26.9.21

Tardes de domingo

Eu quero mesmo é retirar o vermelho de uma rosa de Amsterdam — e pintar com ele as minhas tardes de domingo. Eu quero retirar um pouquinho do azul que me trazem os olhos lindos desse meu mais recente amor eterno, e depois tingir com esse tanto as minhas noites de luar. Eu quero só o lado lúdico das coisas. E o lado lúbrico dos dias. Se são úteis, não quero nunca aproveitar-me dessa santa utilidade. No fundo, agora, eu só quero mesmo é Vida — nada mais.

Nada menos.

25.9.21

Algumas Perguntas

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.


Parque da Aclimação. SP.


212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.


24.9.21

As Razões do Trabalho

A razão do trabalho.

Se enquanto trabalho não falo de amor;
Se enquanto trabalho não escrevo poesias,
nem vejo a lua, nem tomo sol;
Se enquanto trabalho não crio conceitos;
Se enquanto trabalho não beijo os olhos dos meus amores;
Se enquanto trabalho não ando descalço
em areias brancas,
nem ouço as ondas do mar;
Se enquanto trabalho não abraço a minha Mãe;
Se enquanto trabalho não leio Henry Miller;
Se enquanto trabalho não mergulho em minha alma;
Se enquanto trabalho não vejo filmes,
nem respiro o perfume das flores,
nem admiro uma obra de Michelangelo;
Se enquanto trabalho não escalo montanhas,
nem salto no escuro, nem tomo uma taça de vinho;
Se enquanto trabalho não medito, não danço, não ouço música,
nem respiro o sagrado ar da liberdade;
Se enquanto trabalho não sonho, nem pinto,
nem componho, nem desenho,
nem esculpo, nem declamo Lorca ou Neruda;
Se enquanto trabalho nem sequer me lembro
dos vinte poemas de amor
e das canções desesperadas;
Se enquanto trabalho não parto melancias,
nem rezo ao meu Deus;

Se enquanto trabalho não faço nada disso,
então só me resta perguntar:

— O que é que estou fazendo aqui?

23.9.21

Viva a Primavera!

A escrita é o código do Verbo. A roda do vinho faz tudo girar. Depois de dois ou três copos minha voz Vitalina, e realiza sinapses verbais. Ideias escorrem pelas pontas dos meus dedos falantes. Eu começo a desenhar flores e planos nos guardanapos do boteco divino, enquanto as delícias dançam no meu próprio coração. Meu peito entusiasmado, pleno de espírito, quase explode de alegria. Trilhões de átomos já estão se reunindo, sonho a dentro e mundo afora, desde hoje, para que eu os encontre em forma de estrelas e corpos em dezembro do ano que veio. E é por isso que eu escrevo declarações de amor a Deus nesta noite açucarada. A roda da vida faz tudo girar. O vinho deve ser redondo, e o Universo — também.



Nesta primavera
vou encher de flores vermelhas
todos os meus vasos
sanguíneos.

22.9.21

Kira


Nós nos beijávamos na boca. Ela era lírica, franca, inteligentíssima. Um ser questionante: tudo tinha que ter porquê, o mundo tinha que ter razão, alguma razão. Dizia já ter visto anjos correndo pela casa, mas não acreditava em bicho-papão, Papai Noel, essas bobagens...

Na boca — mas na pontinha dos lábios, é claro.

Quando lhe fazíamos perguntas, as respostas vinham cavalgando a luz, sempre brilhantes. Sua capacidade dedutiva me espantava em todos os sentidos, o raciocínio, turbilhão de faíscas lógicas. Numa palavra: era articulada. Não me lembro de tê-la visto chorar. Loucos um pelo outro, brincávamos como se tivéssemos a mesma idade: a dela. Às vezes, fugíamos para o parque, para a vida. Eu a encantei com minhas histórias da Grécia, e nossas diferenças nos abraçavam por sobre os penhascos do Ibirapuera.

No seu terceiro aniversário, dei-lhe uma bonequinha de pano. Dos vários nomes que sugeri, sabe qual a pequerrucha escolheu para sua amiguinha? "Aventura". Não se largavam, as duas. Viviam abraçadas, dia e noite.

Ela sabia seu lugar naquela geografia extravagante, em que as relações eram poéticas, abertas, descompromissadas. E ocupou com orgulho seu posto de princesa no reino caótico, onde a Arte montava presépios com grãos de arroz. Caótico — mas alegre, libertário, radical.

Nasceu numa espécie de mundo artístico em construção. Seu pai, João, e sua mãe, Regina, eram mais do que isso: eram trapezistas amorosos de um circo mágico e maluco. Com ambos, ela aprendeu a ser exímia.

Engatinhava em corda bamba.

Suas fraldinhas sempre foram feitas com pedaços da bandeira do Brasil. Andava em tambores, lutava com leões, dava saltos mortais no picadeiro da sala. Não havia coisa alguma estável onde a coitadinha pudesse depositar uma esperança. Teve que aprender a ficar bem de qualquer jeito.

Ou ela seria uma artista — ou não seria nada.

Desde que nasceu, e por quatro anos, fomos amigos íntimos. E se eu concluir agora que abandonei-a de alguma forma, talvez me afogue nesse mesmo raciocínio. Portanto, prefiro achar que nos separamos por consenso. Pelo menos me eximo de uma espécie de culpa escandalosa que seria fatal aos meus atuais anseios de pureza.

Ela parecia ter mais de quatro anos no dia chuvoso em que nos despedimos, mas só tinha isso mesmo: — quatro aninhos. Por mais que lhe tenha dito adeus em voz alta, penso que ainda me espera no portão de alguma casa. Já se passaram quinze anos desde então, mas tenho certeza de que, se encontrá-la por acaso na rua, entre milhares de outras, e olhar nos olhos dela — saberei.

Porque os olhos de Kira devem ser os mesmos, devem ter a mesma candura, a mesma inocência, a mesma profundidade. Talvez só um pouco tristes, e pode ser que no primeiro reencontro derramem como pedrinhas de luz aquelas lágrimas que guardaram por mim na minha ausência.



E eu fico pensando. Por que nos separamos de quem menos deveríamos?

Por que será que o destino às vezes desamarra certos laços tão gostosos, que supúnhamos de seda, e quase eternos?

Digo que amo toda perda, porque só a perda abre caminho para o novo, mas no caso dela me pergunto: qual tesouro poderia ter preenchido esse vácuo que a ausência de Kira deixou em mim? E toda tentativa de resposta dá em nada, absolutamente nada.

Nos perdemos um do outro — simplesmente.

O que sinto por ela só posso chamar de saudade.

Tomara que dure para sempre essa procura. Contudo, tomara que a encontre, algum dia, por acaso. Se isso acontecer, vou vibrar, como um esperançoso garimpeiro velhinho que, ao cair da tarde — na última bateia — acha aquele enorme brilhante.

E sorri.



21.9.21

O Céu no Jardim


Foto feita hoje no Jardim da minha Mãe.

Sou poeta, sou puro, inocente, e pequenino. Ainda sou criança, ainda faço fantasias como se fizesse amor. Hoje de manhã aguei um canteiro de palavras lá no fundo do quintal, vi dois beija-flores no meu copo de café, colhi os meus amores com a boca na parreira, meditei entre as uvas do jardim — e tomei sol no coração da minha Mãe.







20.9.21

Meus dias

Eu sonho tão alto que o próprio barulho ousado do sonho me acorda.

Já me acordo com Deus perto.

E me desperto dançando e perguntando se há no mundo melhor coisa que ser feliz e ser saudável. Vejo estrelas no meu teto, repito a oração como se reza, e me espreguiço felino, suave, amoroso, sorrindo — e gostoso!

Mas me levanto só depois que gargalho. Se por acaso não acho motivos pra gargalhar, também não os acharei pra levantar...

Enquanto isso, faço contas complicadas de cabeça, abraço a Vênus de Milo que eu tenho no peito, calculo logaritmos a olho, traduzo algumas frases do chinês e do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulas geodésicas no quintal da minha Mãe, visualizo meus próximos prazeres — tudo sem destino e sem pudor.

Acordo já fazendo ginástica com meu cérebro, pois não quero teias de aranha nos meus neurônios. Quero distância do AD, e desconheço a depressão. Porque sinapses, só as brilhantes me excitam. Então, potencializo-as, a cada instante, com lógica e amor.


Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, já cheio portanto de luz — iluminado, de novo — e de mim.



Meus dias começam sempre assim..

19.9.21

Zorba O Buda

Como disse Zorba, o Buda, cada um procura (ou constrói) o seu próprio paraíso: alguns consideram paraíso um copo de pinga; outros, uma igreja evangélica ou uma carreira de sucesso; outros ainda, um saldo bancário ou relações fechadas de amor eterno. Mas eu, como poeta que sou, tenho assim meu paraíso: uma bela tarde ensolarada, uma brisa delicada me tocando as duas faces, gostosuras preenchendo meus olhares, tempo livre, e ao meu lado um amor apaixonado que eu agora esteja amando. E mais duas ou três mulheres-roses dispostas a beijar-me os pés.

É assim meu paraíso: entre vinhos e mulheres, entre flores e estrelas, delícias, liberdades.

E muita paz no coração.



Por falar em paraíso e mulheres-roses, Marina hoje beijou-me os pés. Beijos cândidos, lúbricos, a língua dançante, cobra vermelha entre os meus dedos loucos, explodindo-os de alegria na praia da Enseada. Agora sei o que sentia Jesus quando chegava a prometer até o céu às mulheres que Lhe beijavam os pés.

Agora eu sei...

E pergunto: por que demoraste tanto, Jesus, para mostrar-me agora essa mulher-Marina e seus lábios doces? Por que demoraste tanto, Edson, a mostrar-me essa mulher-Menina?

18.9.21

16.9.21

Grandes inteligências

Em seus processos de raciocínio, as grandes inteligências acabam considerando sempre duas ou mais visões de uma determinada questão — visões que podem ser diferentes, divergentes, contrastantes, complementares ou até mesmo antagônicas entre si — e então as analisam uma a uma ou todas em conjunto, de forma refinada, rigorosa e simultânea, sem preferir nenhuma delas — até que alguma conclusão racional satisfatória e logicamente defensável se apresente. Esse método geralmente conduz à verdade e ao sucesso.

Esquematicamente, podemos dizer que dessa relação entre tese e antítese nasce a síntese. Que, por sua vez, passa a ser uma nova tese. Então, viva Sócrates — em todos os sentidos!

15.9.21

Fugaz

Grandes paixões amorosas quase sempre duram muito pouco. A natureza da paixão é ser fugaz e passageira. Ninguém suportaria viver aventuras diferentes todo dia, fascinantes e grandiosas — por muito tempo — com a mesma pessoa...

Seria a banalização da gostosura.

14.9.21

A pluma e o queijo

Quando existe um conflito entre o caminho da vida que você está percorrendo e aquele que teu coração escolheu, isso acaba fatalmente consumindo as tuas energias vitais.

Sorrateiramente.

E, ao consumir tuas energias, ele, o conflito, esse monstro sem face, também se alimenta da certeza que tem do teu suposto fraco amor por você mesmo. Esse monstro, voraz, horroroso, se alimenta inicialmente das tuas forças, porém, quando tuas forças se acabarem, ele começa a se alimentar da tua fraqueza. Chegará um tempo em que nem mesmo a fraqueza vai te restar.

Esse conflito é um monstro sem face sorvendo teu mundo interior. Um monstro terrível e sem face, por isso não se deixa abater facilmente. É tão sagaz que tenta, primeiro, comer a tua própria possibilidade de percepção da existência dele. Ave de rapina, transforma teu peito num campo devastado, tuas veias em coivaras, deixa curva tua espinha dorsal. Avança sem trégua sobre tua alegria. Implacável e seco, arrasa de vez com tua sensibilidade, põe teu entusiasmo em ponto morto, modifica teu conceito de prazer, assassina teu amor à liberdade.

Depois, ele vai comendo as tuas entranhas. Vai comendo teu miolo, teu cerne, vai comendo tua personalidade, teu amor. Ele primeiro comeu o teu subúrbio, tua periferia, tuas redondezas, tua superfície. Mas agora ele quer o teu profundo, o teu centro, o teu Eu. Ele come quase tudo, come teu desejo, e vai comendo tua emoção, comendo aquele restinho de cor e de brilho que você ainda possa ter. O desgraçado mata tua criatividade. Mata tua poesia, teu sexo, teu romance. Esse conflito é um monstro sem face sorvendo a tua força. Ele primeiro se alimenta do teu ânimo, e depois come o teu cansaço. Come o teu corpo — e depois devora o teu sossego, a tua paz. Ele te abraça e te sufoca.

Mas nem toda tragédia tem que ser infinita. Há certamente uma saída. Há uma solução:

— A solução é ser feliz.

Tornar-se feliz é o único meio de matar esse monstro sem face que te devora por dentro.

Acontece que para ser feliz é preciso antes ser livre. E só é livre quem pode dizer e praticar a verdade, sem medo, a qualquer tempo, a qualquer custo, em todo lugar. E só pode dizer e praticar a verdade, sem medo de represálias, aquele que é independente em todos os sentidos.

E aqui passamos a um novo nível de complicação. Porque nem todos amam suficientemente a Liberdade. Nem todos nascem para ser livres. Alguns têm necessidade neurótica de ser dependentes. Dependentes do outro, de fumo, de drogas, de sono, de comida, de remédios, de aprovação alheia — e até de companhia. Alguns, ingênuos, chegam a convidar esse conflito (esse monstro horroroso) para habitar seu pobre coração.

São os dependentes de amor...

Por definição, só quem faz da Lógica o primeiro suporte, o principal instrumento de todas as suas decisões; só quem reage com senso crítico em todas as circunstâncias consegue escapar das terríveis malhas da dependência.

Portanto, este raciocínio acaba nos levando à seguinte conclusão:

— Só os inteligentes conseguem ser felizes.

Só os inteligentes são capazes de matar esse monstro sem face. Só eles podem, querem — e conseguem — ser livres.
Só eles podem se salvar.

Só os inteligentes se salvam.
(...)


Ainda estou revisando o texto acima (que é de 20.02.2012), especialmente na parte em que digo que só quem é livre pode dizer a verdade a qualquer tempo, em qualquer lugar. Há que se deixar mais claro que também a noção de timing é uma característica das pessoas inteligentes. O tigre que não tem noção de timing perde todas as presas. Por isso eu talvez ainda expanda um pouco mais esse conceito.



13.9.21

Projeto 1243

Ontem eu tive minha ideia 1243. Um grupo de investidores composto por três japoneses, três coreanos e três brasileiros.



12.9.21

Flores

Primeiro eu plantei as flores...



Foto feita ontem no Jardim da minha Mãe.

As flores são mesmo ingratas: a gente as ganha para que sejam eternas, mas então elas desistem no meio do caminho. Murcham, secam, e depois morrem, assim sem mais, nem menos, "como se entre nós nunca tivesse havido... Vênus".

E morrem talvez por desespero — talvez até por amor não respondido — antes que a gente mesmo as abandone, amorosamente, ao seu próprio perfume imortal que se acabou. 

As flores — quando colhidas — são mesmo ingratas...


Por isso, jamais eu colho essas flores que encontro nos jardins da minha vida. Quando vejo algumas, lindas, ofereço-as aos meus amores, delicadamente, mas deixo-as onde estão: no próprio caule da plantinha inocente que lhes deu origem.

E então eu fico assim — distribuindo flores e estrelas, todo dia, o dia todo...


Um novo projeto em fase de criação.



.

9.9.21

Se não for agora...

Este é o melhor ano da minha vida. Mas não aconteceu por acaso. Foi preciso eu tomar uma atitude radical. Foi preciso dar um pontapé nas circunstâncias opressoras que teimavam em prender-me. Foi preciso ser preciso. E eu fui. Foi preciso saltar profundo. E eu saltei. E acabo de me lembrando de um poema que escrevi no Manual da Separação. Está na página 192. É este:

Se não for agora, quando?

Tem hora de parar — e tem hora de partir,
tem hora de permanecer quieto e calado num canto,
e tem hora de cantar e de voar.
Agora,
agora não é hora de dobrar as asas,
nem de calar a voz,
nem de catar gravetos para fazer o ninho.
Agora não é hora de sentir remorsos,
nem de buscar consolo, nem de caiar o túmulo.

