegou em seguida foi o Velhinho do Ibiti. Eu estava desenhando no papel de embrulho. Ele contou seus trocadinhos, desenrolou suas notinhas de um cruzeiro, e me estendeu sua mão. Naquele tempo não havia moedas, não havia centavos. Nem perguntou quanto devia, ele sabia de cor. Guardei o dinheiro na gaveta do balcão e peguei meu lápis para continuar desenhando. Em silêncio. Mas o velhinho ficou ali, me olhando, e esperando o que sempre levava. Meio quilo de sal – fiado. Que seria pago na semana seguinte, como sempre. Acontece que eu, naquele momento, havia decidido mudar a política financeira da empresa: nada mais fiado... E cometi a maior injustiça social da minha vida. Neguei ao velhinho do Ibiti o seu meio quilinho de sal.

Quando meu pai chegou contei-lhe sobre a minha decisão. Ele apenas sorriu, passou a mão na minha cabeça e pediu-me que fechasse as portas do boteco: sairíamos. Meia hora depois, numa estradinha poeirenta, sacolejando na charrete azul puxada pelo Estrela, tentávamos alcançar o velhinho do Ibiti. Nas minhas mãos, o meio quilo de sal.
Alcançamos.

Nossa conversa na volta foi muito esclarecedora. É provável que tenha sido nessa tarde de domingo que eu me tornei um socialista. E o velhinho do Ibiti continuou tendo crédito semanal para o seu meio quilinho de sal.

O Sr. Luizito – esse era o nome dele – nunca dava aprovações antecipadas nem broncas por agenda. Tínhamos obrigação conhecer-lhe os critérios de verdade, os conceitos sobre as coisas, a filosofia de vida. Era um mestre zen com vara de marmelo. Faça o que você decidir, ele me dizia. "Se bem feito e se correto, tudo bem. Se errado, você apanha". Tudo sem frescura. Simples. Direto. Funcional.

Assim era o meu pai: um bruto com coração.



Eis um poema que escrevi pra ele, em 1989:

MEU TRANSQUERIDO PAI

Por mulheres já me apaixonei duzentas e trinta e quatro vezes de forma profunda. Por homem, é a primeira. O processo desse amor pode ter sido longo, mas a percepção que dele tenho se deu agora, amparada em três ou quatro inocências complementares. Vejo-o deitado de costas, um terno de linho bem passado, azul escuro e sem gravata, olhos fechados, como a pensar nas coisas da vida (...)
Dê um click aqui para ler o texto todo.



POR ACASO MEU PAI TAMBÉM CASOU

Com base na tese que defendo no livro Teoria do Acaso, só somos o que somos porque fomos o que fomos. O destino não passa de uma inegável sucessão de acasos. A liberdade é sempre condicionada pela base material da existência. Se meu bisavô não tivesse raptado sua amada Vitalina em 1920, eu sequer existiria. Se alguém batesse à porta do meu pai minutos antes de ele transar com minha Mãe no dia em que fui gerado, eu também jamais existiria. Isso vale inclusive pra você. E se eu tivesse me casado com o primeiro grande amor da minha vida, certamente não estaria aqui, agora, solteiro — e feliz. Ou talvez meu conceito de felicidade fosse outro, e eu hoje poderia estar mais feliz ainda. Mas, com base nas estatísticas, e se o casamento é mesmo o túmulo do amor, tivesse casado, eu hoje estaria morto — no sentido figurado, ou de verdade, tanto faz. Como se vê, o acúmulo das decisões tomadas por nós determina a situação presente. Nesse sentido, se eu mudasse qualquer das decisões que tomei, por menores que fossem, em qualquer momento anterior da minha vida, nada do que vivi após essa decisão teria acontecido como aconteceu. E hoje eu não seria o que sou. Poderia estar melhor ou pior, não importa. O que realmente importa é que toda decisão é crucial. Portanto, reflita bastante sobre as decisões que você estiver tomando hoje. Elas determinarão o teu futuro, necessariamente. E como mudar o passado não é mais possível, tente mudar o futuro. Se o caminho que você hoje percorre pode desembocar na escuridão, tome providências. Às vezes, na vida da gente, logo ali à frente pode haver uma emboscada. Ou uma porta escancarada para o céu, não se sabe.

Uma nova hipótese

Eu começo a supor que esse Corona Vírus pode ser uma ameaça biológica maior do que eu inicialmente supunha.

