5.8.12

meu primeiro negocio

Eu queria montar um negócio no ramo de calçados. Mais precisamente, queria ser engraxate. Queria muito uma caixinha daquelas de madeira para exercer a profissão, que me parecia muito lucrativa e fascinante. Então, troquei meu relógio Mondaine por uma caixinha já pronta, comprei umas latinhas de graxa, arranjei uns paninhos com minha Mãe, duas ou três escovinhas de dente já usadas, um escova grande, marrom, duas tirinhas de casimira azul de uma velha calça rasgada, juntei-me a dois amiguinhos que já engraxavam — e saí para vencer na vida. Eu tinha quase sete anos. Mas não consegui vencer na vida. Pelo menos não naquele dia, pois meu pai foi me buscar no Mercado, repreendeu-me com vigor, porém delicado, deu minha "empresa" de presente a um menino pobre — e pediu-me que eu tentasse uma outra profissão. Segundo ele, engraxate já tinha demais... Acho que foi talvez por isso que eu virei poeta.

Mas a história dessa "empresa" não parou aí. Eu ainda não era poeta... Depois eu conto alguns detalhes sobre a ideia que tive no dia do meu oitavo aniversário: uma espécie de "franquia" com as minhas três caixinhas de engraxar. E do modo interessante como as consegui comprar. De como convenci o Joãozinho, o Gordinho e o Getúlio a serem meus "franqueados". Eu lhes dava o capital inicial e lhes indicava os segmentos do Mercado... Em seguida, tentava convencer o Tio Jora, o português Amândio, o Nho Joaquim, o Seu Lazico, o Dr Mário (e outros amigos do meu pai) a engraxar com eles. Marketing puro! Mas é uma longa história curta, pois essa segunda "empresa" também faliu em poucas semanas... Em verdade, não foi uma falência, stricto sensu. Foi meu pai que novamente interferiu no meu destino. Mas sem brigar comigo. Ele achou que eu estava "explorando" os meninos pobres, mal sabendo que metade do lucro era deles. E eu ainda lhes dava, como incentivo, doces e balas. Acabei perdendo a empresa, porém, em compensação, ganhei a "gerência" do nosso armazém. E um quarto enorme, só para mim, com escrivaninha e uma estante cheia de livros. Entretanto, a contrapartida que ele me exigiu foi que eu aprendesse a tabuada do 15. "Quem não sabe tabuada não é gente" — ele dizia. É a vida.