Agora que estou na beirada,
bêbado de alegria — pronto para o salto,
não me segure em nome de nada.
Não queira impedir-me dizendo que é muito cedo,
ou que é muito tarde,
ou que está escuro, é perigoso, muito alto,
muito fundo, muito longe...

Não!

Se você não puder incentivar-me para o salto,
ou até mesmo empurrar-me com amor em direção à Vida,
não me prenda, não me amarre.
Não envenene com teu medo a minha dança.
Seja só uma testemunha silenciosa desta vertigem.
Porque agora,
agora é hora de voar.
Agora é hora de abrir-me a todas as possibilidades.

E voar um voo livre e sem destino para dentro de mim mesmo!

8.9.21

Três tipos de relacionamento

Eu quero que, a partir de hoje, você mantenha três tipos apenas de relacionamentos:

1. Os que te dão prazer e alegria;
2. Os que são necessários à tua sobrevivência;
3. Aqueles que te trazem alguma sabedoria ou estimulam a criatividade.

E que todos os demais sejam considerados dispensáveis. Extremamente dispensáveis!

Afinal, se um determinado relacionamento não dá prazer nem alegria; não é necessário à nossa sobrevivência, e não traz sabedoria nem nos estimula a criatividade — mantê-lo pra quê?!

7.9.21

Viva a independência

Viva a Independência.
A dos países e a das pessoas.
A independência política, a financeira,
e a emocional.
A do Corpo e a do Espírito.
A dos amigos — e a dos amores.

Só é livre quem for independente.

PORTANTO,
INDEPENDÊNCIA — OU MORTE!



5.9.21

Eu me chama

Eu me chamo. Tenho fogo nas veias. Sempre amei a Lógica — e a Liberdade absoluta. Desde pequeno sou amante de todos os meus amores. 

Eu tinha um cachorro chamado Swing e um cavalo chamado Estrela. Minha vó Vitalina me ensinou a pecar, e meu avô era um louco fazendeiro que nunca desperdiçou a vida. 

O nome de minha mãe, Iracy, em tupi guarani poético, quer dizer "a Mãe do mel". Meu pai gostava de vinho, de girassóis e de Robert Louis Stevenson. 

Fui gerado com orgasmo ao lado de uma roseira branca — e nasci de parto natural. Minha vida é uma festa. 

Além disso, sou primogênito. 

Como se vê, abençoado por Deus. E tenho um pacto comigo mesmo pra continuar assim. 

Portanto, fuja daqui. 

Ou caia em meus braços...

3.9.21

Mais uma obra de arte


Criando mais uma Obra de Arte.



Como eu costumo dizer:

Nas horas vagas eu trabalho.









Click a imagem acima para ver o site.



.

1.9.21

Vitalina Botticelli


Ela me ensinou a pecar sem culpa — isso eu jamais esquecerei. Tinha um pé de café lá no fundo do quintal, ao lado de uma roseira, e eu ficava colhendo só os grãozinhos vermelhos, que eram doces. Havia também um velho torrador de manivela meio enferrujado, um fogão de lenha limpíssimo, e muitas histórias de amor. E uma ciência sutil que só as mulheres eleitas por Deus conseguem ter.

O processo todo das lições que ela me dava é muito longo — passa até por um despertador de alumínio Westclox, um Jesus de madeira brilhante, uma bicicletinha vermelha e várias tentações inocentes. Um dia desses vou descrevê-lo aqui.

Ela ainda assava queijo branco na palha de milho, todo dia, e me olhava com seus olhos de mistério. Mas, a imagem que mais me volta hoje à lembrança... é minha Vó Vitalina olhando o Botticelli pregado na parede da sala, e tomando café no bico do bule. Delicadamente — como se fizesse amor.


Vou agora fazer o meu.

Antes que a noite acabe e a lua se vá.

30.8.21

Atributos

 





Eu me apaixonei pelas duas — ao mesmo tempo. Mas, enquanto Patrícia desejava "o melhor" para mim, Suzana só queria que eu fosse um poeta louco, exagerado. Eu, de minha parte, que nunca tive mesmo a pretensão de ser indispensável, só queria fluir. Fluir e voar, enquanto ainda houvesse algum vento de liberdade soprando em mim. Enquanto ainda tivesse meia dúzia de asas.

Patrícia, por uns tempos, foi o meu maior amor, em quase todos os sentidos. Suzana, também. Por isso, dediquei a elas tudo o que fiz de melhor naquela fase da minha vida.

Eu as amava, mesmo!

Era sincero quando lhes dizia, a cada uma, "eu te amo". E também sincero nos momentos em que só pude amá-las em silêncio profundo porque estava, respeitosamente, com outras.

Corria o ano de 1999. 
O século 20 estava virando de ponta-cabeça. 
E a Vida, ali — me convidando como fosse Tentação.

Como todo mundo que busca crescimento espiritual, eu tenho dois lados: o sério e o gostoso. Patrícia, é claro, queria o primeiro. Suzana — o gostoso. Patrícia queria, primeiro, o eterno, o estável, o mais tarde. E Suzana queria, primeiro, o segundo, o momento — o agora! Patrícia queria o marido. Suzana, o poeta. Patrícia, como já disse, era sensualíssima, mas Suzana tinha a inocência mágica dos 17. Enquanto Patrícia adorava o burguês que morava no meu corpo, e me cobria de roupas, perfumes e presentes, Suzana só me descobria. Adorava o meu lado maluco, segurava minhas mãos como se me pegasse todo, e dizia, olho no olho, sorrindo, encantada:

Viva a vida, Edson — nos três sentidos!

Patrícia queria certezas; Suzana me jogava no abismo.

Patrícia significava segurança, estabilidade.

Mas Suzana quer dizer Aventura!

Durou quase dois anos esse nosso delicioso triângulo de vertigens. E foi só quando chegamos ao pico é que tive de optar com veemência. Porque, de Patrícia, eu tinha que me salvar correndo, para enfim poder viver. E de Suzana, eu só queria ter belíssimas lembranças...

Além disso, ambas também precisavam salvar-se de mim.

Então, saltei.

De cabeça, no coração da Vida.

29.8.21

Ato de justiça

Se, em reparação a um crime ou deslize cometidos eventualmente por maldade, o respectivo ato corretivo de Justiça for racional e elegante, sem violência desnecessária e, em princípio, respeitando a ética e o bom gosto — eu posso considerá-lo plenamente aceitável.

Mesmo que isso, no fundo, possa até ser chamado de vingança. Ou, em alemão, Rache.

28.8.21

Paixões amorosas

Precisamos acabar com esse mito horroroso de que a paixão dói...

As paixões nunca são dolorosas.

O que pode doer e até machucar bastante é a não satisfação de expectativas (ingênuas, irracionais, exageradas ou maldosas) que se montam em cima das paixões.

PIX

Em sete meses deste ano, houve cerca de 300 sequestros relâmpagos no estado de SP. Dizem que 30% envolvem o PIX. Suponhamos que seja verdade, e passemos a calcular.

São 645 cidades, no total. O que dá 0,47 assaltos por cidade. Dividindo por sete, teremos a ocorrência de 0,07 assaltos por mês. E como 30%, supostamente, envolvem o PIX, então teremos 0,021 assaltos por causa disso. Por cidade, por mês.

E o Banco Central é pressionado a atrapalhar cerca de oitenta milhões de usuários do PIX no Brasil por causa desses 0,02 assaltos por mês, por cidade do Estado de São Paulo.

Esses caras não entendem de Logica, não?

Ou há interesses escusos por trás disso?

27.8.21

Meu corajoso bisavô

O mestre Antonio Abujamra intepreta aqui o texto que escrevi sobre meu bisavô.



SOU BISNETO DA REBELDIA

Meu bisavô, aos sessenta e dois anos de idade, na década de trinta do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente chamada Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O velho Luiz Marques, atolado numa estabilidade massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade.

Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos despontando. Então o fazendeiro abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções.

Tudo por causa de Vitalina.

Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor, ele abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado como herança. Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante.

Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida. O respeitável senhor Luiz Marques tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.

Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho branco e contando essas coisas todas pra você.

Sou portanto bisneto da rebeldia.

Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores.

E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício. Só estrelas.