Veremos se revisarei, já ou mais tarde, algumas das minhas hipóteses publicadas no site www.SuperCovid19.com.br

Mas a letalidade média real entre os contaminados, a curto prazo, continua, suponho, abaixo de 1% .

Eu incluo a ressalva "a curto prazo", pois não se sabe se ele deixa algum rastro, alguma letalidade potencial no hospedeiro supostamente imunizado.

Vou pensar.


Escrito em 14.05.2020.

13.5.20

Chances de ir pro céu

Não deixe que lhe escapem as grandes oportunidades de se apaixonar. Saiba que no Dia do Juízo Final você terá de prestar contas perante Deus. E terá de confessar quantos amores você amou. E nesse assunto Deus é radical: Quanto mais amores, maior a chance de entrar no Céu.




Eu consegui captar a sinfonia, a maravilhosa Sinfonia do Universo — e sempre danço de acordo com ela. Nem percebo mais esse barulho enorme que dizem que o mundo faz.

12.5.20

Preço de ser livre


A emoção sem controle é um defeito neuro-químico de quem está em vias de sofrer uma derrota.

11.5.20

O Pão da Minha Mãe

O Pão da Minha Mãe

2 copos médios de água morna.

2 colheres de sopa de açúcar União
1 colher de sal Cisne
1 ovo de galinha nova, recém-botado
1 copo de óleo de girassol
1 kg de farinha de trigo argentina
50 g de fermento de padaria boa.

1. Misturar o fermento na água morna, delicadamente. Cinco minutos, mais ou menos.

2. Levar ao liquidificador: o açúcar, o óleo, o sal, o ovo (sem a casca) e a água com o fermento. Tudo muito calmamente, sem pressa.

3. Bater essa mistura por uns dois ou três minutinhos. Sem violência...

4. Colocar a mistura numa bacia grande e acrescentar o trigo aos poucos, misturando com as mãos. A quantidade de trigo será suficiente quando a massa não grudar mais nas tuas mãos. Esse procedimento demora perto de meia hora. Por isso, coloque uma boa música de fundo e vá meditando enquanto amassa.

5. Depois de pronta, deixar a massa quieta, crescendo e suspirando por 1 hora, mais ou menos, coberta com um paninho de algodão.

6. Dividir a massa em partes e enrolar os pãezinhos em tamanhos parecidos ao de uma latinha de refrigerante. É só uma sugestão. Com o tempo, você mesmo vai decidir o tamanho ideal.

7. Colocá-los numa forma grande, dando espaços entre um e outro, porque vão crescer ainda mais. Ou colocar naquelas forminhas individuais, que a Joyce me deu.

8. Deixar crescer novamente por uns 30 ou 40 minutos.

9. Levar ao forno para assar, por meia hora mais ou menos. Dar uma olhada de vez em quando, pois o resultado vai depender da temperatura do forno. Cuidado para não queimar as mãos.

10. Depois de pronto, deixar esfriar um pouco, fazer um café... e convidar os deuses para o banquete.


Obs: Também é possível colocar um pedaço de queijo branco ou de linguiça calabresa (já cozida) dentro de alguns pães, no item 6 acima. Fica uma delícia! Mas isso pode ficar para uma próxima experiência...



O nome dela é Iracy — que em tupi-guarani significa "a Mãe do Mel".



E na manhã ensolarada de 27.08.2019, tomando café no Itararé Hotel, no Sul do Brasil, ao lado da minha Mãe, eu tive a ideia 822, que trata de um Projeto para redução do Bromato de Potássio na fabricação dos pães no Brasil. Dê um click na imagem abaixo e veja detalhes.




E agora, em maio de 2020, já estou na ideia 975, que é a empresa GLSK.

10.5.20

Dia da Mãe


Eis os ingredientes da minha alegria de hoje. O vinagre balsâmico que veio da Itália, o vinho que veio do Chile, o azeite que veio de Portugal, e essa mulher maravilhosa, que veio do Brasil só pra dançar e almoçar comigo...

9.5.20

Se faz Sol

Se a palavra me fere, não sou eu que desmaio — ela que perde o sentido.
Se um verbo me agride, não revido: me esquivo.
Se quebram meu brinquedo, eu conserto.
Se me roubam o carro, compro outro.
Se furam minha bola, tenho mais.
Se acaba o vinho, tomo leite.
Se chove, danço na chuva.
Se faz sol, me bronzeio.


