20.1.20

Pobreza

Passei vários anos tentando alcançar a pobreza. Acabo de concluir que não consigo. Desisto.

19.1.20

Quando o bom faz mal

Um grande amor ou um bom emprego acabam complicando muito a vida de quem os consegue logo no início. Porque você vai ficar se agarrando a eles pro resto da vida — e perde a chance de conseguir outros iguais, ou até melhores. Perde a chance de vivenciar outras experiências, provavelmente maravilhosas. Mas, o que é pior: essa aparente estabilidade inicial te enche de medo. Medo de perder. Medo de não ser capaz de crescer, nem de superar uma perda. Então, só te resta encolher-se no teu próprio coração medroso e bobo, abraçado a um bom salário — ou deitadinho no colo desse amor minguante...

18.1.20

Olimpo

Tenho vontade de reunir esses deliciosos loucos e loucas, esses santos e santas que eu amo e amei, essas deusas e musas que já conheci e outras que ainda vou conhecer, convidá-los a subir num barco, enorme — um navio, transatlântico — levá-los todos para uma ilha luminosa, deserta e grega, e viver com eles para o resto das nossas vidas. Em liberdade absoluta. Falando todas as línguas, amando de todas as formas livres, bebendo de todos os vinhos, rezando a todos os deuses... A vida será uma festa interminável! Viveremos dançando todas as danças, ouvindo todas as músicas, escrevendo belíssimas poesias de amor, plantando flores e colhendo estrelas, tomando sol, sorrindo e gargalhando. E transando com a própria Vida — todo dia, o dia todo.

Questione tudo

uma chance ao Inesperado e abrace forte a gostosura da Surpresa. Ame a Liberdade, o Amor e a Loucura sobre todas as coisas. Afaste-se das pessoas perigosamente normais. Sonhe só o sonho certo e abandone quem te oprime, agora mesmo. Desmonte as relações totalitárias.

Mas não creia cegamente no que eu digo.

Questione todas as convicções, inclusive as minhas. E questione também as tuas — ainda mais!

16.1.20

Nota de falecimento

"O poeta sofreu um acidente na descida da Serra, pela Imigrantes. O corpo está sendo velado no Velório Municipal do Guarujá. O enterro será hoje às 17h no Cemitério da Consolação, em São Paulo. A família enlutada agradece as manifestações de pesar."



Desfaça-se o engano sobre a "notícia" da minha suposta morte — que afinal revela-se falsa. Felizmente! Felizmente para mim, pelo menos... Foi brincadeira de um grande amigo meu (talvez o maior), a quem pedi para publicar um texto aqui no blog, pois eu estaria longe da internet por dois ou três dias. Sugeri que ele pegasse um parágrafo qualquer do meu livro Lógica para Crianças (que será logo mais publicado pela Pandabooks). E ele fez exatamente o que eu pedi! Apenas alterou "teu pai" por "o poeta". /// Em respeito aos leitores que, por causa do texto acima, foram levados a pensar que eu havia morrido, vamos a algumas explicações:

Nesse meu livro citado, eu procuro ensinar às crianças que jamais respondam a perguntas mal formuladas. O livro quase todo é um diálogo entre um pai e seu filho adotivo (nessa fase com seis anos), em situações da vida cotidiana. Na página 144, logo após a criança ter respondido (corretamente) à pergunta sobre a quantos graus a água ferve ("depende o grau e depende onde"), e enquanto o pai explica (em espanhol) as funções da Rainha no jogo de xadrez (porque assim a criança aprende a língua enquanto aprende o jogo), o pai resolve fazer-lhe (em português) uma pergunta sobre Lógica:
— Filho, se te disserem hoje à tarde que teu pai sofreu um acidente na descida da Serra, o que você vai pensar?
— Eu primeiro vou perguntar se foi um acidente fatal, ou se só quebrou o para-choque ou a roda do carro...
— E depois?
— Depois eu vou perguntar se foi meu pai biológico ou se foi você...
Vejam que resposta genial essa criança deu!
E o diálogo continua.
— E se você, no intervalo das aulas, recebe um bilhete da professora com um texto assim:
"Teu pai sofreu um acidente na descida da Serra, pela Imigrantes. O corpo está sendo velado no Velório Municipal do Guarujá. O enterro será hoje às 17h no Cemitério da Consolação, em São Paulo. A família enlutada agradece as manifestações de pesar."?
— O que significa "enlutada"?
Depois que o pai explica o significado do termo ainda desconhecido, a criança continua:
— Se o acidente não foi fatal, o corpo no cemitério não é você...
— E se o acidente foi fatal?
— Ah... Daí eu acho que vou chorar...