O texto acima abre meu livro Manual da Separação. Caso queira saber mais, click na imagem da capa:

Relações que deram certo

Eu não acho feias as relações que deram certo. Eu acho até bonito quando vejo um casal de idosos se dando as mãos, solidários no tempo que passou. Eu acho bonito quando vejo um casal que se respeita nas suas mútuas limitações. Nenhum deles espera do outro mais do que aquilo que o outro está disposto mesmo a dar. São humanos. Eu os compreendo. Eles se ajudam, reciprocamente. Merecem esse tipo de conforto. Só querem ser normais. Afinal, nem todos nasceram para para o desbunde libertário e para as aventuras românticas que a vida livre proporciona.

Nem todos nasceram pra saltar profundo...

O que eu lamento, muito, são esses casais que NÃO deram certo. Vivem se estapeando, emocionalmente. Se detestam quase sempre. Já não transam há meses — e dizem que se amam. E ainda dormem na mesma cama, por anos a fio... Ciumentos, obviamente. Possessivos. Ficam juntos não por amor, nem por amizade, mas porque são covardes. São medíocres. Quase horrorosos. Lamentáveis.

26.8.21

Elegância racional



Tudo que eu digo é dito sempre a partir do MEU ponto de vista. Isto deveria ser óbvio. Portanto, se eu disser algo com o que você não concorde, não é preciso nem necessário brigar comigo. Mas, se você, eventualmente, concluir que é preciso mesmo brigar, procure brigar apenas contra esse meu específico ponto de vista, com o qual você, no fundo, supõe não ter concordado.

Contudo, mesmo assim, e se possível, brigue de modo elegante. Manifeste as discordâncias com finesse. Com civilidade.

Se adotarmos esse critério racional e refinado de manifestar eventuais discordâncias entre nós (conceituais, filosóficas, amorosas, comerciais ou políticas, tanto faz), é bem provável que as nossas relações de amor ou de amizade jamais venham a sofrer abalos fortes por conta disso.

Então, ANTES da tua próxima briga — contra quem quer que seja — procure considerar, friamente, o que eu estou propondo acima.

A ousadia racional e elegante é que move o mundo.

23.8.21

Para Ler Na Viagem

 


Sem fome, sem sono, sem culpa, sem dor. Sem pressa, sem apego, sem pressões. Sem esperas, sem cobranças, sem promessas. Sem medo e sem controle, sem ódio e sem juízo. Sem maldade — e sensível. Sentindo-me eterno no transitório. Buscando equilíbrio no instável, no incerto. Amado com delícia e liberdade, e amando com grandeza e ousadia. Passageiro numa viagem sem destino, percorrendo caminhos ainda não trilhados. Cada vez mais fascinado e encantado com os novos horizontes que se abrem. Adorando as surpresas no momento em que acontecem, e vivendo a primavera em qualquer das estações. Quebrando as barreiras, de modo irreversível. 


Encontrando a essência de cada coisa nela mesma. Comprendendo as razões também daqueles que não conseguem me compreender. Vivendo o mais profundo, o mais criativo, o mais sensual, o mais inocente e o mais sagrado período da minha vida. Sugando a doçura de todas as coisas... Vivendo as maiores e melhores paixões da minha vida, e vibrando com tudo que me toca. Sentindo-me a cada momento como se Deus me cobrisse de glórias, de flores e estrelas. Dançando nas minhas próprias e nas tuas emoções. Inundado de carinho e gratidão. Com a cabeça nas nuvens — e o coração no infinito. 

Portanto, o que mais posso eu querer da vida, além de amores livres e brilhantes, crepúsculos cor de abóbora na praia que eu prefiro, óleo de amêndoas doces, um buquê de rosas brancas e vermelhas, duas ou três taças de vinho transbordantes, muita liberdade, alegria, saúde, poesia, gostosura — e tempo livre para viver tudo isso? O que mais posso eu querer da vida?!


Leia o livro

22.8.21

Algumas frases

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.

212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.


20.8.21

Estrelas a bombordo

Eu abro caminho com estrelas a bombordo e com flores no infinito. Na vida, eu sempre me ligo a certas coisas e me desligo de outras. Fico cheio de tantas, e vazio de muitas.

Um Mar Vermelho inteiro acaba de se abrir aqui agora mesmo à minha frente. E eu respiro como se ondas azuis inflassem de Deus o meu espírito em repouso.

Tudo agora é muito claro para mim.

Até o Céu se esclareceu.

Aliás, se vou para o Norte ou se vou para o Sul — nunca mais saberei. Porque não é preciso mais saber, nos dois sentidos de saber e de preciso.

Nada agora é mais urgente que viver Agora.

Por isso que rasguei os meus mapas, quebrei meu relógio e joguei minha bússola... Acabei de me encontrar — e abracei meu coração.

Apaixonei-me por Mim...

18.8.21

Vitórias elegantes

Aos meus adversários eu sempre lhes concedo alternativas. Que escolham eles mesmos o tipo de derrota que preferem. Porque, para mim, toda vitória tem que ser elegante.

17.8.21

40 coisas

QUARENTA COISAS PRA FAZER AINDA EM 2021
:

01. Tome mais água, mais vinho e mais sol.
02. Escolha melhor os teus próximos amores. Prefira os livres.
03. Viva com mais Entusiasmo, com mais Energia, e com mais Coragem.
04. Arranje sempre algum tempinho pra falar com Deus.
05. Faça atividades que estimulem o teu cérebro.
06. Leia mais livros do que leu em 2020.
07. Fique em silêncio alguns minutos todo dia. Pense. Reflita. Medite.
08. Procure dormir tranquilamente, para acordar de bom humor.
09. Faça exercícios físicos. Caminhe pelo menos 30 minutos por dia.
10. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
11. Não compare a tua vida com a de ninguém. Cada um tem sua história.
12. Seja um otimista racional.
13. Mantenha o controle absoluto dos teus estados de espírito.
14. Não se torne sério demais. Só os alegres vão pro Céu.
15. Só gaste tua preciosa energia com coisas gostosas.
16. Sonhe mais. Sem sonho não se cria nada.
17. Saiba que a inveja é um desesperado sinal de fracasso.
18. Jamais conclua apressadamente. Analise antes as premissas.
19. A vida é curta demais para ser tão pouca. Viva mais!
20. Faça as pazes com o teu passado para não estragar o teu presente.
21. Ninguém comanda a tua própria felicidade, a não ser você mesmo.
22. Já que a vida é uma escola — aproveite pra aprender.
23. Sorria mais. Encontre motivos para dar umas boas gargalhadas.
24. Não é preciso vencer todas as discussões. Aceite a discordância.
25. Entre mais em contato com teus amigos e com teus amores.
26. Nunca perca uma oportunidade de ajudar alguém.
27. Se não puder perdoar a todos, ao menos os compreenda.
28. Misture-se aos melhores.
29. Jogue fora tudo que não presta.
30. O que outros dizem a teu respeito nunca vai mudar a tua essência.
31. Não permita que um simples idiota comprometa o teu destino.
32. Faça sempre o que é correto, justo e verdadeiro.
33. Procure não trair jamais a tua própria natureza.
34. Deus cura todas as doenças — exceto o mau humor e a maldade.
35. Valorize a própria liberdade, acima de qualquer outra coisa.
36. Não importa como você esteja se sentindo: pratique uma boa ação.
37. O melhor ainda está por vir — em todos os sentidos.
38. Só o que está morto não muda.
39. Preencha o teu coração com alegria, esperança e gostosura.
40. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.

TransCriação de Edson Marques sobre um texto da internet + partes do poema Mude.

15.8.21

Meu Destino

Meu destino é viver na arena, dançando entre leões famintos.

É um perigo, eu sei.

Porém, nos intervalos das lutas, sorrindo, tomo sempre um vinho rouge no gargalo colorido das garrafas de cristal.

Talvez um dia eu acabe até morrendo na arena, quem sabe.

Acontece que, antes de "morrer" na arena, eu VIVO na arena — e isso faz toda a diferença.

Prefiro ser um gladiador ensangüentado a ser um boi feliz.

Meu coração precisa de sangue, não de capim.

14.8.21

Sr. Aurélio

Aurélio, 89.

Ele é dono de um botequinho na altura do 500 de uma rua perdida da cidade onde estou hoje. Vim para uma festa, um almoço cheio de gente no qual nada comi nem bebi. Fiquei meia hora, conversei com meia dúzia, e saí andando a pé, desbravando as redondezas, sem camisa, tomando sol, ao deus-dará.

