8.6.21

Dois ou três segundos

Era setembro, ao lado de uma cachoeira brilhante, numa tarde sóbria em que não chovia. Ano: 1999. Milhares de acasos profundos nos levaram a São Francisco. Todos em festa na sala, e só nós dois na cozinha, conversando, embalados numa extraordinária conjunção de fatores. Então, de repente, ela inclina-se sobre a mesa em frente à janela, aberta, escolhendo uma uva vermelha, a mais rubi entre as vermelhas. Eu, armado de silêncio, amor e ousadia, chego feito felino lógico e encosto em seu corpo vestido de azul meu doce coração acelerado, sangüíneo, poético, vibrante. E a musa, trêmula, com seu shortinho acetinado deslizando florido por sobre a pele morena, adolescente, não se move. Ainda escolhe mais duas ou três uvas — demorando — antes de afastar-se sem dizer nada, naturalmente, sem sequer me olhar nos olhos.

Naquele momento, ao som de um riacho cantante, o menino que eu ainda sou sentiu-se iluminado. Aqueles dois ou três segundos em que ficamos encostados um no outro, delicadamente, numa transferência simultânea de energia vital — cúmplices de um amor inocente que já nascia escandaloso — são os dois ou três segundos mais fascinantes, deliciosos e perfeitos de toda a minha vida.

E se um dia Deus quiser me dar de novo um presente inesquecível, nem pense em fama, filhos, vida eterna ou montanhas de dinheiro. Só quero mesmo que me dê, outra vez — e logo — mais dois ou três segundos iguais àqueles. Que faça tudo acontecer de novo, do mesmo jeito. Pois foi naquela breve eternidade que conheci o Amor no seu formato mais glorioso. Pleno de mim, amei de verdade, como nunca antes pude amar e como nunca mais amei depois.

Daquela tarde em diante, toda mulher que eu amo feito fogo se chama... Ela!