Então eu dou um beijo na testinha dele, e ele me dá um xeque-mate!

Claro que eu deixei ele vencer... Afinal, eu quero que ele seja um vencedor.
Estou escrevendo esta ressalva na madrugada de 15 e na manhã de 16.01.2013. E revisando em 16.01.2020.

14.1.20

Tia Ana

Tia Ana. Certa vez, por quase dois meses, ela repartiu comigo seu próprio quarto, para me ajudar a estudar quando meu pai quase me tirou da escola a fim de transformar-me em dono de restaurante. Eu tinha dez anos. Jamais me esquecerei. Ela, não só por isso, foi muito boa para mim. Ela dizia que, para uma boa convivência, a gente deve sempre compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada pessoa. Por isso, eu agora vou perdoar os três maiores... dela!

Mas, antes, tenho que pensar um pouco, pois só me lembrei de um. Será que ela tinha três? Acho que sim. Entretanto, aproveito para te perguntar: no caso dos teus amigos, parentes e amores — você consegue compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada um deles?

Pássaro surpreso

Há dias em que é preciso que eu te perca inteiramente. É preciso que eu siga o que me pede o coração apaixonado — e o que suplica um novo grande amor aos pés da nova cama. Tua imagem, minha flor, fumaça escandalosa desprendida de si mesma, some em meio à volúpia da minha próxima lembrança. Então, te esqueço — carinhosamente. Mas, de repente, num voo alado de pássaro surpreso, entro em mim pra te buscar. Se te encontro, a busca me alucina intensamente, e se me encanto, ao contrário, é meu verbo que engravida o teu espanto.

13.1.20

Minha ideia 899

Ontem eu tive a minha ideia 899.

Minha reta Vida curva

Toda minha vida é uma curva deliciosa, mas também um risco só. A gostosura da surpresa é o que me encanta de verdade. Meu coração pulsa sempre em nome da alegria. Tenho noventa mil quilômetros de vasos sanguíneos, repletos de flores, amores, estrelas. Sou movido a emoções. Eu vivo saltando profundo. Toda hora, todo primeiro, todo segundo...

Minha reta vida é curva. Sinuosa. Insinuante.

12.1.20

Marasmo

Você não acha que faltam grandes emoções na tua vida? Não seria bom se acontecesse, ainda hoje, alguma coisa gloriosa, diferente, só pra sacudir esse marasmo?

Deslouco

Eu só me movimento, eu só me desloco no espaço, se o caminho for muito interessante, ou se o ponto de chegada for bem melhor que o ponto de partida.

11.1.20

Kyrie Eleison

Hoje acordei de manhã, esparramado na sala depois de ver o começo de um filme, e havia uma mulher me acariciando, emoldurada, pertinho do meio copo de vinho vermelho caído no chão que esqueci de tomar, entusiasmada, segurando uma bacia de girassóis. Essa mulher, que nunca vi triste, que incentivou sempre todos os meus amores, me inspira suspirando, me aceita como sou — e me diz, toda hora, que o verdadeiro amor é a união de duas espontaneidades, a fusão desgovernada de dois devaneios. Me ama, eu sei, mas antes de me amar, sei que ama o infinito absoluto onde eu danço as minhas próprias escolhas profundas. Desde que nasci, essa mulher me alimenta de leite, amor, vitaminas, desapego, feijão, arroz e liberdade. Achava melhor ensinar-me a ser homem do que pregar-me um botão. Toda noite me contava histórias pra que eu não dormisse. Cantava o Kyrie Eleison como se fosse uma canção de ninar pelo avesso. Jamais quebrou as lanças da minha ousadia, nem pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ainda me ampara com firmeza, sustenta-me a alma e me aplaude as loucuras. Nunca brigamos. Mil quilômetros nos unem hoje, mas sei que ela me ama da única forma que uma mãe ama seu filho: incondicionalmente. A recíproca também é verdadeira.

Então dou um beijo na boca da foto, me viro de lado e volto a ver Kurosawa. Quero sonhar com Van Gogh de novo. E, porque sou produto escandaloso de uma deliciosa mitologia grega, sonharei com Freud. E com Lacan também, naturalmente.

Hoje, 11.01.2020, faz quatro anos que minha Mãe sonha comigo, sem pular um dia sequer.

10.1.20

Catedral da Sé


Estive ontem na Catedral da Sé. Fotografando. Filosofando. E tomando Drambuie.

9.1.20

Marcapassos


Meu coração jamais terá marcapassos.