Para mim, tudo é motivo pra viver.
Só se um dia me faltar a Liberdade é que me sentirei morto!

8.5.20

Adoro

Eu adoro fazer tudo aquilo que eu quero, gosto e preciso.

Original de 08.05.2017.

Aprendendo a voar

Quando saltamos em buracos rasos, logo batemos no fundo. Mas, quando saltamos em abismos enormes, antes que o choque aconteça, acabamos aprendendo a voar.

Ou não.

7.5.20

Minhas ideias

Minhas idéias sobre o que é ser feliz quase sempre assustam, eu sei. Mas são apenas os que as compreendem é que ficam espantados com elas. Os demais só as consideram inaplicáveis. E talvez sejam mesmo, pois o mundo ainda não está pronto para o sublime.

6.5.20

Um doce chamado Freud

Certos acontecimentos só são mensuráveis no seu próprio tempo. Nem antes, nem depois. Por exemplo, minha Mãe faz um doce chamado Freud. Leva Maizena, clara de ovos novos, banana caturra, calda de açúcar fino — e traz alegria e lembranças. Uma delícia. Amo essa mulher, tanto, que às vezes fico bêbado de Mãe. De tanto que a tomo nos braços em arco que me embriago dela por mim. E sempre me acordo no interior, mesmo quando viajo para fora. Mas há dias em que me acordo duplamente no interior — como hoje. Estou na casa onde nasci de novo, e sinto cheiro de café. Um galo, índio, de cristas excitadas, canta dentro de mim, bem pertinho, como se cantasse na minha infância. Ouvi tanto esse galo cantar que já lhe sei o co-co-ri de cor...

Uma homenagem também ao Freud, cujo aniversário é hoje.

5.5.20

Sou Eu o Meu Amor

Ontem, no trânsito, dirigindo na avenida da praia, tive um insight: aquele "idiota" que ocupava o meu corpo não era Eu: era um "outro", que ali estava a caminho do trabalho alienado — numa desesperada pausa da própria vida. Estava indo vender o meu tempo para uma pessoa que não tem uma clareza gostosa da vida. Falar de negócios com alguém que nunca deve ter lido um poema de amor é uma penitência. Uma coisa que eu às vezes preciso suportar. Porém, logo mais, à noite, eu voltaria a ser Eu — e viveria como mereço e posso. Encheria uma taça com gelo picado e Absinto, colocaria talvez Jon Bon Jovi a dizer-me It's Just Me, chamaria os meus amores, um por um, e depois entraria delicadamente no Oceano Atlântico que eu tenho no alto da minha casa. E ficaria olhando a nova lua nova por toda a eternidade...

4.5.20

Plantar uma árvore

Plantar uma árvore, ter um filho, e escrever um livro — dizem. Mas depende. Depende da árvore, depende do filho, depende do livro. Depende da semente, depende do pai, depende do escritor; depende do solo, da razão, da inteligência; depende da mãe, depende da chuva, da tabuada, do estilo, e do bom gosto.

Depende sempre:

Um pé de mamão, Jesus, e a Montanha Mágica: magníficos!

Claro que tem árvores lindas, filhos maravilhosos e livros fascinantes... Mas também tem árvore seca, filho babaca, e livro de ponto. Tem plantador que não conhece a terra, tem mãe superprotetora, e escritor que não sabe o que diz. Tem árvore que não vinga, filho que não estuda, livro-caixa. Tem árvore que não dá fruto, nem flor e nem sombra; tem filho que é violento e burro, e tem livro mal escrito...

Tudo depende.

3.5.20

DesMandamentos

DesMandamentos:

1. Ame a Vida sobre todas as coisas.
2. Não obedeça a ordens — exceto àquelas que venham do teu próprio coração.
3. A felicidade está dentro de você. Não a procure em nenhum outro lugar.
4. O amor livre é a mais religiosa das orações.
5. O desapego é a única porta para o Céu.
6. A vida só existe aqui e agora.
7. Não corra: dance.
8. Viva acordado — em todos os sentidos.
9. Pare de buscar: o que é teu já te pertence.
10. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.

2.5.20

Ranchinho deslumbrante

Eu morava numa casa deslumbrante. Tinha até cachoeira na piscina e palmeiras no quintal. Meus amigos ficavam perplexos, e eu lhes dizia:

— Não se impressionem: a casa não é minha.