Três da tarde. Vejo um balcãozinho humilde com doces de abóbora. Entrei. Nenhum cliente. Seo Aurélio almoçando sentadinho numa cadeira de plástico com o pratinho no colo. Era um prato de sobremesa com um pouquinho de baião-de-dois e uma lasquinha de carne. Sempre come pouco, justificou. E nunca toma remédio. Só usa óleo de girassol. Para tudo: temperar salada ou passar nas pernas, tanto faz. Não tem reumatismo nem stress. Assim como eu, só vai morrer depois dos 120. É uma figura. Conversamos por um tempo, trocando emoções e respeito.

Merece uma história. Uma história de amor.

Texto original publicado em 31.01.2010.

Dê um click na foto acima e veja imagens do botequinho. E também a foto do seo Aurélio no momento em que lhe dei (em 03.02.2010) o meu livro Manual da Separação.

O sossego e a glória

Porque eu também tenho dois lados no meu interior: o que diz tudo, e o que esconde algumas coisas; o que é livre, e o que é bobo. Na verdade, sou uma arena psicológica em que um gladiador derruba leões de mil faces. Meu superego é desesperadamente forte, e às vezes me segura nos momentos poéticos que antecedem saltos cruciais.

Assim como talvez você, eu fico em dúvida, certos dias, entre o sossego e a glória.

13.8.21

O que é a inveja

Hoje quero escrever um breve texto sobre essa coisa horrorosa chamada inveja. Vou começar alterando uma frase genial de José Ingenieros, para deixá-la mais ou menos assim:

A inveja é o modo mais aberrante de prestar homenagem à superioridade alheia.

Escrevi algo sobre as invejas sublimada, neurótica e perversa. Contudo, ainda estou refinando o texto, pois passei a considerar desnecessária tal classificação. No fundo, toda inveja é perversa. Essencialmente perversa. Está prevista e condenada nos Dez Mandamentos, e expressa entre os Sete Pecados Capitais. Ou seja: imperdoável até mesmo por Deus! Ela também é condenada em todos os livros e códigos que tratam da ética nos relacionamentos humanos. Até Shakespeare acabou colocando-a no rodapé da moral. A inveja é condenável, em si — e em todos os sentidos!

Roedores da glória alheia, os invejosos são simplesmente abomináveis.

"O coração tranqüilo é a vida da carne; a inveja, porém, é a podridão dos ossos."
Bíblia. Provérbios 14:30

12.8.21

Livro Mude

Publicado pela Pandabooks em 2006:

 


.

Casar pra quê?

A vida é mesmo uma coisa interessante. Quando estou casado, tenho menos amores, menos amigos, menos prazer, menos tempo, menos autonomia, menos liberdade — e não me sinto muito bem. Bate um desânimo... Acabo engordando. Desabo no sofá. Deus me abandona. Fico pior. Mas, quando estou solteiro, como agora, tenho mais liberdade, mais autonomia, mais tempo, mais prazer, mais alegria, mais amigos — e mais amores. E me sinto maravilhosamente bem. Fico melhor. Deus me abençoa. Até emagreço. Salto profundo. Vivo dançando...

Então pergunto — casar pra quê?

11.8.21

A vida é uma viagem


Por que deveria ser eu como Alexandre: 
primeiro, conquistar o mundo, 
para só depois relaxar? 

Comecei a relaxar quando descobri 
que o mundo que eu deveria conquistar 
já está dentro de mim mesmo. 

Descobri que as coisas 
verdadeiramente importantes
são aquelas que levamos quando morremos. 

Conquistar-me por dentro, 
portanto, 
foi meu trabalho mais significativo. 

E como já fui conquistado por mim, 
nenhum outro aventureiro fará boa empreitada
ao julgar-me passível de ser invadido. 

Assim como Cortez no México, 
logo que cheguei nesse novo mundo
em que meu mais íntimo eu se transforma,
mandei que ateassem fogo 
a todos os barcos 
para que nunca mais 
daqui se possa 
voltar. 

Nunca mais.


10.8.21

Inundado de carinho e gratidão

Sem fome, sem sono, sem culpa, sem dor. Sem pressa, sem apego, sem pressões. Sem esperas, sem cobranças, sem promessas. Sem medo e sem controle, sem ódio e sem juízo. Sem maldade — e sensível. Sentindo-me eterno no transitório. Buscando equilíbrio no instável, no incerto. Amado com delícia e liberdade, e amando com grandeza e ousadia. Passageiro numa viagem sem destino, percorrendo caminhos ainda não trilhados. Cada vez mais fascinado e encantado com os novos horizontes que se abrem. Adorando as surpresas no momento em que acontecem, e vivendo a primavera em qualquer das estações. Quebrando as barreiras, de modo irreversível. Ultrapassando limites... Encontrando a essência de cada coisa nela mesma. Compreendendo as razões também daqueles que não conseguem me compreender. Vivendo o mais profundo, o mais criativo, o mais sensual, o mais inocente e o mais sagrado período da minha vida. Sugando a doçura de todas as coisas... Vivendo as maiores e melhores paixões da minha vida, e vibrando com tudo que me toca. Sentindo-me a cada momento como se Deus me cobrisse de glórias, de flores e estrelas. Dançando nas minhas próprias e nas tuas emoções. Inundado de carinho e gratidão. Com a cabeça nas nuvens — e o coração no infinito.

Portanto, o que mais posso eu querer da vida, além de amores livres e brilhantes, crepúsculos cor de abóbora na praia que eu prefiro, óleo de amêndoas doces, um buquê de rosas brancas e vermelhas, duas ou três taças de vinho transbordantes, muita liberdade, alegria, saúde, poesia, gostosura — e tempo livre para viver tudo isso? O que mais posso eu querer da vida?!

9.8.21

Escrevo pra você

Eu não escrevo para qualquer um:  eu escrevo pra você. Eu escrevo para gente que pensa e brilha como você. Gente que reflete. Por isso é que meus textos são breves, puros, cortantes, refinados e cuidadosamente iluminantes.

Desenhados com amor e doçura, demoro a escrevê-los. Tem dias que eu demoro duas horas para escrever uma frase. Mas tem dias que eu preciso me cegar para te abrir os olhos. Porque você passa o tempo todo em busca de uma coisa inexistente. Você quer segurança, estabilidade e certezas absolutas... Parece que você não sabe que isso é impossível. E parece que você vai continuar procurando quimeras: o homem da tua vida, a mulher da tua vida, o emprego ideal definitivo, um amor eterno, um filho perfeito, um milagre exclusivo.

Essas coisas não existem.

Mas você, ingenuamente, parece que deseja continuar desperdiçando energias vitais nessa luta inglória.

As coisas vivem dançando.

O mundo é um bailarino.

Dance!

8.8.21

Dia dos Pais

.
Meu pai era racional demais, disciplinado demais, e ético demais. Dominava o cálculo, era íntimo dos números, ensinou-me a tabuada do 13 quando eu tinha sete anos. Quem não sabe a tabuada não cresce, ele me dizia. Nasceu para o comando. Era dono de uma violência verbal impressionante — e nunca deixava pra depois as broncas que pudesse dar. Exagerado, tinha seus momentos de loucura: de vez em quando mandava fazer almoços festivos para crianças pobres. Era comum se reunirem duzentas ou trezentas em nosso restaurante. Absteve-se do jogo, não fumava, mas bebia um pouco mais do que eu supunha o certo. Com duas exceções, nunca o vi de fogo. Ele nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal da nossa casa. Depois que as plantas cresceram, ele ficava toda tarde um tempão lá no fundo, sentado num banquinho improvisado de madeira, sorrindo, encantado, tomando vinho vermelho — e olhando os girassóis girarem... Meu pai, portanto — e no fundo — talvez não fosse apenas um simples comerciante atarracado e ex-delegado de polícia. Talvez fosse um poeta. Pena que não teve tempo de ficar completamente louco: morreu aos 49, por erro de um médico que tinha a morte até no nome.



Acabou sendo enterrado sem sapatos, por uma sábia decisão de minha Mãe. Pois ele dizia que nas ocasiões especiais temos que ir de sapato novo. Então, em respeito ao que dizia e supondo ser aquela uma "ocasião especial" — íamos sair para comprar-lhe um par de novos, lá na loja do Jacopetti. Mas a Mãe foi incisiva, além de delicadamente irônica:
— Prá quê? Vai só com as meias!
Com isso, demonstrou que o comando, agora bem-humorado, passaria a ser dela.