Ele já tem marca-saltos,
marca-dança, marca-voo!


O poeta usa metáforas, o filósofo faz ciência. O poeta diz que seu louco coração jamais terá marcapassos, mas o filósofo sabe que todo coração tem que ter um. O marcapassos é um dos nossos guias pela vida. Muita gente não sabe, mas todos nós temos um marcapassos natural. Chama-se nódulo sinusal (*). É quando este não funciona bem que pomos o outro — artificial.

(*) Também chamado de nódulo sinoauricular, nó sinusal, Nó sinoatrial, nodo sinoatrial (NSA) ou Nódulo de Keith e Flack, é uma estrutura anatômica do coração que faz parte do sistema cardionector, responsável pela função de marcar o passo natural, ou seja, produz seu próprio potencial de ação, que é o estímulo elétrico. É a estrutura cardíaca com a maior frequência de despolarização, ou seja, com maior automatismo.

8.1.20

Nasci para Viver

Eu já nasci entusiasmado pela Vida. Já nasci fazendo amor. Mas também nasci para contestar as regras bobas e saltar profundo. Para escrever poemas libertários e dançar com Deus. Para tomar o vinho consagrado e mastigar a hóstia. Nasci para provocar os acomodados. Para compreender os incompreendidos. Para fazer escândalos poéticos e cobrir de gostosura os anseios do teu peito.

Eu nasci para tocar teu delicado coração.

Nasci para ser Livre.

Nasci para ser Meu.

Desde aquela madrugada solitária em que a Mãe do Mel me deu a Luz numa casinha de madeira, ao lado de uma roseira branca, minha alma transformou-se no meu corpo — e vive em festa.

Por isso é que nunca vou trair a minha própria Natureza.

7.1.20

Meu Vô Joaquim

Anteontem eu fui ao Manicômio de Franco da Rocha procurar meu avô paterno. A ficha dele. Um cadastro antigo, alguém que dele se lembrasse — qualquer coisa. Não achei. Ele era um louco delicado que enlouqueceu do lado errado. Dizem que os irmãos o deixaram certo dia jogado numa rua de São Paulo, sozinho, tremendo de frio, para que morresse abandonado e lhes deixasse a sua parte na herança. Conseguiram. Seu nome era Joaquim. Ele não havia suportado a morte do grande amor de sua vida, que caíra de uma laranjeira sobre um toco de cerca. Alienou-se do mundo por causa disso. Partiu-se em dois. Para esquecer Maria, não abraçou a poesia: abraçou a tristeza — e mergulhou no álcool. Esqueceu-se de si mesmo, perdeu a graça, e deprimiu-se fundamente. Por isso eu digo que o coitado enlouqueceu do lado errado...

Texto escrito originalmente em julho de 1989.

6.1.20

Pés no chão

Procuro viver sempre com os pés no chão — desde que o chão esteja no Pico.

5.1.20

Algumas frases

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.
212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.

3.1.20

Amor Livre



Amar é permitir sempre. Amar é deixar que o outro vá – ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa apenas entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas.

Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.

2.1.20

Aniversário da Mãe

Hoje é Aniversário da minha Mãe. Por isso, eu sigo só o sinal que não aponta, e que partiu de dentro do meu próprio coração. Estou aqui, nesta ensolarada conjunção de fatores, escrevendo, olhando nuvens de sorvete no céu de Itararé, ouvindo corruíras, pardais e bem-te-vis, uma algazarra de sons por sobre mim. Tomando café com amor, e pensando nessa mulher que me gerou, Iracy. Saudades me cobrem os olhos. Ela sabe fazer pão recheado com queijo branco. Ela mesma escolhe o trigo, prepara a massa com a magia das próprias mãos. Ainda de madrugada, ela fica fazendo o pão e cantando baixinho, como se fosse um mantra.

Agora mesmo um tiziuzinho pousou ali no canto do terraço e ficou me olhando, cantou três vezes e foi-se embora. Mas deu tempo de dizer-lhe que vá contar à minha Mãe, agora mesmo, que estou aqui, pensando nela. Você sabia que o tiziu sempre salta quando canta? Se não me engano, se for preto é macho e se for esverdeadinho é fêmea. Lindo pássaro. Canta saltitando. E fico pensando: Será que o salto precede o canto, ou será que o canto precede o salto? Não sei... Só sei, Mãe, é que o pão que me alimenta é um produto do teu trigo.