Depois — ou antes, já nem me lembro — eu morava num ranchinho de sapé lá no sul do Paraná. Ao lado de um riozinho, meia-água, três cômodos, as roupas penduradas em barbantes, chovia dentro, banheiro fora... Meus amigos ficavam perplexos, e eu também lhes dizia:

— Não se impressionem: a casa não é minha.

Hoje, descoberto e sem destino, como um solitário e amoroso cãozinho zen, eu moro à luz da Lua — e continuo dizendo aos meus amigos:

— Não se impressionem: a Lua não é minha.

1.5.20

As razões do trabalho

A razão do trabalho.

Se enquanto trabalho não faço amor;
Se enquanto trabalho não escrevo poesias,
nem vejo a lua, nem tomo sol;
Se enquanto trabalho não crio conceitos;
Se enquanto trabalho não beijo os olhos do meu amor;
Se enquanto trabalho não ando descalço
em areias brancas,
nem ouço as ondas do mar;
Se enquanto trabalho não abraço a minha Mãe;
Se enquanto trabalho não leio Henry Miller;
Se enquanto trabalho não mergulho em minha alma;
Se enquanto trabalho não vejo filmes,
nem respiro o perfume das flores,
nem admiro uma obra de Michelangelo;
Se enquanto trabalho não escalo montanhas,
nem salto no escuro, nem tomo uma taça de vinho;
Se enquanto trabalho não medito, não danço, não ouço música,
nem respiro o sagrado ar da liberdade;
Se enquanto trabalho não sonho, nem pinto,
nem componho, nem desenho,
nem esculpo, nem declamo Lorca ou Neruda;
Se enquanto trabalho nem sequer me lembro
dos vinte poemas de amor
e das canções desesperadas;
Se enquanto trabalho não parto melancias,
nem rezo ao meu Deus;

Se enquanto trabalho não faço nada disso,
então só me resta perguntar:

— O que é que estou fazendo aqui?

Na praia em 03 12 2010

Ninguém tropeça em sua língua ao ler o que eu escrevo. Mas no meio da frase passou por aqui, falando só, um senhor catando lata. Dei-lhe a minha e um sorriso. Não sei quanto lhe vale, se mais a lata ou meu sorriso, mas dei-lhe a minha mesmo assim, como se fosse a minha alma, minha calma, o meu amor.

São 16h09. E a tarde ainda é cedo.

Era o dia 03.12.2010 na praia, em frente à Ilha Porchat.
Dê um click na imagem para ver o texto todo e as outras fotos.

Estabelecendo limites

Que uma pessoa desconhecesse o que fez Bolsonaro ANTES de 2018, como deputado ou como tenente, tudo bem. É compreensível.

Ter votado nele para presidente, como reação política a um certo lamentável estado de coisas, TAMBÉM é compreensível.

Se for o teu caso, e se você NÃO apóia a tortura, se você não for nem nazista nem fascista, eu também te compreendo.

Mas, se, DEPOIS de saber TUDO o que esse sujeito abjeto tem feito nos últimos 16 meses; se DEPOIS de ver a forma vil, arrogante e autoritária com que ele trata as pessoas; se DEPOIS de ficar claro que Bolsonaro não tem a mínima estatura intelectual nem moral para ser presidente da República...

Se DEPOIS de tudo isso, você, politicamente, continua apoiando Bolsonaro, então eu DECLARO, aqui e agora, que não tenho interesse em dialogar com você.

Porque, nesse caso, é bastante provável que eu e você não tenhamos nenhuma afinidade, em termos de concepção de vida e visão do mundo. Portanto, se for este o caso, é melhor que nos separemos.


Mas, se algum dia você MUDAR de ideia, e restaurar a própria razão e o bom senso, pode voltar aqui, e eu te receberei de braços abertos e coração escancarado. Pronto, novamente, para o diálogo cordial e amoroso.





Eu sou de Esquerda.


01.05.2020.



29.4.20

PIB

Partindo da premissa de que turbulências econômicas geralmente causam desemprego em países capitalistas, eu pergunto:

— Do teu atual ponto de vista, quanto de stress e de sofrimento físico e emocional pode causar (a um desempregado e seus dependentes) cada ponto percentual negativo no crescimento do PIB, e quantas mortes pode causar, indiretamente, a médio prazo, esse mesmo fato, em países com injusta distribuição de renda, como, por exemplo, o Brasil?

