30.6.26

Esperança

 Na verdade, tudo é para ler na viagem.




É gostoso ter esperança. É reconfortante. Mas a Esperança é um mal, segundo a Caixa de Pandora da mitologia grega. Pois, ao compararmos o cotidiano massacrante de hoje com uma situação ideal futura, somos tentados a considerar o futuro melhor do que o presente. E como há necessariamente em nós a tendência em preferir "o melhor", somos então levados a desprezar o hoje visando um gozo futuro de algo que supomos será melhor. E mesmo que o hoje possa ser bom (motivo pelo qual já deveria ser gozado com profundidade), passamos a aguardar o ideal, que é por isso mesmo melhor, mas que ainda não veio, e ainda não é. E talvez nem mesmo chegue a vir a ser.

Algo que pode agravar esse quadro miserável de absurdo desprezo pelo hoje é, de certa forma e em algum sentido, a possibilidade de reduzirmos voluntariamente ainda mais as qualidades do hoje, visto que, confrontado com o belo prometido para amanhã, é uma insignificância — e como tal deve ser considerado. Portanto, se amanhã será melhor, não deverei me contentar com esse pouco que o hoje representa, mesmo que seja muito comparado com alguma situação anterior. Além de não me contentar com esse hoje, nem mesmo procuro aproveitá-lo da melhor maneira: abandono-o pelo amanhã virtualmente melhor. E posso até mesmo recusar o hoje, abominar o hoje — e trocar o hoje — pelo ideal que suponho vai existir amanhã. Isso é um erro.