1.1.20

O universo é um Todo

O Universo é um Todo. Enquanto você não considerar o Universo como um Todo — não será feliz de modo algum. Porque é impossível ser feliz manipulando partes do Todo, como se fossem totalidades minúsculas. Você vê a árvore e não vê a floresta. Vê o pássaro voando — mas não vê o voo. Você vai à igreja e se porta diferentemente do que numa loja. Gerencia tua empresa de modo diferente do que gerencia a tua casa. Dá um beijo em tua mãe e dá um coice no empregado. Trata o cliente com respeito absoluto, mas trata a garçonete com o máximo desprezo. Toma hóstia como fosse diferente de um torresmo. Toma vinho com culpa e leite com louvor. Tá tudo errado! O Universo é um Todo. Jesus já dizia isso. Jesus, Buda, Sócrates, Diógenes, Confúcio, etc. Mas você não acredita neles. Você acha que sabe mais do que eles. Esses mestres disseram que você tem que primeiro ser feliz para só depois fazer as outras coisas. Mas você inverte tudo. Você quer primeiro fazer as outras coisas — para ser feliz só depois. Não vai dar tempo.

2020 - Que delícia!


31.12.19

Apaixone-se

Apaixone-se. Apaixone-se muito. Muito e sempre. Profundamente. Todos os dias. Apaixone-se por uma montanha de coisas gostosas, ao mesmo tempo. Por muitas e muitas pessoas interessantes e amorosas — simultaneamente. Porque assim, se um dia você perder algumas, suspender ou cancelar a paixão por qualquer delas, não te preencherá o peito aquele indefinido e estranho sentimento chamado Solidão — que os poetas adoram, mas você não suporta...

30.12.19

Eu preciso

Eu detesto relações ordinárias. O que é comum tem um poder impressionante de jamais me impressionar. Eu preciso é de êxtase. Eu preciso de alegria, de sonhos, de encantos profundos. Eu preciso de companhias brilhantes. De pessoas que vibrem a todo momento, como se a todo momento fizessem amor. Como se aqui fosse o céu... Porque aqui é o Céu.

29.12.19

Meia de Seda

Quando eu era mais piquinininho, minha Mãe às vezes fazia Meia de Seda, aquela bebida deliciosa, com gostinho de licor de chocolate e amendoim, e que, por ser meio proibida, a gente só podia tomar um copinho. Pois, é: hoje, aqui nesta tarde ensolarada da cidade onde estou, eu fiz Meia de Seda... Com licor de cacau, gin (também pode ser vodka ou champagne!), leite condensado, creme de leite e paçoquinha (não tinha creme de amendoim nem bombom Sonho de Valsa). Um litro! E agora estou tomando, tudo, deliciosamente, sem pressa, sozinho, meio bêbado, de mãos dadas com esse maravilhoso Crepúsculo argentino, escrevendo mais um capítulo do meu livro Teoria do Acaso — e me lembrando de minha Mãe...

Não é isto a felicidade?!

Todos os prazeres

Todos os prazeres que tenho vivido nos últimos anos se devem ao meu irrestrito Amor pela Liberdade. Se devem à minha vontade absoluta de ser livre, e à extrema capacidade que tenho de satisfazê-la. Contudo, se eu não tivesse reagido a tempo, com vigorosa determinação, hoje provavelmente estaria casado com aquela tonta que me queria escravo. Ou estaria morto — o que é quase a mesma coisa. Queria, aquela infeliz, colocar grades no meu crepúsculo, e abri-las só quando ele fosse berrante, se a cor fosse correta, e se tivesse plumagem. Caso contrário, a chave da prisão continuaria em seu poder, pendurada numa correntinha de ouro, no pescoço da desgraçada. Ela dizia me amar, mas queria mesmo era ser a minha dona. Naquilo que nós dois concordávamos, ela dizia que eu estava cem por cento certo. E naquilo que discordávamos, ela garantia que eu estava cem por cento errado! Como se vê, ela não tinha o menor respeito, nem por mim — nem pela Lei das Probabilidades.

Essa pessoa a que me refiro no texto acima é uma personagem do meu livro Solidão a Mil — mas pode ser real também. Existem pessoas assim. No fundo, são autoritários que se cobrem com um manto grosseiro de justificativas absurdas: dizem que têm "personalidade forte"... Ora, quem tem personalidade forte, mesmo, nunca reage dessa forma autoritária. Quem tem personalidade forte, realmente, aceita argumentos eventualmente contrários, e se dispõe a discuti-los. Aliás, aceita até mesmo questionar os próprios. Em nome da Lógica, do bom senso — e da elegância.