Viaduto Santa Ifigênia

Viaduto Santa Ifigênia, s/n.

Esta foto eu fiz na noite de 13.03.2016.

Água Benta

Vou lançar a Água Benta.

Esta foto e esta ideia são de julho de 2016.
Ainda não as realizei.

28.4.20

Ato de Justiça

Se, em reparação a um crime ou deslize cometidos eventualmente por maldade, o respectivo ato corretivo de Justiça for racional e elegante, sem violência desnecessária e, em princípio, respeitando a ética e o bom gosto — eu posso considerá-lo plenamente aceitável.

Mesmo que isso, no fundo, possa ser chamado de vingança.

27.4.20

Vitalina e Iracy

Minha bisaVó Vitalina Marques e minha Mãe Iracy Marinho (que nesse dia, aos dezenove anos de idade, já estava grávida de mim).

26.4.20

Nossas ideias

Não basta ter ideias: é preciso saber defendê-las, livremente. E defendê-las, ainda assim, considerando-as sempre passageiras, totalmente questionáveis — e passíveis de serem substituídas, imediatamente, por novas proposições.

É preciso dar velocidade às ideias que temos. Que transitem por nosso cérebro, que ocupem, amorosamente, alguns espaços — e depois os desocupem. Também amorosamente.

Nada deve permanecer demais.

Só o que flui beneficia.

25.4.20

Xadrez

Em fevereiro de 2015 eu tive a minha ideia 450. Um tabuleiro de xadrez tradicional, mas com recursos digitais embarcados. Diferente de tudo o que já existe na área. Perfeição aprimorada. Já preparando detalhes técnicos para documentação visando registro no INPI. Minha pretensão é que seja adotado pela FIDE dentro de dois ou três anos (*), para torneios oficiais.

NOTA: Não foi possível (AINDA) levar essa ideia 450 adiante. Até porque já realizei muitas outras. Muitas. Por exemplo, em 18.08.2019, no Itararé Hotel, eu tive ideia 811, que será a Água Santa de Itararé, produzida nas Fontes Pelisssari. Em 29.02.2020, eu tive a ideia 926, que é um Projeto a ser realizado na Argentina, a partir do próximo mês de julho. E agora, fins de abril de 2020, já estou na ideia 964, que chamo de Jardins Suspensos da Brasilônia.


Só para registro, em 06.10.2019, eu completava 860 ideias e projetos, desde a minha infância e adolescência. E, nos últimos seis meses, já tive mais 104 ideias novas.

24.4.20

Meu conceito de Amor

MEU CONCEITO DE AMOR

Amar é permitir sempre. Amar é deixar que o outro vá – ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa apenas entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas. Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.


Mas, se amar significa "reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas" — como eu sempre digo — será que nessa colocação pode estar implícito que devo aceitar as idéias do outro, todas, mesmo as absurdas, e incorporá-las como se fossem minhas, se ele assim o desejar?
Claro que não.
Isto seria uma violência.
Cada um de nós tem um sistema de valores.
Mesmo que seja em nome do amor, a submissão é um horror.

Portanto, amar não significa aceitar todas as escolhas que o outro fizer, mas sim apenas aquelas que não impliquem uma supressão da nossa liberdade pessoal. Porque falta de liberdade causa uma dor imensa. E se causa dor, não é amor. Portanto, se uma determinada escolha feita pelo outro, que diz me amar, contraditoriamente cerceia minha liberdade, ou violenta minha dignidade, me sufoca ou atormenta — então essa escolha me faz mal, e deve ser rechaçada imediatamente, com determinação. Jamais devemos compactuar com quem nos fere ou nos amputa. Sem essa de beijar o carrasco em nome do amor...

Sem liberdade a vida morre.

Amar de verdade é jamais ter ciúmes, nem medo de perder. Amar é não forçar nada, sequer um beijo. Amar é não fazer perguntas desnecessárias ou indiscretas — muito menos na hora errada. Amar é deixar fluir a relação em todos os sentidos. É incentivar o vôo livre que o outro possa estar querendo, e às vezes até mesmo empurrá-lo com ternura para o abismo gostoso do desconhecido profundo. Amar é respeitar com devoção e aplaudir com entusiasmo esse desejo louco de saltar que o outro às vezes tem. (...)