Para um bom entendedor, meias bastam...



RECOMENDAÇÕES

Além das suas recomendações sobre sempre respeitar a propriedade alheia — e nunca usar sapatos velhos — há outras dele das quais agora me lembro:

1. Respeite a tua Mãe.
2. Não carregue pacotes.
3. Não economize na comida.
4. Seja dono do teu próprio negócio.
5. Beba pouco.
6. Estude bastante.
7. Não fume.
8. Não transe com as empregadas.
9. Não minta — exceto se for para salvar a vida.

Quando morreu, trazia no bolso, na carteira de couro marrom, uma carta, dobradinha, meio amarelada e com sinais evidentes de muitas leituras. Não sei onde pode estar o original. Talvez tenha tido o mesmo destino daquelas fotos que os doentes rasgaram. Felizmente a memória não se perde. Não é possível rasgar uma lembrança, destruir um símbolo, esconder um coração. Manifestações de amor, como essa do meu pai ao carregar minha carta consigo — até no dia da sua própria morte —, não se apagam. É uma honra para mim.

Obrigado, Pai!




NÃO ERA HIPÓCRITA

Meu pai nunca foi de bater, brigar, e em seguida dar um abraço e dizer que me amava, que era o melhor pai do mundo, que só queria o meu bem, essas bobagens todas. Sou-lhe grato por ter sido afirmativo, mesmo nos atos de violência. Não era hipócrita em circunstância alguma. Mesmo quando teve amantes, tudo foi às claras. Deixava para mim a exclusiva decisão de julgar se ele era ou não convincente. Nunca nos tentou impor seus preconceitos, nem nos convencer de que ele era um bom pai. Tinha dificuldades em demonstrar amor. Queria apenas que eu fosse diferente de todos, inclusive dele. Sempre achou que eu era predestinado — a quê, não sei. Nos meus aniversários, ele costumava me dar como presente assinaturas de jornais, às vezes rádios de ondas curtas, enciclopédias, livros, essas coisas. Mas houve uma vez em que só pôde me dar, justificando racionalmente, meio pacote de bolacha e uma caçulinha da Antarctica.

Meu pai nunca me mandou ir à missa, mas se eu não fosse à escola apanhava de cinta.

Órfão desde cedo, foi lavador de garrafas, ajudante de tropeiro, guarda-livros, jogador, comerciante, alcoólatra, racional em demasia e, como já disse, delegado de polícia — não necessariamente nesta ordem. Porém, sempre foi respeitável e honesto. No dia em que mudei-me para São Paulo ele chorou escondido. E morreu do coração aos 49.


Às vezes sinto saudades dele.



CONSULTOR DE CARREIRAS

Certo dia, eu quis montar um negócio no ramo de calçados. Mais precisamente, queria ser engraxate. Queria muito uma caixinha daquelas de madeira para exercer a profissão, que me parecia fascinante e lucrativa. Então, breganhei um relógio Mondaine por uma caixinha já pronta, comprei umas latinhas de graxa, arranjei uns paninhos velhos, duas ou três escovinhas de dente já usadas, um escova grande, marrom, duas tirinhas de casimira azul de uma velha calça rasgada, juntei-me a dois amiguinhos que já engraxavam — e saí para vencer na vida. Eu tinha quase sete anos. Mas não consegui vencer na vida. Pelo menos não naquele dia, pois meu pai foi me buscar no Mercado, repreendeu-me com vigor, porém delicado, deu minha "empresa" de presente a um menino pobre nosso vizinho — e pediu-me que eu tentasse outra profissão.

Segundo ele, engraxate já tinha demais... E que eu pensasse um pouco mais se era isso que realmente queria. Melhor deixar a decisão para mais tarde, quando eu crescesse.




EM DEFESA DO FILHO

Eis um outro fato de que agora me lembro. Era uma tarde de quinta-feira, e eu escrevo poesias numa folha de papel de embrulho. Um rádio ligado no programa do Hélio Ribeiro. Devo ter doze anos, talvez menos. Eis que chega em frente ao nosso armazém um automóvel dourado, e dele sai um gigante, cujo nome não sei. Meio bêbado, pede uma Brahma e derrama todo o conteúdo num único copo, esparramando o líquido sobrante pelo mármore do balcão, borrando meu desenho e minhas poesias. Olha para mim, e joga a garrafa aos meus pés, violentamente. Os cacos me atingem, mas não me cortam. Os demais clientes, amedrontados, especialmente Joel e Lazico, não se opõem. Permaneço onde estou e também sinto medo, mas não o demonstro. Ouvindo o barulho, vem minha mãe e pergunta a esse homem forte as razões pelas quais jogou a garrafa aos meus pés. Ele profere alguns palavrões, ofende minha mãe, e sai sem pagar. Entra no seu belo e reluzente Simca Chambord, e desaparece.

Chamado por telefone, meu pai chega logo em seguida, na viatura da Polícia (ele era então o Delegado da cidade), e me pergunta os detalhes. Conto-lhe. O número da placa, a cor do carro, etc. Pede-me que eu vá com ele à procura do valentão. Como a cidade é pequena, meia hora depois o encontramos na Praça São Pedro, num bar cujo nome era, se bem me lembro, Toca da Onça. Meu pai dá-lhe voz de prisão e os dois soldados que nos acompanham o colocam no camburão, com toda delicadeza. Os soldados eram irmãos, enormes, e se chamavam Lourenção e Vicentão Cavalcante. Vamos até a delegacia, meu pai ordena que coloquem o monstro numa cela vazia. Pede que eu fique olhando, do lado de fora. Ele entra na cela e diz aos dois soldados para trancarem o ferrolho, e que só interfiram se ele “estiver batendo muito ou apanhando muito”. Meu pai aponta o dedo para mim e faz uma pergunta ao gigante. Este faz um gesto de desprezo e parece ter repetido que faria tudo de novo. O que se viu então foi um massacre que durou cerca de dez minutos. Meu pai também era forte — e bateu naquele homem de uma forma que eu só veria mais tarde em filmes de Charles Bronson.

A cela depois foi aberta, e lá ficou o corpo estendido no chão. Meu pai pegou-me pela mão e me levou de volta para casa, em silêncio. Ele estava com a camisa branca rasgada e tinha muito sangue nas mãos. No caminho, ele chorou, e pouco antes de chegarmos em casa, me disse: “Nunca permita que alguém destrua as tuas poesias.” Também me disse que, se não tomasse tal medida drástica, eu poderia ficar traumatizado e com alguma necessidade de vingança pelo resto da vida. Entretanto, eu acho que ele só quis mesmo foi mostrar-me que era mais forte que o gigante. E que ele era meu pai, em todos os sentidos.

Por conta disso, perdeu o cargo de delegado de polícia, sofreu um demorado processo judicial — mas, talvez em compensação, eu me tornei um poeta libertário.




BIOGRAFIA ?

A biografia dele é muito curta. Trabalhou demais — e divertiu-se de menos. Mas há um fato pitoresco. Certa vez um dos meus irmãos, Ricardo, encontrou-o num puteiro chamado Sete Belo, no subúrbio de Campinas. Constrangidos, trocaram olhares inocentes de cumplicidade e cada qual tomou seu rumo. Nunca mais tocaram nesse assunto. Mais tarde, quando soube que ele estava tendo um caso com uma amiga minha, cheguei a lhe dizer, discretamente, que todo grande homem tem amantes. E se não tem, é porque não é...





APOIO EMOCIONAL

Quando meu pai chegou em nossa casa na manhã seguinte à invasão da casa das putas — cujos detalhes contarei logo abaixo — eu estava no armazém, escrevendo num papel de embrulho um poema de amor, mentalmente dedicado a Sonia Maria, e que era assim: “Depois de acender estrelas / no teu céu da boca / depois de vasculhar os teus encantos / depois de ultrapassar os teus limites / acabei concluindo / que só a união / de duas grandes espontaneidades / pode gerar / e manter / por algum tempo / um belo caso de amor”. Em voz alta, meio sonolenta, leu duas ou três vezes esse poema, passou carinhosamente a mão na minha cabeça e antes de ir para o seu quarto rosnou um elogio inesperado: “Bonito, filho! Muito bonito! Escreva mais, escreva mais!”

(Eu só tinha doze anos, e acho que esse elogio dele me levou a ser hoje um amante da liberdade absoluta.)