27.12.19

Eu respeito meus amores

Eu respeito sempre os meus amores. Assim mesmo: no plural. Tenho muitos. Sempre os tive. E sempre os terei. Mas, quando eu digo "respeitar os meus amores", às vezes refiro-me às pessoas que eu amo, outras vezes aos sentimentos que eu produzo, coisas que eu sinto. Portanto, respeitar os amores tanto pode significar respeitar as vontades (desejos, critérios, conceitos) de pessoas que eu amo (e que suponho também me amem), quanto seguir livremente as paixões (desejos, critérios, loucuras) que eu trago no meu próprio peito.

Dito de outra forma: respeitar os meus amores é seguir meu coração.

26.12.19

Esta noite em Buenos Aires

Eis agora uma garrafa de vinho pela metade, uma rosa vermelha ansiosa por mim, três ou quatro velas azuis em castiçais de bronze espalhados pela sala, uma penumbra gostosa onde sombras delicadas dançam por si mesmas, o som de Caminito crescendo em todos os sentidos no meu peito apaixonado, uma brisa noturna e argentina entrando pelas portas e janelas. Mistérios no ar, desejos, também. Às vezes, silêncio: e o Caminito retorna, quase perfeito.

O céu de Buenos Aires acaba de ficar um pouquinho mais azul.

24.12.19

Feliz Natal

O presente de Natal que eu quero te dar
não pode ser comprado:
Não tem nas lojas, nos mercados, nas feirinhas, nos balcões.
Não é feito de plástico, não é eletrônico, nem precisa de manual.
O presente de Natal que eu quero te dar
já está dentro do teu próprio coração.

Basta que você agora o desperte para a vida:
É o amor pela liberdade absoluta.
É a admiração extrema pela Arte de Viver.
A defesa inabalável da ideia de justiça, de verdade e de prazer.
A coragem de sonhar transformações.
A busca cotidiana por tudo que é sublime,
e o doce desejo de sugar o açúcar de todas as coisas.
Feliz Natal !

22.12.19

2019 - O melhor ano da minha vida

2019. Este é o melhor ano da minha vida. Mas não aconteceu por acaso. Foi preciso eu tomar uma atitude radical. E eu tomei. Foi preciso dar um pontapé nas circunstâncias opressoras que teimavam em prender-me. E eu dei. Foi preciso ser preciso. E eu fui. Foi preciso saltar profundo. E eu saltei. Então, acabo agora me lembrando de um poema que escrevi no Manual da Separação. Está na página 192. É este:

Se não for agora, quando?

Tem hora de parar — e tem hora de partir,
tem hora de permanecer quieto e calado num canto,
e tem hora de cantar e de voar.
Agora,
agora não é hora de dobrar as asas,
nem de calar a voz,
nem de catar gravetos para fazer o ninho.
Agora não é hora de sentir remorsos,
nem de buscar consolo, nem de caiar o túmulo.

Agora que estou na beirada,
bêbado de alegria — pronto para o salto,
não me segure em nome de nada.
Não queira impedir-me dizendo que é muito cedo,
ou que é muito tarde,
ou que está escuro, é perigoso, muito alto,
muito fundo, muito longe...

Não!

Se você não puder incentivar-me para o salto,
ou até mesmo empurrar-me com amor em direção à Vida,
não me prenda, não me amarre.
Não envenene com teu medo a minha dança.
Seja só uma testemunha silenciosa desta vertigem.
Porque agora,
agora é hora de voar.
Agora é hora de abrir-me a todas as possibilidades.

E voar um voo livre e sem destino para dentro de mim mesmo!

21.12.19

Somos racionais

Nós não somos realmente racionais. Quando temos um problema, o que sempre fazemos, sorrateiramente, é pedir à nossa própria Razão que dê um jeitinho de chegar a uma conclusão que nos agrade.

E ela sempre chega.

🔵🔴🔵

Essa ideia é minha e de Kant, entre outros.

18.12.19

Quais são os teus sonhos?

ALGUMAS PERGUNTAS

Quantas vezes você hoje meditou sobre a Vida?
Quantos minutos você hoje caminhou livremente?
Quanto tempo hoje você acariciou um corpo humano?
Quais os alimentos saudáveis que você vai comer?
Tem seguido o que te pede o teu próprio coração?
Quanta gostosura existe nos teus atuais relacionamentos?
Quais são as coisas novas que você aprendeu hoje?
Quantas pessoas você hoje abraçou de verdade?
Quantos livros você está lendo?
Quando foi o teu último grande êxtase?