Eu defendo a tese de que o amor deve ser livre. Se não for livre, chame-o de qualquer outro nome — menos de amor. Aliás, é bom perguntar: se o amor não for livre, como será ele, então? Amor preso? Encarcerado? Acorrentado? Será que alguém, com um mínimo de respeito à vida, pode ser contra o amor livre? Sei que esse é um tema complexo, impossível de ser debatido em meia página de um blog. Mas gosto de supor que sinto-me amado, realmente, quando a pessoa que diz me amar pode olhar-me nos olhos e também dizer, do fundo do coração:

Eu te amo quando não preciso mais dizer te amo.
Eu te amo quando reconheço teu Direito de Fazer Escolhas.
Eu te amo quando respeito tua própria liberdade tanto quanto a minha.
Eu te amo quando compreendo tua vontade de às vezes ficar só.
Eu te amo quando não te sufoco com chiliques ou pressões.
Eu te amo quando ponho afeto entre as nossas distâncias.
Eu te amo quando aplaudo os teus desejos de voar.
Eu te amo quando me convenço de que o ciúme é o câncer do amor.
Eu te amo quando te ajudo a ser mais livre do que eras quando eu te conheci.
Eu te amo quando a recíproca a tudo isso também é verdadeira.





Tem gente que diz que o verdadeiro amor é aquele que dura para sempre. Ora, sendo assim, nunca saberemos se um determinado amor é mesmo verdadeiro, posto que o período de tempo chamado Sempre ainda não chegou — e jamais chegará. Do ponto de vista da Lógica, portanto, esta é uma afirmação tola. Inverificável. Improvável. Logo, tal frase, repetida ingenuamente por papagaios aprendizes, é um ridículo absurdo.

No texto acima eu analiso o Amor do ponto de vista da Lógica. Algumas pessoas podem dizer que o amor "não tem lógica". Compreendo suas razões. Entretanto, o Amor tem lógica, sim. É perfeitamente racional, e necessariamente determinado ao final de uma cadeia de raciocínios. É cerebral — antes de tudo.

Questione tudo

uma chance ao Inesperado e abrace forte a gostosura da Surpresa. Ame a Liberdade, o Amor e a Loucura sobre todas as coisas. Afaste-se das pessoas perigosamente normais. Sonhe só o sonho certo e abandone quem te oprime, agora mesmo. Desmonte as relações totalitárias.

Mas não creia cegamente no que eu digo.

Questione todas as convicções, inclusive as minhas. E questione também as tuas — ainda mais!

23.4.20

General Poeta

Quando eu tinha seis ou sete anos, minha Mãe comentou comigo as palavras da mãe de Picasso, sobre o filho ser padre ou ser soldado. Entretanto, disse-me que não gostaria que eu fosse nem padre nem soldado. E se, por acaso ou por destino, eu seguisse uma dessas carreiras, teria que ser, no mínimo, papa ou general. Mas ela queria mesmo é que eu fosse um poeta. Um artista das palavras doces. Só isso.

Tia Ana

Tia Ana. Certa vez, por quase dois meses, ela repartiu comigo seu próprio quarto, para me ajudar a estudar quando meu pai quase me tirou da escola a fim de transformar-me em dono de restaurante. Eu tinha dez anos. Jamais me esquecerei. Ela, não só por isso, foi muito boa para mim. Ela dizia que, para uma boa convivência, a gente deve sempre compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada pessoa. Por isso, eu agora vou perdoar os três maiores... dela!

Mas, antes, tenho que pensar um pouco, pois só me lembrei de um. Será que ela tinha três? Entretanto, aproveito para te perguntar: no caso dos teus amigos, parentes e amores — você consegue compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada um deles?

22.4.20

Meus irmãos

Nenhum dos meus irmãos me compreende. Primogênito, solteiro e sem filhos, amante do vinho, da dança e da música — além de poeta libertário cheio de amores — pareço-lhes um louco.

Aliás, a partir do momento em que disserem que me compreendem, estarão eles assumindo, implicitamente, que se foderam. E essa conclusão, sob todos os bons pontos de vista, é-lhes desesperadamente incômoda. Porque nossas razões ainda são mutuamente excludentes. Com exceção de dois deles (cujas relações parecem até razoáveis, ainda que sem brilho), todos os meus irmãos se deram mal no casamento.

Todos.

Não dá nem pra disfarçar.

Logo vemos na cara dos coitados: se foderam no grau máximo que a expressão comporta.

