10.11.22

As coivaras no meio do caminho

001. Uma borboleta voa e você levanta a cabeça para segui-la. Tenta acompanhá-la com olhares, não somente pela graça do seu voo, mas por seu significado poético. A borboleta é o símbolo mais perfeito do ócio artístico e da liberdade criadora. Fascina porque é bela e livre. As borboletas são independentes. Não existe ciúme entre elas, nenhuma controla o voo da outra, não existe desenho prévio para o tipo de voo que vão voar quando saem a passeio. Não fazem planos para os voos do dia seguinte, não acumulam coisas, não carregam nada nas costas, não se casam nem se prometem coisas absurdas. Por isso as borboletas fascinam. Por isso as pessoas querem seguir as borboletas. Voar como elas. Ser como elas.


002. Coivaras são restos ou pilhas de ramagens não totalmente atingidas pela queimada, na roça à qual se deitou fogo a fim de limpar o terreno para uma lavoura. Mais ainda, coivaras são em verdade, no dicionário da minha lembrança pura, aqueles troncos e galhos negrecidos, quase um carvão, que ficam abandonados e caídos depois da queimada. Ontem o pai do menino, em sucessivas viagens demoradas de uma carroça velha, trouxe coivaras para que sirvam como lenha, e fez delas uma pilha lá no canto do quintal, atrás do ranchinho de sapé, ao lado da horta. Vai arrumar um encerado velho para cobri-las da chuva que costuma cair na região nesses meses de verão.

(...)

Estes são os dois primeiros capítulos do meu livro Teoria do Acaso.