Quantas vezes hoje você pensou no Amor?
Quantas vezes você hoje abençoou uma criança?
Quanto de prazer e de alegria o teu trabalho proporciona?
Hoje, quais as coisas maravilhosas que você vai criar?
Como vai a liberdade dos teus amores?
Terá tempo de contemplar a lua e as estrelas?
Tem olhado os pássaros do céu e os lírios do campo?
Como anda o teu Planejamento Estratégico Pessoal?
Quantos anos você supõe que ainda vai viver?
Como vai a tua própria Liberdade?
Quais são os teus Sonhos?
O que é que você quer da Vida?

12.12.19

Memória

A memória de um Amor brilhante é melhor do que o risco de vê-lo morto, estrebuchando no meio da relação. Portanto, respeitem o seu próprio coração: Separem-se no pico!

7.12.19

Fim do Ano

JÁ ESTAMOS NO FIM DO ANO. E você continua aí, do mesmo jeito, andando pelas mesmas ruas, girando as mesmas chaves para abrir as mesmas portas? Sentado nas mesmas cadeiras, ao lado das mesmas mesas, fazendo sempre as mesmas coisas? Com os mesmos amigos, os mesmos amores, a mesma visão do mundo? Com os mesmos medos e preconceitos? Abraçando as mesmas pessoas, tocando os mesmos corpos, com o mesmo jeito, os mesmos toques, e o mesmo estilo? A mesma instável estabilidade? Repetindo a mesma angustiante rotina?

Onde está aquele maravilhoso projeto de Vida?!

Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar? Onde aquele entusiasmo e aquela ousadia de outrora? Onde aquela gostosura tão buscada? Onde estão aqueles sonhos todos?

5.12.19

Pensem

Eu quero que vocês pensem, mas vocês parecem desperdiçar as possibilidades de reflexão séria que lhes proponho. Vocês acham que estou apenas brincando quando levanto estas questões, quase sempre de forma bem-humorada. Quando eu lhes digo para que reflitam seriamente sobre as coisas mais importantes da sua vida — que são o Amor e a Liberdade — vocês acham que estou ficando louco. Vocês riem de mim... Dizem que os meus livros não prestam e que eu nem sou deste mundo. Acham até que inventei essa história da Vó Vitalina, do Paritosh Keval e Filosofia na USP. Mas eu não desisto! E todo dia, assim que me levanto, eu me acordo pela segunda vez. Depois, tomo um café com Deus, coloco a mão no ombro Dele, e lhe digo:
— Pai, essas pessoas não sabem o que dizem nem o que fazem... Perderam a consciência, mataram a Lógica e vivem dormindo. Perdoe essas pobres criaturas...
E acorde-as, por Amor!

3.12.19

Micro separações

Nos relacionamentos "amorosos" tradicionais, monogâmicos, fechados, as pequenas brigas (com mais ou menos intensidade, com mais ou menos frequência) são o paliativo que o sistema encontra para que a ilusão de harmonia se mantenha. Sem essas micro-separações ilusórias, os casais certamente não se suportariam, um ao outro, por tanto tempo. Portanto, do ponto de vista psicológico, essas brigas acabam tendo uma função terapêutica importante.

Vou pensar um pouco mais nesse tema.

29.11.19

Quando me apaixono

Quando me apaixono por alguém não lhe peço a identidade. Não quero saber de onde veio, qual a cor da sua pele ou seu estado civil. Não me importa a sua idade, nem o CEP, nem as coisas que já fez. Sobrenome, CPF, pretensões — nada disso me interessa.

Não requeiro experiência. Aliás, eu a dispenso...

Quando me apaixono por alguém, dou-lhe toda a minha alma, e não exijo recompensa. Não lhe peço nada em troca: não se trata de um negócio. Não lhe tiro coisa alguma — especialmente a liberdade. E a fidelidade, é uma questão que nem se põe. Eu me entrego inteiro, e do resto nem quero saber. O que importa é ser feliz.

Quando me apaixono por alguém, eu me apaixono — simplesmente.

25.11.19

Tudo por um fio

Minha grande inspiração é Henry Miller. E foi Rimbaud quem mudou a visão de mundo de Henry Miller. E eu, influenciado por Henry, vou em busca de Rimbaud e encontro Baudelaire mudando a cabeça de Rimbaud — e este virando a cabeça de Verlaine para todos os lados. É um círculo maravilhoso... Depois ainda chegam Lorca, Neruda e Vitalina; Sartre, Osho e Cioran; Paritosh e minha Mãe — todos pairando sobre mim como doce ameaça de vida. E todos me fazem virar a cabeça, deliciosamente. Até mesmo essa menina de azul me faz virar a cabeça. Aqui na praia, quase sempre sinto-me Dâmocles, e a espada — suspensa sobre a minha cabeça por um fio de seda — brilha seu fio nesta tarde de sol infinito. O vento a balança, eu olho para os lados, encaro o desafio e começo a sorrir.