Eu vivia lhes dizendo, e o demonstrava com minhas atitudes cotidianas:

— Não confundam uma transa eventual com a constituição de uma família. Não pensem que toda relação tem, necessariamente, que gerar uma fruta. Não se fodam em nome de nada, nem mesmo do amor. As relações são passageiras. Tudo se transforma. Não existe amor eterno...

Eu vivia lhes dizendo tudo isso — por anos e anos a fio — mas eles fizeram questão de não me ouvir.

www.EdmaLux.com

Caixa de metáforas

Quando levei meu fogo aos Céus, já sabia de antemão que haveria generosa recompensa. Zeus, em sua infinita bondade, mandou-me ontem, numa carruagem de luz, uma enorme caixa de presentes. De dentro dela sai, antes de tudo, o arquétipo da mulher inconquistável, já Vera e já dizendo:

— Prometeu, venho te ajudar no deslinde das metáforas, uma vez que é a solene forma de me representar para você. O Ballantines é o espaço provisório de abandono à lucidez impertinente. A caixinha de marfim é a minha, original, só que vazia, pois a esperança é perigosa e já voou. A borboleta azul, sabonete perfumado, espumas, Afrodite, remete ao seu post que amei dias atrás. A canequinha de prata, dançarina num pires mitológico, é a infância: desejo de salvar a criança em seu papel de menino Zeus na minha história — bem desempenhado. A peça do jogo de xadrez, é um cavalo em pedra-sabão, cheque mate (vivo e suado) de intensa concentração no galopante jogo-dança da vida. Os chocolates indianos, afetos meditativos. E Etta James, dizendo I'd rather go blind (prefiro ficar cega), cantando com força e voz cênica vinda do fundo edipiano da alma.

— E as conchinhas? — resolvo perguntar.

— As conchinhas, meu querido, as cinco conchinhas são as mais importantes nesta caixa que te entrego. Mas seu significado fica por tua conta, porque nunca entrego tudo de mão beijada. Você é perspicaz, pensa muito e sempre antes. Então, aumente as duas doses de Ballantines nesta noite semiótica, e decifre o que faltar. "O álcool nos torna lúcidos", lembre-se. Aliás, esta é a questão primordial de todas as metáforas.

Ela fala tudo isso e se vai. Então, só me resta ficar aqui, pensando, inundado de Pandora, de luar, de Vera e gostosura. E bêbado de mim.



Zeus mandou-me a Caixa por Sedex, e Vera, mentalmente, me ditou os dois parágrafos em itálico.
Tudo que aqui escrevo é baseado em fatos reais.

21.4.20

Algumas frases

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.
212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.



Frases do meu livro Oitocentas frases de Edson Marques.

20.4.20

Sou Eu

Sou o autor da minha peça e o próprio personagem. Sou a dança e o bailarino, a música, o regente, o compositor. A ternura mais vermelha e delicada, o lóbulo da orelha do meu amor. O beijo e o orgasmo, a delícia e o licor; o êxtase e todas as auroras que ainda vão chegar. Sou o céu estrelado, a língua do horizonte — e mais além.

Sou o sagrado e o profano, o profundo e o supérfluo, a origem da tragédia, o brilho e o pó. Sou mínimo e tanto, sou pouco e princípio, paixão, excesso e glória. Sou infinito no teu entusiasmo, e a penúltima labareda de uma espécie de fogo em extinção. Sou eterno relâmpago, amor: passageiro.

Uma gotinha de chuva, um pingo de mel, uma pétala de estrela.

Sou eu: minha flor.

Elegância Racional

Tudo que eu digo é dito sempre a partir do MEU ponto de vista. Isto deveria ser óbvio. Portanto, se eu disser algo com o que você não concorde, não é preciso nem necessário brigar comigo. Mas, se você, eventualmente, concluir que é preciso mesmo brigar, procure brigar apenas contra esse meu específico ponto de vista, com o qual você, no fundo, supõe não ter concordado.

Contudo, mesmo assim, e se possível, brigue de modo elegante. Manifeste as discordâncias com finesse. Com civilidade.

Se adotarmos esse critério racional e refinado de manifestar eventuais discordâncias entre nós (conceituais, filosóficas, amorosas, comerciais ou políticas, tanto faz), é bem provável que as nossas relações de amor ou de amizade jamais venham a sofrer abalos fortes por conta disso.

