29.5.09

pequeno principe

" Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. "


Dizem que essa frase é de
Saint Exupery — e que está n´O Pequeno Príncipe. Mas eu não consegui encontrá-la no original em francês. É uma frase com sonoridade belíssima em português, e impressiona por isso. Mas tem um sentido muito questionável. A palavra-chave para seu entendimento é "cativas". Se tomarmos o verbo "cativar" significando "conquistar a simpatia" ou seduzir, a frase se torna simplesmente ridícula: claro que não devemos nos responsabilizar pelo julgamento que o outro faz de nós. Menos ainda se esse eventual julgamento for meramente estético.

Contudo, se tomarmos o verbo cativar pelo sentido de "prender" (e daí cativeiro, prisão...), a frase começa a se sustentar: Se prendo alguém, devo cuidar desse alguém — e garantir-lhe os direitos básicos. Acontece que, ao prendê-lo, contraditoriamente, já começo retirando-lhe o mais básico dos direitos, que é o inalienável direito de ser livre. Logo, essa frase, ainda que sonora e bonita — é apenas um impressionante amontoado de absurdos. Uma insensatez — que é repetida como se tivesse algum sentido...

Como se vê, é uma frase extremamente bobinha.



"O Pequeno Príncipe" parece uma obra simples, mas não é. Aliás, é profunda e contém a filosofia de Saint-Exupéry. Seus personagens são parabólicos: o rei, o geômetra, o contador, a raposa, a rosa, o adulto solitário e a serpente, entre outros. O pequeno príncipe era sozinho num planeta pequenino que tinha três vulcões: dois ativos e um extinto. Tinha também uma flor, belíssima e orgulhosíssima. E foi o orgulho exagerado da rosa que desestabilizou aquele mundo do pequeno príncipe e o fez empreender a viagem que o trouxe à Terra, onde encontrou personagens fantásticos, a partir dos quais descobriu o segredo do que é realmente importante na vida. É uma obra que nos mostra uma radical mudança de valores, que ensina como às vezes erramos na avaliação das coisas e das pessoas que nos cercam — e no quanto esses julgamentos são questionáveis. Nós nos preocupamos quase sempre com banalidades, nos tornamos adultos muito cedo — e rapidamente vamos nos esquecendo da criança que ainda somos.


Cativar é estabelecer laços — diz a Raposa ao Príncipe.
Porém, no meu caso, prefiro laços desatáveis e amorosos.
— Nó cego, não! — digo eu.
E a Raposa, insistente e meio contraditória, ainda diz: — Cativa-me!


Fosse eu a Raposa, diria ao Pequeno Príncipe: — Liberta-me!

Pois, quando me cativas, me roubas o Mundo.
E quando me libertas, me devolves o Mundo.