Tudo por um fio... É neste momento — quando confio no risco — é neste exato instante-agora que a Vida chega. Porque, você sabe, a vida só chega no justo momento em que temos consciência de que ela está por um fio... Ou dois!

23.11.19

Pelos versos de Mim

Houve um tempo em que meu coração, desesperadamente apaixonado, batia no meu peito. Dava uns três ou quatro toques, como se meu peito fosse a porta da frente, e o coração querendo sair. Mas como meu peito (naquela época) não era uma porta, meu coração saía escondido, pela janela das costas. E foi assim, pelos versos do meu corpo, que eu virei poeta.

20.11.19

Meu Verbo vibra em Ti

Abraço sempre a liberdade das minhas concepções estéticas — e escrevo. Na verdade, eu rabisco palavras de amor em defesa da Vida. Não para que você concorde comigo, mas para transmitir emoções — racionalmente. Escrevo para te provocar — amorosamente. Para que você pense um pouco mais sobre essa vida que hoje leva. Para que você veja o mundo de outra forma. Escrevo principalmente para excitar teu intelecto e abrir teu coração ainda mais. Por isso eu vibro tanto a cada vez que o meu verbo livre entra no teu peito e dança.

19.11.19

Ranchinho deslumbrante

Eu morava numa casa deslumbrante. Tinha até cachoeira na piscina e palmeiras no quintal. Meus amigos ficavam perplexos, e eu lhes dizia:

— Não se impressionem: a casa não é minha.

Depois — ou antes, já nem me lembro — eu morava num ranchinho de sapé lá no sul do Paraná. Ao lado de um riozinho, meia-água, três cômodos, as roupas penduradas em barbantes, chovia dentro, banheiro fora... Meus amigos ficavam perplexos, e eu também lhes dizia:

— Não se impressionem: a casa não é minha.

Hoje, descoberto e sem destino, como um solitário e amoroso cãozinho zen, eu moro à luz da Lua — e continuo dizendo aos meus amigos:

— Não se impressionem: a Lua não é minha.

12.11.19

Desobedeça

Se nós pensássemos e agíssemos exatamente como nossos pais; se nossos pais pensassem e agissem exatamente como nossos avós; se nossos avós fossem exatamente como os pais deles — e assim por diante — o ser humano ainda hoje certamente viveria trepado em árvores e abanando moscas com o próprio rabo...
Sem mudança não há progresso.
Mude.
Desobedeça!
Mas desobedeça criativamente, com inteligência, elegância e disciplina.

11.11.19

Minhas influências

O louco tem que ser lúcido. Mas essa minha concepção de Loucura não nasceu ao acaso, nem é fruto de uma simples rebeldia adolescente. Ela se deve à educação libertária que me deram minha Mãe e minha vó Vitalina, além de ser baseada na minha formação filosófica poética, e na leitura muito séria e consistente de quase toda a obra de Ronald Laing, Artaud, Henry Miller, Espinosa e Nietzsche, entre outros. Portanto, eu, pessoalmente, não mereço nenhum respeito — mas o que eu digo, sim.

Fui também influenciado por Nhô Mané, um negro velho contador de histórias que trabalhava no sítio do meu pai, e por Nhá Marica, aquela cujos seios eram chupados por uma cascavel, e que viu três ou quatro vezes o saci-pererê andando ao lado dela, no meio do mato. Também me influenciaram, claro, Nietzsche, Platão, Aristóteles, Sartre, Osho, meu Pai, meus professores etc. Mas, principalmente, recebi influências maravilhosas de todos esses meus amores infinitos — que dançam comigo todo dia, à beira desse abismo delicioso em que a vida se transforma...

Dois Caminhos

A vida tem dois caminhos:


Ou você segue o caminho da Tristeza,
arma-se de medo, de ciúmes e de falsas alegrias,
arma-se de angústia, fecha os olhos, se acomoda,
e segue o rebanho dos que não sabem;
obedece a regras injustas, não reage, não questiona,
não se aprimora, não lê, não significa,
nem percebe o absurdo em que se mete.
Vende a própria natureza
por duas ou três moedas de aço,
troca a inocência pela responsabilidade apressada,
torna-se respeitável aos olhos da sociedade,
cumpre horários, nunca tem tempo,
preocupa-se com coisas banais.
Comerciante das próprias emoções — já não brinca,
vive correndo, ama com pressa,
esquece-se da lua,
e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre,
pequena, cansada e normal...


