20.6.26

Dramatis personae

O tempo passa como não fosse agora, o azul infinito profundo salta sobre mim, e as laranjeiras em flor trazendo a infância de volta, doce, pedaços de Iracy dançando vagalumes no céu da minha boca. Lembro de Itararé e da primeira vez que retornei. Um corpo jovem cheio de ossos, desejos e emoções, carregava nas mãos uma pequena mala preta contendo seis meses de saudades, as roupas amassadas, algumas esperanças e um rádio-gravador Philco meio quebrado. Mal tendo o dinheiro da passagem de volta, ali na Rua São Pedro, naquela madrugada inesquecível, o comunista romântico, sentimental, com a barriga roncando a fome acumulada da véspera, caminhava ansioso, prestes a reencontrar os irmãos, o pai, a mãe e a história. Com lágrimas nos olhos eu era uma pessoa que chegava de longe — e tremia. Portanto, muito mais que uma das dramatis personæ em busca de choro, eu era em verdade um deus assustado em busca da origem.