Então, ANTES da tua próxima briga — contra quem quer que seja — procure considerar, friamente, o que eu estou propondo acima.

Guten Morgen!

19.4.20

Recomendações

RECOMENDAÇÕES DO MEU PAI


Além das suas recomendações sobre sempre respeitar a propriedade alheia — e nunca usar sapatos velhos — há outras dele das quais agora me lembro:



1. Respeite a tua Mãe.

2. Não carregue pacotes.
3. Não economize na comida.
4. Seja dono do teu próprio negócio.
5. Beba pouco.
6. Estude bastante.
7. Não fume.
8. Não transe com as empregadas.
9. Não minta — exceto se for para salvar a vida.



Quando morreu, trazia no bolso, na carteira de couro marrom, uma carta, dobradinha, meio amarelada e com sinais evidentes de muitas leituras. Não sei onde pode estar o original. Talvez tenha tido o mesmo destino daquelas fotos que os doentes rasgaram. Felizmente a memória não se perde. Não é possível rasgar uma lembrança, destruir um símbolo, esconder um coração. Manifestações de amor, como essa do meu pai ao carregar minha carta consigo — até no dia da sua própria morte —, não se apagam. É uma honra para mim.





Hoje é aniversário dele.

18.4.20

Luiz iluminado

Hoje eu quero homenagear meu Pai. O nome dele era Luizito, e já escrevi algumas coisas sobre ele. Porém, o que ainda não disse (mas considero importante) é que ele era um aventureiro. Por exemplo: aos 29 anos de idade, ele já era dono de um pequeno armazém de grande sucesso, tinha uma casa própria com quatro quartos num terreno de 1.200 m2 na rua principal da cidade. Tudo na mais perfeita ordem. Então, inspirado por um Deus cuja voz só ele ouvia, largou tudo, fechou o armazém e a casa, e foi morar num ranchinho de sapé numa fazenda perdida, perto de Sengés, no Paraná. "Uma loucura" — diziam todos, sem compreender o que realmente se passava na cabeça dele. Acontece que eu, hoje, depois de conhecer Jesus, Osho e Nietzsche, compreendo esse gesto zen, esse maravilhoso gesto zen do meu Pai.

E, num caminhão azul de mudanças, um fenemê do Capilé, lá se foi ele, com a esperança, a Iracy e os filhos — menos eu, que entraria na escola dois ou três meses depois. Não me senti abandonado; ao contrário: escolhido. Segundo ele, eu precisava estudar.

E eu estudei. E estudo até hoje.




Amanhã, 19 de Abril, é aniversário dele.

17.4.20

Jardim que falo

Eu modifico perfumes e delícias em palavras e velas — e planto meu verbo num jardim que fala. Há um canteiro de ternuras e de flores no meu corpo ensolarado. Por isso é que eu transformo em arrepios de amor o que me pede a Natureza a todo instante.

16.4.20

Já estamos em Abril

JÁ ESTAMOS EM ABRIL. E você continua aí, do mesmo jeito, andando pelas mesmas ruas, girando as mesmas chaves para abrir as mesmas portas? Sentado nas mesmas cadeiras, ao lado das mesmas mesas, fazendo sempre as mesmas coisas? Com os mesmos amigos, os mesmos amores, a mesma visão do mundo? Com os mesmos medos e preconceitos? Abraçando as mesmas pessoas, tocando os mesmos corpos, com o mesmo jeito, os mesmos toques, e o mesmo estilo? A mesma instável estabilidade? Repetindo a mesma angustiante rotina? Onde está aquele maravilhoso projeto de Vida?!
Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar? Onde aquele entusiasmo e aquela ousadia de outrora? Onde aquela gostosura tão buscada? Onde estão aqueles sonhos todos?

15.4.20

Meu caixão

Meu caixão vai ter gavetas. Serei enterrado com todos os meus tesouros. Todos esses bilhetinhos de amor que recebo irão comigo. A toalhinha de crochê que a minha Mãe me deu, e a bonequinha de cetim que a Joyce um dia me fez. Essas lembrancinhas todas que os meus amores foram me dando desde a minha infância. Esses bibelôs maravilhosos que me foram deixando aqui na sala. As fotografias, os papeis de bala, os guardanapos com poesias, as pétalas de rosas que secaram entre páginas de livros... Essas coisinhas todas eu as levarei comigo. Serão 120 gavetinhas no meu caixão — uma para cada ano da minha existência.