Ou você escolhe o caminho da Ousadia,
compreende, se aprofunda, vai mais longe, realiza,
respeita o ser humano que existe em você mesmo,
resgata a própria vida e o sorriso,
rompe de vez com o passado agonizante,
procura defender a verdade, a justiça e a poesia,
acorda e assopra o fogo da alma que dormia,
ultrapassa os limites que sufocam,
cavalga o cavalo negro, cego e alado
das paixões gostosas e sublimes,
enche o peito de coragem, corações e relâmpagos,
acende de novo esse vulcão que é o teu corpo,
deixa a própria cabeça plena de agora,
de ternura e de vertigem,
e parte em busca de Aventura, de Amor e Liberdade.


É uma simples questão de escolha.



Qual é o teu caminho?

10.11.19

Livros que eu estava lendo

Livros que eu estava lendo (Guarujá, 2004). Na ordem em que estão, e na desordem em questão: Sexteto: Henry Miller. Por Amor a Freud: Diane Chauvelot. Hipnodrama e Psicodrama: Moreno. Ser Feliz faz parte do meu Show: Joyce Ann. O Espelho Mágico: Gairarsa. Biografia de Nietzsche: Daniel Halevy. Memórias Sonhos Reflexões: Jung. A Importância de Compreender: Lin Yutang. Ócio Criativo: Domenico De Masi. Grandezas e limitações do pensamento de Freud: Fromm. A Anarquia da Fantasia: Werner Fassbinder. Solidão a Mil: Edson Marques. O Manifesto do Surrealismo vai servir de inspiração para escrever o texto de amanhã. Muitos ficaram fora da foto, porque estão espalhados pela casa. Mas, cito três outros que estão aqui ao meu lado: "Picasso, o sábio e o louco", de Marie-Laure Bernadac; "Trópico de Câncer", de Henry Miller, e "As Paixões segundo Dali", de Dali/Pauwels. No banheiro está o Alan Watts, "Em meu próprio caminho" - rabiscadíssimo. Na cozinha, "O Eu Dividido", de Ronald Laing, e "Jesus: ensinamentos essenciais", de Anthony Duncan. Tem mais na sala, nos quartos, nos corredores, e no carro. /// A bonequinha nua sobre os livros é um presente de Rose, e o quadro ao fundo é uma releitura de Modigliani, feita por Joyce Ann. E, como disse Felipe Fanuel em seu comentário, eu leio "a partir da boneca, a partir da pintura, ou seja, a partir da arte".

Flor de abóbora


9.11.19

Saltar não é preciso

Sem saltar, impossível aprender a técnica do voo. Embora devamos considerar que nem todos podem ter interesse nesse atributo. Até porque esconder as asas pode acabar resultando em menos compromissos, posto que aos seres não alados não se lhes cobra voo algum. Afinal, em certos meios, rastejar já é um sucesso...

Eu e o Anjo

O amor era tanto, que eu nem percebi, entretido que estava. Acontece que um dia chegou a polícia — em forma de mãe. Mãe zelosa pela cria que agora tem asas. Não porque voa, mas porque anjo. Foi então que nós dois (eu e o anjo) nos perdemos um do outro, para sempre.

Até ontem.

8.11.19

Um Romance por dia

Se eu pudesse transferir direto para o computador os meus pensamentos, escreveria um livro por dia. Se eu pudesse converter em palavras essas coisas todas que eu vivo; se eu pudesse te contar esses amores todos que eu tenho, e as gostosuras que eu faço, e os prazeres todos que eu sinto; se eu pudesse relatar tudo isso, todos os dias, eu, além de viver, escreveria um novo romance por dia.

7.11.19

Beijar tua clavícula

Nesta noite vitoriosa e de amor escandaloso a própria lua pára atônita no céu e nos assiste. Num voo imaginário de pássaro surpreso, meus doces lábios de morango tocam de passagem tua boca entreaberta: duas ou três gotas de champanhe caem no teu mamilo pontiagudo, como chuva de cristal no Pico do Everest. Ajoelho-me ao teu lado, e teu corpo já não é mais apenas o teu corpo: é uma catedral...

Como em liturgia, sussurro uma breve oração poética, uma prece de amor, e teu instinto felino salta por sobre os meus propósitos. Nossas humanas emoções se instalam de repente, porque tua inocência é o maior afrodisíaco. O infinito brilho nos teus olhos me fascina — outra vez — e então concluo que viver não tem limite:

Sinto-me agora como se Deus derramasse mil flores recém-colhidas na minha cabeça.

Só me resta beijar tua clavícula, meu amor.



Tua clavícula..