30.1.10

vendedor de contos incompletos

Paritosh era um vendedor profissional de contos e poemas incompletos, para que leitores e poetas consagrados lhes dessem continuidade. Ele criava personagens, elaborava uma pequena trama, acendia metáforas com fogo de palha, e depois vendia essas histórias de porta em porta. Carregava os textos numa velha maletinha de couro marrom, todos eles juntinhos, espremidos delicados um no outro, como se amparassem a si mesmos em busca de quem lhes desse um fim. Tão espremidos, que muitas vezes alguns personagens saltavam de um conto para outro, várias flores e figuras dançavam entre si... E o vendedor considerava-se bem pago, mesmo quando não era bem recebido. Uma porta em sua cara, uma cara feia do outro lado, um sorriso de criança, um elogio, uma recusa, um copo d'água: tudo para ele era belo. Tudo era obra do Acaso. E ainda que não vendesse conto algum, ainda que lhe rissem dos poemas, voltava sempre satisfeito para casa. Com idéias novas para novos contos, e com metáforas em folha pra jogar no seu jardim.

Ele vivia de literatura interativa, virtualmente alimentado por pequenas e por grandes emoções.

Acho que ele era eu.