CONSELHOS

Além daqueles conselhos que ele me dava, alguns acima citados — "Não minta. Não roube. Não fume. Não beba demais. Não se misture com a ralé. Nunca coma de marmita. Não bata cartão de ponto. Não use sapatos velhos. Estude bastante. Respeite muito a tua mãe. Leia dois jornais por dia. Ouça rádio. Respeite tua avó", etc. — havia um outro, quase solene: "Encaminhe os teus irmãos" — pronunciado entre sorrisos e com o dedo falsamente em riste. Acabei seguindo todos esses conselhos. Só os irmãos é que não consegui encaminhar com meu estilo de vida e minha visão do mundo: ficaram todos aboslutamente normais...




CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Quando ele morreu, morreram as circunstâncias carcereiras de si mesmas que eu trazia no meu peito. Embora houvesse ainda um monte de coisas não resolvidas, penduradas num passado que teimava em resistir, foi fatal o tipo de adeus que nos ligou aquele dia. Antigas imagens opressoras se apagaram com o tempo, uma a uma. Tudo que de mal havia foi-se antes, ficando livre o terreno para que pudéssemos talvez amá-lo um pouco. Vivíamos uma suspensão temporária das hostilidades, uma coexistência pacífica, uma espécie de paz armada, com certas escaramuças de vez em quando na fronteira do nosso amor.
As lembranças mais recentes eram brandas, quase delicadas, com exceção da pressa e de algumas ilusões. Claro que foi chocante sua partida, a forma como se deu. Assim como a nossa, a vida dele era um jogo — e o perdeu.

(Quando descasco a cebola da existência meus olhos ardem.)

Mesmo as oito horas que se passaram entre a ciência da sua morte e a visão do cadáver por sobre a mesa não foram suficientes para acalmar meu coração alvoroçado. Embora vencedores, os filhos trazíamos na boca um amargo sabor de derrota iminente: talvez um maior inimigo já estivesse à espreita das crianças que éramos então. Porque imprescindível seria o retorno da mãe que aparentemente pretendia morrer para salvar-se daquela vida.À beira do caixão eu descobri que meu pai passou a ser meu mais recente amor eterno. E declamei para ele, em silêncio, o poema com esse título que criei na hora. Chorando lágrimas secas. Depois eu repito aqui o poema pra você também.

Naquela noite minha mãe arrumou-me a cama em que ele dormia, no quarto que fora meu quando morava lá. Cumprindo ordens de um deus que só ela ouvia, puxou-me pelas mãos quase chorando e me disse, séria — não como mandasse, nem como pedisse:
— Você dorme aqui.
Olhei para o duplo símbolo de morte, vazio que esteve antes de mim, agora bem arrumado e com muito amor pela mulher que passou a ser viúva de si antes mesmo de lhe morrer o marido. Era como se passasse creme nos meus pés rachados... De novo olhei firme para a cama e o lençol de metáforas que a cobria, e aceitei jogar ali por um dia o meu corpo. Mas disse à minha alma assustada:
— Vai-te agora para bem longe daqui!
“Voa, alma, voa rápido — mas volta, por favor, volta buscar-me amanhã de manhã!”
(Ela voltou.)





OS HOMENS FAZEM AS CIRCUNSTÂNCIAS
NA MESMA MEDIDA EM QUE AS CIRCUNSTÂNCIAS FAZEM OS HOMENS


Permeando toda essa situação de tempo e de lugar, a desfocada lembrança, imagens que a memória me trazia com insistência. Assim como Abraão, o patriarca do povo judeu que levou seu povo ao Canaã, meu pai também ouvia vozes, e nos levou ao Paraná. O chuvisqueiro enviesado continuava martelando-me as costas com suavidade quando senti sua voz me chamando, baixinho:
— Chegamos...
A fronteira ficara para trás, mas nosso estado continuava precário. Eu não entendia por que era prometida aquela terra. A quem? Essa dúvida me angustiava, talvez porque promessas foram o fundamento daquele meu tempo, um tempo escasso, sem solução, em que nada havia que não fosse provisório. Era sempre um tempo de passagem. Ele vinha em mangas de camisa, xadrez, que a chuva enegrecia e colava-lhe ao corpo. Havia me coberto com seu paletó, aquele mesmo azul-marinho do casamento. De vez em quando, acariciava-me o rosto, com gestos puros que ainda hoje moram no meu peito, inesquecíveis, demorados. Abri um pouco os olhos, vi luzes da cidade brilhando em conta-gotas, um colírio. A botina esquerda apertava-me o pé, ainda nova, quase uma comemoração, um presente prometido quando ajudei na última colheita do feijão das águas.
Levantei-me sobre o braço, encolhido, sentindo cheiro de terra e um pouco de esperança. Meu pai incentivou a marcha do Estrela com o chicote, virou-se para meu lado e, quando nossos olhos se encontraram, tentou profetizar:
— Agora as coisas vão melhorar, se Deus quiser...
Passei a mão torta pela testa, afastando o cabelo escorregado, num gesto de quem não pode acreditar.
— Você vai entrar na escola...
Estrela era o nome do meu cavalo, já dado em promessa a um santo, não sei qual. A charrete era azul, desbotada, velhinha, o nosso meio de transporte. Em cima dela, sonhava com lugares novos - mas tudo era igual.
Embaixo do banco, nossas roupas, poucas, amassadas no saco de farinha, as panelas barulhentas, a espingarda.
E o retrato da mãe, — pensei, — onde estará?...
O chuvisqueiro aumentava lá no fim da estrada sinuosa de Sengés.
— E o retrato da mãe, pai?...
Demorou para me responder, sem olhar-me nos olhos, com voz fraquinha, meio rouca, desanimada:
— Tá no bolso, na carteira...


O vinho é feito de agulhas, meu copo um dedal. Costuro à mão pedaços da infância — com eles faço um lençol. Peço à Lorenna que me cante cantigas de natal da Idade Média, e ouço a Singer rangendo seus pedais no meu CD. Minha mãe também costurava com linhas de cor, pregava remendos bonitos, trocava meus botões, lavava roupas de amor. Vejo até sabão de cinzas no fogo forte que tanto me arde agora no rio do peito, espumas de lembranças incendiadas.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
De tempos em tempos eles me chamavam, e eu “— ahn?”. Depois da terceira pergunta, fiquei esperto. E aí veio a quarta vez:
— Edson?!...
(Silêncio profundo.)
— Edson?! Tá dormindo?...
(Silêncio mais profundo ainda.)
Segurei a respiração, não respondi, abri as orelhas como duas enormes antenas parabólicas, e fiquei aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Meu coração barulhento fazia "tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum". De novo, como certificassem que eu estava mesmo dormindo:
— Edson?!?!...
(Silêncio lunar.)
Então começaram. Em mim um misto de mistério e de ciúmes. Eu tinha sete anos e o sexo me era uma excitante incógnita. Com desesperada curiosidade liguei minhas antenas e fiquei imóvel para que as palhas do colchão não denunciassem a vigília. Duas pessoas faziam amor no escurinho de um rancho de sapé, no sul de um estado que nem mais existe, mas que era o Maranhão — e eu fingia dormir numa caminha bamba de taquara verde, abraçado aos meus delírios.
Naquela noite sonhei muito, tantas coisas que nem lembro. O mistério do sexo era maior que o meu. Para mim o sexo sempre foi fascinante — para mim e para Freud, claro. Na madrugada caí da cama, a única vez que devo ter caído da cama em toda minha vida, exceto aquela outra em Caracas, como já te disse. Caí no chão meio duro de terra batida, envergonhado, ainda que ninguém tenha visto a cena da queda. Trepei na cama de novo, em silêncio. E depois dormi, um pouco angustiado, sentindo-me traído naquela noite perdida no meio do mato, no sul de um estado que nem mais existe.

Já dormi em colchãozinho de palha, com um pau de lenha por baixo, fazendo as vezes de travesseiro. Experiência poética que você não terá jamais. Porque, antes de ser trágica, era poética aquela minha experiência. Não me incomodavam as palhas nem o barulho que faziam quando se roçavam entre si, como se loucas por mim, como se me aplaudissem. Eu era tão pequeno, mas tão pequeno, que aquilo não era uma cama: —era o meu berço.
(Esplêndido!)
Devemos entrar em Freud através de Reich — fico pensando. Um pouco antes eu disse “pedais no meu CD”. Que coisa mais antiga — alguns dirão. Que tal “teclas do meu DVD”? Talvez fonógrafo, toca-discos, ou até radinho de pilha. Mas a língua se enrolaria, e eu quero lubrificar o texto com a sonoridade que as palavras têm. Entrar em Freud através de Reich — e sair dele através de Jung. Primeiro, Luiz e Vitalina; depois, Luiz e Maria. Afinal, Luiz e Iracy. Agora, Eu e Mim. Pouco a pouco, muito a muito, fui chegando.
Cheguei numa sucessão gloriosa de luz, vida, pureza e açúcar.
Então aproveite-me, tente-me, prove-me. Sou filho do que há de melhor — e pai do que nunca virá. De manhã, não fico ruminando o luar que já se foi. Antes do primeiro gole de café, limpo o gostinho madrugante que minha boca possa ainda estar sentindo. Não me atenho a coisas que passaram, não me ligo a cadáveres de nada, o que morre não me encanta, eu me ocupo só do agora.
Jamais serei um desenterrador de defuntos.
Eu amo o agora — Só.
Portanto, “dá-me mais um tempo, Demônio: ainda não caiu o último grão do meu relógio de areia”.





A INVASÃO DA CASA DAS PUTAS

Ainda estou revisando os detalhes históricos desse fato. Refere-se a uma denúncia feita sobre a existência de uma menor entre as mulheres de uma casa respeitável, que ficava na Vila Beca e era chefiada por uma velha prostituta chamada Castorina. Meu pai era então o delegado e fez questão de atender pessoalmente a ocorrência, na própria viatura policial. É uma história cujo desfecho mostra muito bem o homem sábio que ele era.


E tem mais coisas — que contarei depois.




TABUADA

Ele me ensinou tabuada quando eu tinha sete anos. E aos oito me fazia somar as contas do armazém, com trinta linhas de algarismos. Se errasse, levava um croque. Tão íntimo dos números, que apostava sobre quem somaria mais rápido: ele, de cabeça, contra alguém com calculadora. Ele ganhava sempre.




O PAI DO MEU PAI

Anteontem eu fui ao Manicômio de Franco da Rocha procurar meu avô paterno. A ficha dele. Não achei. Ele era um louco delicado que enlouqueceu do lado errado. Dizem que os irmãos o deixaram certo dia jogado numa rua de São Paulo, sozinho, tremendo de frio, para que morresse abandonado e lhes deixasse a sua parte na herança. Conseguiram. Seu nome era Joaquim. Ele não havia suportado a morte do grande amor de sua vida, que caíra de uma laranjeira sobre um toco de cerca. Alienou-se do mundo por causa disso. Partiu-se em dois. Para esquecer Maria, não abraçou a poesia: abraçou a tristeza — e mergulhou no álcool. Esqueceu-se de si mesmo, perdeu a graça, e deprimiu-se fundamente. Por isso eu digo que o coitado enlouqueceu do lado errado...





O AVÔ DO MEU PAI

Meu bisavô, aos sessenta anos de idade, na década de vinte do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente chamada Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O velho Luiz Marques, afogado numa estabilidade massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade. Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos despontando. Então o ousado fazendeiro abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções.

Tudo por causa de Vitalina.

Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor, ele abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado como herança. Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante. Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida. Então o respeitável senhor Luiz Marques tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.

Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho vermelho e contando essas coisas todas pra você. Sou portanto bisneto da rebeldia. Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores. E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício. Só estrelas..




O VELHINHO DO IBITI

Eu tinha cerca de nove anos e cuidava do armazém. Na verdade era um boteco em fase de expansão. Os estoques encostavam no teto, sacarias aos montes, caixas de óleo em latas, açúcar, arroz, macarrão. Desmanchou-se um quarto para se criar mais depósito. A carteira de clientes era grande e o fiado era enorme. Geralmente, anotávamos em cadernetas, que os clientes levavam para casa. Mas também havia o pequeno fiado, o eventual, que anotávamos em vários cadernos. Pois bem. Certa manhã de domingo, antes de sair para o quintal, meu pai comentou comigo que "precisávamos reduzir o fiado". Sim, eu também concordei. E o primeiro cliente que chegou em seguida foi o Velhinho do Ibiti. Eu estava desenhando no papel de embrulho. Ele contou seus trocadinhos, desenrolou suas notinhas de um cruzeiro, e me estendeu sua mão. Naquele tempo não havia moedas, não havia centavos. Nem perguntou quanto devia, ele sabia de cor. Guardei o dinheiro na gaveta do balcão e peguei meu lápis para continuar desenhando. Em silêncio. Mas o velhinho ficou ali, me olhando, e esperando o que sempre levava. Meio quilo de sal – fiado. Que seria pago na semana seguinte, como sempre. Acontece que eu, naquele momento, havia decidido mudar a política financeira da empresa: nada mais fiado... E cometi a maior injustiça social da minha vida. Neguei ao velhinho do Ibiti o seu meio quilinho de sal.

Quando meu pai chegou contei-lhe sobre a minha decisão. Ele apenas sorriu, passou a mão na minha cabeça e pediu-me que fechasse as portas do boteco: sairíamos. Meia hora depois, numa estradinha poeirenta, sacolejando na charrete azul puxada pelo Estrela, tentávamos alcançar o velhinho do Ibiti. Nas minhas mãos, o meio quilo de sal.
Alcançamos.

Nossa conversa na volta foi muito esclarecedora. É provável que tenha sido nessa tarde de domingo que eu me tornei um socialista. E o velhinho do Ibiti continuou tendo crédito semanal para o seu meio quilinho de sal.

O Sr. Luizito – esse era o nome dele – nunca dava aprovações antecipadas nem broncas por agenda. Tínhamos obrigação conhecer-lhe os critérios de verdade, os conceitos sobre as coisas, a filosofia de vida. Era um mestre zen com vara de marmelo. Faça o que você decidir, ele me dizia. "Se bem feito e se correto, tudo bem. Se errado, você apanha". Tudo sem frescura. Simples. Direto. Funcional.

Assim era o meu pai: um bruto com coração.



Eis um poema que escrevi pra ele, em 1989:

MEU TRANSQUERIDO PAI

Por mulheres já me apaixonei duzentas e trinta e quatro vezes de forma profunda. Por homem, é a primeira. O processo desse amor pode ter sido longo, mas a percepção que dele tenho se deu agora, amparada em três ou quatro inocências complementares. Vejo-o deitado de costas, um terno de linho bem passado, azul escuro e sem gravata, olhos fechados, como a pensar nas coisas da vida (...)
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POR ACASO MEU PAI TAMBÉM CASOU

Com base na tese que defendo no livro Teoria do Acaso, só somos o que somos porque fomos o que fomos. O destino não passa de uma inegável sucessão de acasos. A liberdade é sempre condicionada pela base material da existência. Se meu bisavô não tivesse raptado sua amada Vitalina em 1920, eu sequer existiria. Se alguém batesse à porta do meu pai minutos antes de ele transar com minha Mãe no dia em que fui gerado, eu também jamais existiria. Isso vale inclusive pra você. E se eu tivesse me casado com o primeiro grande amor da minha vida, certamente não estaria aqui, agora, solteiro — e feliz. Ou talvez meu conceito de felicidade fosse outro, e eu hoje poderia estar mais feliz ainda. Mas, com base nas estatísticas, e se o casamento é mesmo o túmulo do amor, tivesse casado, eu hoje estaria morto — no sentido figurado, ou de verdade, tanto faz. Como se vê, o acúmulo das decisões tomadas por nós determina a situação presente. Nesse sentido, se eu mudasse qualquer das decisões que tomei, por menores que fossem, em qualquer momento anterior da minha vida, nada do que vivi após essa decisão teria acontecido como aconteceu. E hoje eu não seria o que sou. Poderia estar melhor ou pior, não importa. O que realmente importa é que toda decisão é crucial. Portanto, reflita bastante sobre as decisões que você estiver tomando hoje. Elas determinarão o teu futuro, necessariamente. E como mudar o passado não é mais possível, tente mudar o futuro. Se o caminho que você hoje percorre pode desembocar na escuridão, tome providências. Às vezes, na vida da gente, logo ali à frente pode haver uma emboscada. Ou uma porta escancarada para o céu, não se sabe.